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zassu

15
Out16

Poesia e Fotografia 329

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LÍRICA


No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti...


Coimbra, 2 de Maio de 1958

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14
Out16

Poesia e Fotografia 328

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PÂNICO


A tarde olha o poente, e não desiste:
Quer ainda
Uma réstia de sol, um riso aberto
Do namorado.
Sacramentado,
O corpo morre
Doutra maneira...
E as horas, numa astúcia derradeira,
Parecem distraídas
No relógio do tempo.
Somente o coração,
Solidão
Que a noite adivinhada
Desassossega,
Incontido ponteiro do terror,
Continua a jogar a cabra-cega
Na eternidade parada
Do mostrador...


Coimbra, 3 de Fevereiro de 1958

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13
Out16

Poesia e Fotografia 327

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RESSURREIÇÃO


Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à primavera ...


Porto, 12 de Novembro de 1957

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12
Out16

Poesia e Fotografia 326

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MOTO-CONTÍNUO


Por onde passo sem cantar, já canto
Com a voz que hei-de ter.
O meu silêncio é sempre
O avesso dum verso
Ainda condenado
Ao purgatório do indefinido...
Só quando ali estiver purificado
Poderá se ouvido.


Ouvido por alheias criaturas.
Eu,
Vítima, algoz, e tronco de tortura,
Oiço o trovão
Antes da trovoada...
A arrasto, portanto,
A cruz futura do futuro canto,
Mesmo quando parece muda a caminhada.


Coimbra, 10 de Outubro de 1957

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11
Out16

Poesia e Fotografia 325

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PRAIA


Nem mar, nem terra - a estrema que os separa.
Esta orla de areia
Onde, feliz, passeia,
Só vestida de sol,
A nudez dos humanos.
Um limbo de brancura e alegria.
O tempo sem poder fazer seus danos,
E nenhum rasto ao fim de cada dia.


Miramar, 14 de Setembro de 1957

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10
Out16

Poesia e Fotografia 324

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

MADRIGAL DOS CINQUENTA ANOS


Com as mesmas palavras do passado,
Digo que te desejo, vida!
E como um namorado
Que se desmede a paixão, já desmedida,
Prometo
Ser-te fiel em esperança.
Fiel à consciente
Temeridade
De amar intensamente
Sem mocidade...


Coimbra, 15 de Julho de 1957

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09
Out16

Poesia e Fotografia 323

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PROFECIA


Algum dia há-de ser um novo dia,
Se realmente o tempo se renova.
Sepulto nesta cova
De rotina,
A ver o sol pousar sobre a colina
Em frente,
Em vez de me entregar ao sono paciente
De morrer,
Ponho-me a futurar o amanhecer.


E com toda a inquieta
Serenidade sacra de um poeta
Que descortina
A universal e própria salvação,
Vejo na imprecisão
Que a próxima alvorada
- Ou ela, ou outra, ou outra ainda -
Dará por finda
Esta luz já monótona e cansada.


Coimbra, 16 de Junho de 1957

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08
Out16

Poesia e Fotografia 322

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MINIATURA


Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança, também...
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.


É como se de repente
A minha imagem mudasse
Num cristal de uma nascente,
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente.


Coimbra, 11 de Abril de 1957

FB_IMG_1438810023763.jpg

07
Out16

Poesia e Fotografia 321

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

BRASIL


Pátria de peregrinação, É num poema que te posso ter...
A terra - possessiva inspiração;
E os rios - como versos a correr.


Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como pude
Onde podia:
Na doce quietude
Da força represada da poesia.


E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura da lembrança,
O retrato da pura imensidão
A que dei a possível semelhança
Com palavras e rimas e saudade.


Coimbra, 20 de Janeiro de 1957

04.- Exposição Tópê.jpg

06
Out16

Poesia e Fotografia 320

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TRIBUNAL


Somos nós os culpados do que somos.
E é de mim que me queixo.
Tão intensa foi sempre a minha voz,
Que ninguém a entendeu.
Por isso, quando mais água pedi,
Mais distante me vi
De cada fonte que me apeteceu.


E agora é tarde, já nem sede tenho.
Ou tenho-a como os cactos:
Eriçada de espinhos.
Olho de longe a bica tentadora,
Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
E é de borco na areia abrasadora
Que refresco a secura.


Coimbra 6 de Dezembro de 1956

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    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

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