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zassu

23
Abr17

Poesia e Fotografia 389

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA


 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA
 

DESGARRADA


Na sina que me foi lida,
Este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
E sombra dentro de mim.


Gerês, 12 de Agosto de 1965

_NOC9210.jpg

23
Abr17

Poesia e Arte 47

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA
 

PENÉLOPE


Ulisses desterrado
No mar da vida,
Digo o teu nome e encho a solidão.
Mas pergunto depois ao coração
Por quanto tempo poderás ainda
Tecer e destecer a tela da saudade...
Vê se não desesperas
E me esperas
Até que eu volte, e à sombra da velhice
Te conte, envergonhado,
As indignas façanhas
Que cometi
Na pele do semideus que nunca fui
Sê tu divinas, de verdade, aí,
Nessa ilha de esperança,
Fiel ao nosso amor
De humanas criaturas.
Faz que seja bonito
O mito
Das minhas aventuras.


Coimbra, 1 de Junho de 1965

800px-Penelope-Homer-Odyssey-Project_Gutenberg_eTe(Penélope Vaticana - Cópia de uma estátua de meados do séc. V a.C/Museu Pio Clementino - Vaticano)

 

23
Abr17

Poesia e Fotografia 388

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AMBIÇÃO


Meu canto, bafo da terra,
Não pára, não tem sossego.
Nestes campos do Mondego,
Nas serras de Trás-os-Montes,
Cada vez quer mais pureza
E largueza
De horizontes.


Cada vez vem de mais fundo
E quer chegar mais além;
Cada vez quer mais alguém
A ouvi-lo
E a repeti-lo,
E a enriquecê-lo, também.


Cada vez deseja ter
Mais força de inspiração,
Mais poder de encantação,
Mais livre sinceridade.
E ser, nessa liberdade,
Hálito de comunhão
Do mundo, da humanidade.


Coimbra, 20 de Abril de 1965

P1250621.JPG

23
Abr17

Poesia e Fotografia 387

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A PALAVRA


Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei,
As reconheço, agora.


S. Martinho de Anta, 13 de Abril de 1965

Selenicereus_grandiflorus-101.jpg

22
Abr17

Poesia e Fotografia 386

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

BANQUETE


Enche os olhos de terra.
No Alentejo há muita e de graça.
Dou-lhes essa fartura,
Antes que um só torrão, na sepultura,
Os cegue e satisfaça.


Monforte do Alentejo, 29 de Novembro de 1964

20151001_170232_01_IMG_8667_1250.jpg

21
Abr17

Poesia e Fotografia 385

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MIRAGEM


Passa um navio ao largo dos meus olhos.
(Os meus olhos, agora, são azuis,
Imensos e navegáveis...)
Passa moroso, como um desejo
Insatisfeito.
Passas, e morre desfeito
Em bruma de ilusão
Na curva do horizonte cruciante
Que cerca a solidão
De quem sonha, tolhido, um cais distante...


Miramar, 18 de Agosto de 1964

navio.jpg

21
Abr17

Poesia e Fotografia 384

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LIÇÃO


Oiço todos os dias,
De manhazinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo,
E sempre variado.


S. Martinho de Anta, 3 de Maio de 1964

14268467.jpg

20
Abr17

Poesia e Fotografia 383

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA


 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

HOROSCÓPIO


Conjugaram-se mal os astros da fortuna,
O nome rico da fatalidade.
E com eles desavindos
Na consciência.
Quem pode ser feliz?
Quem vai alegre e chega ao fim sereno?
Tolhido de antemão,
O coração
Em todos os tamanhos é pequeno.


Ditosos
Os que não sabem
De harmonias celestes
Refletidas na terra.
Que nascem como os dias,
E, como eles, decorrem
Naturalmente.
E que à tardinha morrem
Sem negruras de angústia no poente.


Coimbra, 1 de Março de 1964

moondog_saarloos.jpg

19
Abr17

Poesia e Fotografia 382

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA
 

PAZ


Paz de lareira acesa.
A vida sem horário
E os dias aquecidos.
Dias acontecidos
Num outro calendário.


Hibernação da alma
No corpo aconchegado.
Nenhum grito dorido
A bater ao ferrolho adormecido
Do sossego acordado.


Tréguas em toda a frente
De batalha.
O coração contente
Porque ninguém lhe ralha
De pulsar calmamente.

São Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1963

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18
Abr17

Poesia e Fotografia 381

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PORTUGAL


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou liberdade de um perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo e imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.


Coimbra, 16 de Dezembro de 1963

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