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zassu

30
Set16

Poesia e Fotografia 315

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

INCURSÃO


Terra alheia - aventura apetecida;
Pronta libertinagem
Dos sentidos;
No corpo violado da paisagem,
Atrevidos
Devaneios dos olhos indiscretos;
Virginais e secretos
Caminhos tateados;
O gosto a devorar acidulados
Frutos proibidos;
O deleite de inéditos perfumes;
E a humana comunhão de outros queixumes
A ressoar na concha dos ouvidos.

 

Loivos, Espanha, 1 de Agosto de 1956

P5010181.jpg

29
Set16

Poesia e Fotografia 314

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PASTOREIO


Uma cabra-montesa no pascigo;
Fiel ao seu balido,
Um fauno apaixonado;
Entre os dois, um açude adormecido,
Imagem do instinto represado.


Corcunda como a vida,
Uma ponte arqueada de suspiros
A ligar as arribas do desejo;
E um guarda ao passadiço,
Uma presença humana,
- O pastor, a moral quotidiana...


Carvalhelhos, 21 de Junho de 1956

Cabra_montés_2.jpg

22
Set16

Poesia e Fotografia 313

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

SEGREDO


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.


Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


Coimbra, 4 de Maio de 1956

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21
Set16

Poesia e Fotografia 312

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAGO TURVO


Angústia marginada,
Meu canto é um lago turvo
Que devolve a paisagem, como um eco
Silencioso.
Um lago onde me afogo
Sem vontade,
Puramente impelido
Por não sei que fatal necessidade
De me sentir poeta possuído.


Mar sem nascente e só do meu tamanho,
A doçura que tem é um sal sem gosto.
E a estranha inquietação de que se anima,
E o céu olha de cima,
São rugas que se agitam no meu rosto.


Coimbra, 28 de Abril de 1956

14602700.jpg

19
Set16

Poesia e Fotografia 311

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

CARNAVAL

 


Tempo...
Invisível tecido que nos veste.
Inconsúteis, os dias vão cobrindo
De translúcidas túnicas de nada
A nudez do começo.
Até que envoltos nesse espesso
Manto
Sem espessura,
Múmias do desencanto
Enfaixadas de transparência,
Povoamos o túmulo da vida.
Arlequim da existência,
Que a morte há-de despir, deusa despida...


Coimbra, 5 de Abril de 1956

Arlequim.jpg

MÚSICA «ARLEQUIM»

18
Set16

Poesia e Fotografia 310

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

COMBATE


Manhã do mundo que não amanheces!
Tantos poetas a cantar na sombra,
E nenhuma alvorada se anuncia!
Somos nós maus profetas no degredo,
Ou és tu, sol da vida, que tens medo
De iluminar a nossa profecia?


Coimbra, 24 de Novembro de 1955

FB_IMG_1455142009043.jpg

 

 

17
Set16

Poesia e Fotografia 309

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

JOGO


Bem-me-quer,
Mal-me-quer...
Salta o abismo quem assim fizer
A temerária prova
Do seu amor.
Se, em vez de acrescentar,
Tirar pétalas à flor.


Apaixonado
Doutra maneira,
Também eu
Desafio o destino:
Bem-me-quer,
Mal-me-quer,
E desfolho o poema...


Até que inteiramente nua de palavras,
A poesia
Ou de todo se entrega,
Ou de todo se nega,
Sem aquele meio-dia
Onde a alma sossega.


Coimbra, 16 de Novembro de 1955

1131065.jpg

17
Set16

Poesia e Arte 38

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ENTREGA


Inúteis como flores tingidas de saudade
Que os vivos dão aos mortos;
Inúteis como as lágrimas que chora
A criança
Que se magoa;
Inúteis, simplesmente,
Aqui ficam meus versos
No regaço do tempo.
Preito, Queixume,
Enfeite,
São tudo quanto havia
De mais puro
Dentro de mim.
E de mim os desprendo
E deponho
No colo do imundo feiticeiro
Que não lê,
Que não sente,
A cruciante angústia do presente
Com a náusea futura.


Coimbra, 9 de Novembro de 1955

Quadro_05.jpg

16
Set16

Poesia e Fotografia 308

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TATUAGEM


Um verso apenas, mas que fique impresso
Na morena epiderme
Do teu corpo maciço;
Um verso agradecido
À universal beleza
Do teu rosto redondo,
Infatigavelmente variado;
Um verso branco e puro
De rendido louvor
À serena ironia
Com que deixas brincar no teu regaço
A inquietação
E devolves o eco
De cada grito
À boca enfurecida,
- Terra, pátria da vida!
Eva que o sol fecunda do infinito!


S. Martinho de Anta, 30 de Outubro de 1955

FB_IMG_1440274020193.jpg

15
Set16

Poesia e Fotografia 307

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DESARTICULAÇÃO


Brinquedo com enigmas por dentro,
Desmancho-me e concentro
A minha angústia sobre cada peça...
Dão-nos corda, e começa
O movimento;
Mas depois é o tormento
De saber
Se era tudo a valer
Ou fingimento...


Coimbra, 7 de Outubro de 1955

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