Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 337

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PERDIÇÃO

 

Como a tarde sem mim tem alegria!
Como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...


Ah, danada traição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora!


Coimbra, 12 de Outubro de 1958

DSCF6992.jpg


publicado por zassu às 20:28
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Domingo, 30 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 336

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAMENTO


Ah, cavalo sem freio a galopar
No prado que só vês quando tens fome!
Ah, pássaro sem nome
Que passeias no céu
E não sentes tonturas sobre o abismo!
Bicho também,
Porque não sei correr,
Voar,
Pisar o pasto
E desprezar do alto a sepultura?
Pus em mim o cabresto que me prende,
Cortei as asas da libertação,
E rente à perdição
De cada hora,
Devoro o próprio chão que me devora.


Miramar, 16 de Setembro de 1958

terral cavalo 5.jpg


publicado por zassu às 17:43
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Sábado, 29 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 335

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PRENÚNCIO


Na tarde calma, ondula
A invisível ramagem dum poema.
Uma secreta brisa,
Que apenas se adivinha,
Percorre o mundo íntimo das coisas
E acorda em sobressalto
As folhas do silêncio.
Falta ainda o poeta…
Mas a evidência
Da sua voz
É como a luz do sol quando amanhece:
De tão branca, parece
Que descora a ilusão da madrugada…
Antes ele não viesse,
E em cada solidão se mantivesse
Esta bruma de música sonhada.


Gerês, 27 de Agosto de 1958

amanhecer-em-itajaí.jpg

 


publicado por zassu às 20:25
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 334

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PRIVILÉGIO


Pesadelo
No sono
Da eternidade,
A vida humana é um demorado instante
Baço e sobressaltado.
Mas não se bebe
Tão excitante
Vinho
No próprio céu!
Nenhum alto habitante
Daquele mundo divino
Pode ser tripulante
Inconformado
Dum navio sem leme e sem destino,
No mar do tempo a navegar, parado…


Coimbra, 29 de Julho de 1958

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publicado por zassu às 17:21
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 333

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

FÁBULA DA FÁBULA


Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insetos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábulas contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.


Coimbra, 22 de Julho de 1958

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publicado por zassu às 21:38
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 332

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PRESENÇA


Cheio da tua ausência,
Nem sinto a solidão.
Vida, mulher ou mãe,
Feminina saudade,
Enche-me a paz que tem
A morte, a viuvez e a orfandade.


Negativo do amor,
E sua face ainda,
O já não ser amado
É uma pena suspensa
Que liga eternamente o condenado
Ao juiz da sentença.

Triste convívio, basta-me, contudo.
Todo de luto, mudo,
Cumpro os deveres humanos,
Limpo o suor da testa,
E atravesso os anos
Fiel ao desespero que me resta.


Coimbra, 15 de Julho de 1958

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publicado por zassu às 10:14
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Poesia e Fotografia 331

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REGISTO


Vida sem horizontes.
Ímpeto só vertical,
Que se perde no céu do natural
Como um grito apertado entre dois montes.


Coimbra, 9 de Julho de 1958

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publicado por zassu às 10:12
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016

Poesia e Arte 40

 

 

POESIA E ARTE
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DITIRAMBO


É o amor que me inspira.
Amo a vida, esta bela prostituta.
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.


Amo-a, e canto esse gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
Dum leito de soluços e suspiros
Misturados,
Ergo a voz e celebro
Os deuses sublimados
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.


Coimbra, 25 de Junho de 1958

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 François Boucher, (170-1770) - Nu deitado [M.me O'Marphy], 1751 - Munique, Alte Pinakothek


publicado por zassu às 19:49
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

Poesia e Fotografia 330

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DIMENSÃO


Não há medida humana que te meça,
Humana pequenez do meu tamanho!
São gerais atributos do rebanho
A fome e a sede e o frago no redil;
Mas pastar o perfil
De cada monte,
Beber na fonte
A imagem,
Ou dejetar a raiva na paisagem
Cercada e vigiada
Do aprisco,
É o arisco
Comportamento
Duma ovelha ranhosa,
Que a presunção
Vara decimal
Não pode avaliar, nem bem nem mal.
Singular qualidade
De instinto e de razão;
Confusa confusão
De mentira e verdade;
Joio sem humildade
Que se orgulha
De não caber na tulha;
Nó de normalidade
E de loucura
- O mistério transira
Do berço à sepultura
Guardado pela força que o habira.


Coimbra, 28 de Maio de 1958

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publicado por zassu às 19:30
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Domingo, 16 de Outubro de 2016

Poesia e Arte 39

 

POESIA E ARTE
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

 

SALMO


Abro-te o coração.
É um santuário humano.
Uma nave de intensa claridade
Que leva o sol da vida à tua imagem,
E laterais recantos de penumbra
Que discretas presenças
Povoam de secreta
Melancolia.
Entra, e vê por teus olhos
O templo onde moras
E onde mora a traição
Ao culto ilimitado que mereces.
Deusa do amor, sei que tudo perdoas
A quem ama,
Olhando a própria chama
Da heresia
Como indireta luz que te alumia...


Coimbra, 18 de Maio de 1958

deusa-afrodite.jpg

["O nascimento de Vênus", de Sandro Botticelli (1483)] 


publicado por zassu às 14:31
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