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zassu

05
Jun16

Poesia e Fotografia 252

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RELATO


Era um poema negro como a noite.
Era de noite.
E eu cantava com tinta
No meio da escuridão.


Versos como o carvão,
Pretos, de autêntico azeviche.
Estilhaçados de ébano, ou, melhor ainda,
Borras do coração de Orfeu.


Na minha angústia perguntava eu
Que gosto me daria nadar no mundo,
Vivo entre vivos e a morrer aos poucos...
E tudo assim, de luto carregado!


Miava um gato, também desesperado,
Num telhado sozinho.
Nisto, tive um assomo de pudor humano
E calei-me.

ebano_05.jpg

 

04
Jun16

Poesia e Arte 30

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REBATE


Poetas, meus irmãos, seja um poema
Como um cacto a crescer num areal!
Cada verso um punhal
Direito ao coração
De quem lhe estende a mão
Sem ternura.
O bálsamo anafado de verdura
Que havia antigamente
Nas praias da ilusão,
Pisava-o toda a gente...
Portas, meus irmãos heroicamente,
Façamos dum poema um aguilhão!

 


Coimbra, 15 de Janeiro de 1953

AAA_3352.jpg

 

03
Jun16

Poesia e Fotografia 251

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PERDIÇÃO

 

Neve na serra e sol nas semeadas.
Um poema simples, fácil de entender.
Eu é que trago as formas baralhadas,
E ao pé das fontes já não sei beber.

 

 

Celorico, 11 de Janeiro de 1953

AZS_9501.jpg

(Mata do Bussaco - Fonte de Santa Teresa, de 1832)

02
Jun16

Poesia e Fotografia 250

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ASTÚCIA


Que mansas vêm as palavras
Quando se querem num verso!
Como contas de um rosário
Ligadas pela nervura
Da emoção,
Fazem esquecer que são elas
O azeviche em parcelas
Que põe de luto a oração.

 

Coja, 31 de Dezembro de 1952

rosario-de-turmalina-negra-b16.jpg

 

01
Jun16

Poesia e Fotografia 249

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NATAL


Natal fora de casa do meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.


Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas...


Coja, 24 de Dezembro de 1952

ABC_9549.jpg

(São Martinho de Anta - Casa dos pais de Adolfo Rocha)

 

Pág. 2/2

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