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zassu

31
Jul17

Poesia e Fotografia 421

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PAINEL


Terra lavrada e pintada
Com a ponta da charrua.
Tela nua
Colorida,
Onde um gesto compassado,
Sagrado,
Semeia a vida.


Torrão, 30 de Novembro de 1968

6011675.jpg

30
Jul17

Poesia e Fotografia 420

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MÁCULA


Manhã de luz doente
Como as folhas que a febre amarelece.
O céu, baixo, parece
Desprender-se do aro que o sustém.
Tristes, as coisas murcham nos sentidos
Deprimidos
Outoniços, também...


Coimbra, 3 de Novembro de 1968

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29
Jul17

Poesia e Fotografia 419

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DOIRO


Corre, caudal sagrado
Na dura gratidão dos homens e dos montes!
Vem de longe e vai longe a tua inquietação...
Corre, magoado,
De cachão em cachão,
A refractar olímpicos socalcos
De doçura
Quente.
E deixa na paisagem calcinada
A imagem desenhada
Dum verso de frescura
Penitente.


Ferrão, 7 de Setembro de 1968

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28
Jul17

Poesia e Fotografia 418

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MAR


Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No Búzio do areal…
Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado…
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.


Miramar, 7 de Agosto de 1968

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27
Jul17

Poesia e Fotografia 417

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REFLEXÃO


Sim, olhar a paisagem…
Olhá-la como um bicho
Ou como um lago.
Olhá-la neste vago
Sentimento
De pasmo e transparência.
Olhá-la na decência Original
Com os olhos de inocência
E de cristal.


Gerês, 2 de Agosto de 1968

Vilarinho Seco.jpg

26
Jul17

Poesia e Fotografia 416

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 


POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANTILENA DA PEDRA

 

Sem musa que me inspire,
Canto como um pedreiro
Que, de forma singela,
Embala a sua pedra pela serra fora...
Upa! Que lá vai ela!
Upa! Que vai agora.


A pedra penitente que eu arrasto
Tem o tamanho de uma vida humana.
E só nesta toada a movimento,
Embora o salmo já me saia rouco.
Upa! Meu sofrimento!
Upa! Que falta pouco...


Coimbra, 30 de Julho de 1968

2187729723_efb1237973.jpg

 

25
Jul17

Poesia e Fotografia 415

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGENDA

 

Folheio a vida

Num calendá¡rio velho.

Dias riscados, como contas pagas.

Domingos de repouso,

Segundas de trabalho,

Sábados de cansaço,

Sem nenhum sentido.

No abismo do nada,

O nada, apenas.

Quem sofreu nestas páginas vazias,

Tão frias,

Tão serenas?

 

 

Coimbra, 30 de Maio de 1968

calendario.jpg

24
Jul17

Poesia e Fotografia 414

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA


 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

TRANSPARÊNCIA

 

Deixo cair a tarde

Nos olhos fatigados.

O dia foi de luz intensa e demorada,

Nevada nas alturas.

Guardei a que podia.

Agora quero a noite

E a brancura das horas

Sem lembrança.

Trevas e claridade

Inconsciente.

Longe daqui e sempre aqui

Presente.

Quero sonhar apenas o que vi.

Quero ver o que vi mais transparente.

  

Chaves, 9 de Abril de 1968

Blaueis-Spitzbergen_0859.jpg

23
Jul17

Poesia e Fotografia 413

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGORA 

 

Abre-te, primavera!

Tenho um poema à espera

Do teu sorriso.

Um poema indeciso

Entre a coragem e a cobardia.

Um poema de lírica alegria

Refreada,

A temer ser tardia

E ser antecipada. 

 

 

Dantes, nascias Quando eu te anunciava.

Catava,

E no meu canto acontecias

Como o tempo depois te confirmava.

Cada verso era a flor que prometias

No futuro sonhado…

Agora, a lei é outra: principias,

E só então eu canto confiado.

 

 

S. Martinho de Anta, 31 de Março de 1968

1005410_orig.jpg

22
Jul17

Poesia e Arte 51

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LONGO VAI O MEU CANTO


Longo vai o meu canto,
Sem eco na paisagem que atravesso.
Nele me despeço
Lentamente da vida.
De todas as riquezas que ela tem,
E ninguém
Possui senão de vista e de fugida.


Longo vai o meu canto,
Sem eco, porque nunca foi ouvido.
Nele, humano e dorido,
Protesto contra a minha condição
De mortal sem nenhuma garantia...
Longo vai o meu canto
E o desencanto
Desta longa porfia...


Coimbra, 1 de Março de 1968

Caspar_David_Friedrich_-_Wanderer_above_the_sea_of

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