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zassu

14
Set16

Poesia e Fotografia 306

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NASCIMENTO


Nascem os homens como deuses pobres:
Nus e de um ventre que desesperou
De os guardar
Sagrados e secretos no seu lago.
Nascem disformes, sem nenhum afago
Da raiva desabrida que os expulsa
E das mão aterradas que os recebem.
Bebem
O ar do mundo aos gritos.
Olham sem ver, e são
Surdos e transitórios mitos

Da nossa devoção.


Coimbra, 3 de Outubro de 1955

causas-parto-prematuro

13
Set16

Poesia e Fotografia 305

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ODISSEIA


Olho o céu pelo ralo do arvoredo.
Que plácido arquipélago azul
Disperso na verdura, mar sereno!
O tempo flui, e as ilhas vão mudando
No aro caprichoso da retina.
Ítaca, Samos, Paros...
Tudo como na Grécia
Que se decora.
De repente, uma onda desarvora
O navio da mítica aventura:
A estranha arquitetura
Do firmamento
Rouba-me o sentimento
De unidade.
Os retalhos suspensos da miragem
São a imagem
Do que eu sou, repartido à minha grade.


Gerês, 14 de Agosto de 1955

2015 - Parque das Pedras Salgadas (52)

11
Set16

Poesia e Fotografia 304

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

INICIAÇÃO


O sagrado tem caule e tem raízes,
É uma presença muda e vegetal...
Folhas - línguas discretas
Que nem mesmo os poetas
Devem ouvir...
A sombra do silêncio a revestir
Os gestos rituais
Dos ramos, que são braços atuais
A receber o tempo que há-de vir.


Gerês, 7 de Agosto de 1955

2009 -  Geira Romana 062.jpg

(Gerês - Mata da Albergaria - Calçada Romana)

11
Set16

Poesia e Arte 37

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

TÂNTALO

 

A que Deus implorar qualquer ajuda,
Se sou eu que fabrico as divindades!
Imagino,
Imagino,
E, de tanto subir, chego ao divino.

 


Mas nenhum sequioso mata a sede,
A beber na miragem de uma fonte,
Grito,
Grito,
E, quanto mais acima, mais aflito.

 


Coimbra, 20 de Julho de 1955

Tantalus_Gioacchino_Assereto_circa1640s.jpg

 (Tantalo, de Gioacchino Assereto, cerca de 1640)

10
Set16

Poesia e Fotografia 303

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ALBA


Orvalho da manhã, pranto da noite,
Luz que só tinha sombra e clareou.
Como um poema que se derramou
Sobre o corpo da vida
Mal acordada,
Assim és, pura emoção vertida,
Voz do silêncio, solidão molhada.


Coimbra, 1 de Julho de 1955

original.jpg

09
Set16

Poesia e Fotografia 302

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

POEMA MELANCÓLICO
A NÃO SEI QUE MULHER

 

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são as máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.


Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


Coimbra, 22 de Abril de 1955

FB_IMG_1456748337687.jpg

 

08
Set16

Poesia e Fotografia 301

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ALVORADA


Dilui-se a noite do mundo,
Deixa-lhe o corpo despido:
Carne de terra cansada,
Ossos de pedra roída,
E um rio, artéria azulada,
Fonte já quase bebida.

 

Mas que energia renasce
No grande rosto acordado!
Que decisão no recorte
Do seu perfil de amargura!
É como se a própria morte
Se erguesse da sepultura!


Aregos, 8 de Abril de 1955

_NOC1665.jpg

07
Set16

Poesia e Arte 36

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TRANSE


Nem tudo é lei da vida ou lei da morte.
Há limbos onde o homem desconhece
Esse dilema hostil.
É quando ama, ou sonha, ou faz poemas,
E a própria natureza o não domina.
Então, livre e perfeito.,
Paira no tempo como o pó suspenso.
Nem do céu, nem da terra, nem sujeito
Ao pesadelo de nenhum consenso.


Coimbra, 30 de Março de 1955

Jesus in Limbo by Domenico Beccafumi.jpg

(Jesus in Limbo by Domenico Beccafumi)

06
Set16

Poesia e Fotografia 300

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CÁLIX DE AMARGURA


E a vida não responde!
Faz que não ouve, e vai direita aonde
Eu não tenho palavras.
Aí, então, às lágrimas que choro
Põe-lhes sal de silêncio
E dá-mas a beber, tão brancas e caladas,
Tão quentes da fogueira das paixões,
Que não parecem minhas,
Mas vinho que se colhe em certas vinhas
À beira dos vulcões.


Coimbra, 6 de Março de 1955

videira_la_geria_lanzarote_03.jpg

04
Set16

Poesia e Fotografia 299

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONTÁGIO


Os dias murcham como flores abertas.
As horas passam, como passageiras
Dum comboio apressado.
E o espírito, cansado
Deste fluir do tempo, que não cessa,
Tenta parar ali, onde começa
O rio marginal do esquecimento,
Que ele próprio fecha os olhos e atravessa.


Coimbra, 15 de Janeiro de 1955

Fotometria_15.jpg

 

 

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