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zassu

31
Dez16

Poesia e Fotografia 369

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DOIRO


Suor, rio, doçura.
(No princípio era o homem...)
De cachão em cachão,
O mosto vai correndo
No seu leito de pedra.
Correndo e refletindo
A bifronte paisagem marginal.
Correndo como corre
Um doirado caudal
De sofrimento.
Correndo, sem saber
Se avança ou se recua.
Correndo, sem correr.
O desespero nunca desagua...


Régua, 16 de Setembro de 1962

369 - Doiro.jpg

29
Dez16

Poesia e Fotografia 368

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA


 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA
 

 

SILVO


Vou convosco, invisíveis companheiros.
Ouvi o apelo, e sigo nestes versos
Ao vosso encontro.
A noite é um largo leito de renúncias
Adormecidas,
Mas nós não temos sono
E abrasa-nos a fé na madrugada.
Vamos!
Vamos, fraternos,
Paralelos nos trilhos do destino,
Dizer bom dia ao sol, o deus menino,
Eternamente loiro e renascido
No presépio dos mundos apagados.
Saudar a esperança é o prémio concedido
Aos acordados!


Coimbra, 10 de Setembro de 1962

2009 - Caminhada Barca d'Alba-La Fregeneda 030.jpg

25
Dez16

Poesia e Fotografia 367

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ASCENÇÃO


À brisa irrequieta que pergunta:
- São namorados?,
Responde o céu sereno:
É o pai e a filha;
Ele quer mostrar-lhe a cúpula do mundo,
Ela pasmar da nova maravilha...


E o sol que brilha
Lá na sua altura,
Cora de ver chegar junto de si
Os heróis da sonâmbula aventura...


- Posso ir brincar ali?
- Podes, amor, que a nuvem está segura.


Gerês, 13 de Agosto de 1962

FB_IMG_1454694109525.jpg

23
Dez16

Poesia e Fotografia 366

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONDIÇÃO


Ergo os braços ao céu, desesperado.
(Lama rasteira, nem ao menos poso
Ter a nobreza altiva dos penedos!
Em vez de lanças de granito, dedos
De carne e osso
Num leque de impotência!...)

Com a corda ao pescoço,
Peço clemência
A quem, a que tirano?
A nenhum Deus que veja
Ou anteveja
Peço clemência, só por ser humano.


Gerês, 8 de Agosto de 1962

2014 - Larouco-Montalegre-Misarela e Sirvozelo - N

23
Dez16

Poesia e Fotografia 365

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

EVOCAÇÃO


Havia sol na praia desse tempo...
O mar era tão jovem como nós...
Num toldo de gaivotas,
Despiam-se e vestiam-se os desejos...
No teu corpo e no meu, cristalizado,
Brilhava sem pecado
O sal dos nossos beijos...

Um barco vislumbrado na lonjura
Negava-se ao destino de ter cais;
A brisa regressava dos pinhais
A cheirar a resina;
E a música das ondas, em surdina,
Quase sentimental,
Ressoava no búzio do areal...


Depois, vinha o aceno dos penedos...
Templos de imolação,
Ardia neles o resto da fogueira...
E o fumo que subia do brasido
Tornava mais etérea a claridade
Que nimbava de mítico sentido
Cada parcela da realidade...


Buarcos, 15 de Julho de 1962

2013 - Algarve 200.jpg

 

21
Dez16

Poesia e Fotografia 364

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

INSTRUÇÃO PRIMÁRIA


Não sabias: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.


Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...


Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Assas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...


São Martinho de Anta, 18 de Abril de 1962

material 6.jpg

21
Dez16

Poesia e Fotografia 363

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGONIA


Encho de nada
A concha
Das mãos vazias...
Que me pedias,
Que não posso dar-te,
Desespero?
Água de que nascente?
Pão de que sementeira?
Queira ou não queira
A esperança,
A hora é de secura
E de miséria
Por toda a parte...


Enganar-te?
Inventar
Miragens de frescura
E de fartura
No deserto da vida?
De que valia
Mais essa ilusão?
O cálix de amargura
Tem amargura,
Seja bebida
Ou não...


Coimbra, 24 de Março de 1962

calices biblia.jpg

20
Dez16

Poesia e Fotografia 362

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RESUMO


Dia perdido, sem nenhum encanto.
O som da flauta em vão desafiou
A raiva sonolenta da serpente.
Não houve sedução. Serenamente,
O sol fez o passeio habitual
À volta do inútil ritual
Do faquir impotente.


Coimbra, 5 de Março de 1962

Enantador.jpg

18
Dez16

Poesia e Fotografia 361

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONSELHO


Salta, discretamente, a página do amor
No Livro de Horas.
Não leias mal o que já leste bem.
Emocionado, choras
A cada passo, E tornas baço
O brilho que ela tem.


Deixa o texto arquivado na lembrança.
Passa adiante e cobre-o de pudor.
No jardim resta ainda tanta flor
Que podes desfolhar
Sem lágrimas na voz!...
Quem soube ler, sabe renunciar...
Há laudas de silêncio em todos nós.


Coimbra, 20 de Fevereiro de 1962

LA_148__fl.19v-20r.jpg

17
Dez16

Poesia e Fotografia 360

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LIÇÃO


A lição que me vem
Da calada e tenaz perseverança
Deste invernoso e austero
Mundo sem folhas, desagasalhado:
Todas as serranias em redor
Aquecidas de fé noutro calor,
Ao borralho do sol, quase apagado!...


S. Martinho de Anta, 26 de Dezembro de 1961

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