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zassu

25
Ago16

Poesia e Fotografia 296

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REFRIGÉRIO


Cega-rega dorida ao sol do mundo,
Canto e não canto, consoante a hora.
Agora,
Justamente,
Estou a cantar.
Não sei que tenho, que só me consolo
Neste colo
De penas.
As grandes e pequenas
Mágoas de revolta
Impenitente,
Condenado a morrer sem triunfar,
Sofro-as melhor assim, a protestar
Liricamente.


Coimbra, 6 de Dezembro de 1954

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25
Ago16

Poesia e Fotografia 295

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MARCA


Um verso, ao menos, nestas serranias!
Que passa o vento sem deixar sinais
No rosto enxuto e sério dos penedos;
Que a neve vista e dispa os arvoredos
Como um velo de ovelha imaginada;
Mas que fique gravada
Na carne imaculada da paisagem
A indelével e bruxa tatuagem
De uma voz inspirada!


Gralheira, 30 de Outubro de 1954

P5010189.jpg

24
Ago16

Poesia e Fotografia 294

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REPOUSO


Durmo à sombra do tempo.
Ausentei-me da vida algumas horas.
Moro agora onde moras,
Serenidade!
Silêncio pétreo com luar em cima,
E um céu de seda, lá da eternidade,
A olhar um corpo que se reanima.


Gerês, 18 de Setembro de 1954

shutterstock_128504084.jpg

20
Ago16

Poesia e Fotografia 293

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DESTINO


Começa um rio numa gota de água.
O sonho é que avoluma o corpo nascente.
Fonte:
Tão delicada, e hás-de ser torrente
A saltar fragas e a rasgar o monte.


Gerês, 8 de Setembro de 1954

2012 - Nascente do rio Tâmega 045.jpg

 (Nascente do rio Tamega - Serra de São Mamede/Albergueria, Província de Ourense-Galiza)

19
Ago16

Poesia e Fotografia 292

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

VAZIO

 

Todo o mar nos meus olhos, e não basta!
Enche-os mais uma lágrima furtiva...
Neste banquete azul, há um só conviva
Farto e feliz.
É o céu, que se debruças sobre as ondas
Sem amargura.
É ele, que não procura
Por detrás da verdade outra verdade.
Serenamente, lá da eternidade,
Bebe e come
A imagem refletida do seu nome.


A bordo, 3 de Setembro de 1954

nebo-tuchi-solnce-zakat-more-1062.jpg

18
Ago16

Poesia e Fotografia 291

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PERGUNTA


Peixe que voas, coração furtivo,
Onde vais como seta despedida?
Que ilusão te levanta, ou que motivo
Te pede as asas duma outra vida?


A bordo, 30 de Agosto de 1954

mar-voo-livre.jpg

17
Ago16

Poesia e Fotografia 290

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MALOGRO


Tento gravar um verso
No papiro do mar.
Sozinho à ré do barco, afundo a pena
Na líquida espessura.
Mas o sulco de mágoa não perdura
Neste salgado
Letes das horas, fluído coração
Obstinado
A bater por nenhuma inquietação.


A bordo, 27 de Agosto de 1954

titanik-titanik-sudno-layner.jpg

16
Ago16

Poesia e Arte 35

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REGRESSO


Versos agora nesta rede azul.
Angústia balançada e fugidia...
O Cruzeiro do Sul
- Quatro olhos atentos à poesia -
É uma saudade acesa
No céu dos mareantes do passado.
E a tresmalhada angústia portuguesa
Que regressa ao redil da inquietação,
Chora, por ter jogado
Na roleta do mundo adivinhado
A última ilusão.


A bordo, 25 de Agosto de 1954

quadroOCruzeirodoSul.jpg

(Carolina Máxima - «O Cruzeiro do Sul»)

09
Ago16

Poesia e Fotografia 289

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DESCOBERTA


Coração português que não descansas:
Só a fé das crianças
Exige a lua...
Guarda essa fé, que é tua,
Mas repara nos bens
Que deixas no caminho da aventura.
Lusitano almocreve, olha o que tens:
Montanha e mar, o berço e a sepultura!

 

Serra do Mar, 14 de Agosto de 1954

Cachoeira_dos_Frades.jpg

08
Ago16

Poesia e Fotografia 288

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RADIOGRAMA AOS QUE VOAM


Homens aéreos, em levitação,
Espíritos de hoje, meus irmãos ausentes:
Olhai o chão, as fontes e as sementes,
E estes versos de assombro desfolhado.
Dai-me a certeza de que sois herdeiros
Dos terrosos e humildes pioneiros
Das asceses sem asas do passado.


S. Paulo, 12 de Agosto de 1954

Paul Rollison_Out of the Gloom_akJjQQ.jpg

(Paul Rollison - Out of the Gloom)

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