Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

31
Mai16

Poesia e Arte 29

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MEMORANDO


Senhor:
Se o meu tempo é de campos de concentração,
De bombas de hidrogénio e de maldição,
E de cruéis tiranos
Com pêlos nos ouvidos e no coração,
Que ando eu a fazer aqui,
Funâmbulo de angústia
Com miragens de esperança?
Pois que não há lugar neste universo imundo
Para bucólicos prados de trigo e calhandras,
E foguetes festivos,
E chefes que eu eleja e destitua,
Corta lá no canhenho do destino
A humana condição de ser poeta!
Sinto em nome de todos aqueles que se calam
As vergastadas de absurdo e medo
Que consentes na alma dos mortais.
E como nada posso, senão isto:
Protestar, protestar,
Desta maneira inútil que tu vês
E o rebanho pressente,
Risca na ardósia dos obreiros laicos,
Que procuram sentido à tua obra,
O sagrado condão de dedilhar
Nas grades da gaiola que fizeste
Quando eras rapaz
E mal sonhavas quanto mal fazias.
Jovem deus criador,
Assombrado de cada imperfeição
Do barro da olaria,
Ias doirando esses desenganos
Com milagres gratuitos e originais.
Saía-te das mãos, cercada de incertezas,
A redonda amargura deste mundo;
Que remédio senão alguns harpistas
A entoar harmonias ideais!
Mas o tempo passou. Envelheceste.
Morreu-te a fantasia.
E queres a repressão dos que te negam
Ou te corrigem.
Eu e outros, perdidos neste inferno
Onde nenhum Plutão nos ouve ou nos tolera,
Somos a consciência atormentada
Pelos anjos-da-guarda que te servem,
A trair os irmãos, tão condenados
Como eles.
Por caridade, pois,
E divina lisura,
Apaga lá no céu
A luz que representa
A vida destas pobres criaturas
Cuja missão traíste, por decrepitude.
Bardos da luz que punham nos teus olhos
E da graça do mágico universo
Que generosamente
Como um pomo irreal viam na tua mão,
Rangem agora os dentes de revolta
A falar de justiça,
De igualdade
E de amor,
Coisas que já nem tu
Sabes que valor são.
Risca! Risca no livro etéreo
O infeliz e belo
Nome de Orfeu!


Coimbra, 16 de Dezembro de 1952

Michelangelo_-_Cristo_Juiz-1024x542.jpg

(Miguel Ângelo - Juízo Final/Capela Sistina)

 

 

30
Mai16

Poesia e Arte 28

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGONIA


Há quatro horas que pareço um bicho
Dentro da exígua jaula da expressão.
Morro num pesadelo, e grito, grito,
Sem conseguir dizer que estou aflito!
É como se sonhasse esta aflição.


Coimbra, 14 de Dezembro de 1952

O Pesadelo the-nightmare-henry-fuseli-1781.jpg

("O Pesadelo", Fuseli, 1781 - óleo sobre tela)

 

25
Mai16

Poesia e Fotografia 248

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

COSMOGRAMA


Porque será que não medram aqui
Senão ódios e pedras?
Pátria maninha doutras sementeiras!
Cores derramadas, e os pintores não pintam;
Formas aos gritos, e os cinzéis parados;
Versos já feitos, e ninguém os lê!
Tudo seco e mirrado.
A terra na incultura que se vê,
E o mar como um piano abandonado.


Coimbra, 10 de Dezembro de 1952

6315988170_d3051bbdea_b.jpg

24
Mai16

Poesia e Arte 27

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AVISO


Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.


Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos...


Coimbra, 5 de Dezembro de 1952

dom quixote.jpg

23
Mai16

Poesia e Arte 26

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PRENÚNCIO


Aqui estou como um vidente
À espera que chegue a hora...
Doente
Que na sua fé pressente
O milagre que o melhora.


São versos que eu adivinho
Antes da alucinação.
Versos de saem com força,
De dentro da inspiração.


Coimbra, 10 de Novembro de 1952

 

alexandre-farto_11-630x816.jpg

 

 

21
Mai16

Poesia e Arte 25

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

INSÓNIA ALENTEJANA


Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...


Alpalhão, 1 de Novembro de 1952

18548346_YalwM.jpg

 

19
Mai16

Poesia e Arte 24

 

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ORFEU


Desço aos infernos sem nenhuma esperança.
O que morreu no coração dos deuses
Nunca mais ressuscita.
Pode animá-lo o fogo da paixão;
Do outro lado da desilusão
O próprio morto já não acredita.


Eurídice não volta a ser na terra
O que foi algum dia.
O seu nome, que o sol não alumia,
É o cansaço divino a dormitar.
Toda a corte do céu deixou de amar
Não só os poetas, mas a poesia.


Coimbra, 8 de Setembro de 1952

Erasmus_Quellinus_(II)-_La_muerte_de_Eurídice,_16

Autor - Erasmus Quellinus II - A morte de Eurídice

 

17
Mai16

Poesia e Fotografia 247

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

NÁUSEA

 
Que funérea tristeza,
Cemitério do tempo!
Hidrângeas de gangrena
E sombra humedecida...
Fetos
Dejetos,
E um túnel de silêncio - o mausoléu da vida.

 


Heras das eras, sanguessugas lentas,
Deitadas sobre a seiva vertical.
E folhas de anemia, sonolentas,
Transparências doentes de vitral.

 


Negativa pujança. Eterno outono.
Colorida e soturna podridão.
Parque das Parcas. Abandono
Das formas à total degradação.


Caldelas, 23 de Agosto de 1952

201196-000.jpg
Las Parcas|Museu Nacional d’Art de Catalunya
Joaquim Pla Janini

 

 

14
Mai16

Poesia e Arte 23

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MANHÃ

 

É o sol que nasce, mas parece alguém
Que pinta doutra cor a cor do mundo.
Alguém que sabe que este velho fundo
De negrura
Mora dentro das tábuas da moldura
Como a erva daninha,
E luta sem descanso do seu lado
Para manter doirado
O sonho que na tela se amesquinha.

 

Gerês, 14 de Agosto de 1952

247 Manhã Torga.jpg

 

13
Mai16

Poesia e Fotografia 246

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAMENTO

 

Porque paira tão alto o teu desdém,
Deus das velhas montanhas de granito?
Rasgo a carne a subir aonde o meu grito
Te diga a solidão que me devora,
E quando aí chego a rastejar, contrito,
É mais acima que o mistério mora!

 

Gerês, 11 de agosto de 1952

P5010093.jpg

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • zassu

    Obrigado pela coreção.A. souza e Silva

  • Anónimo

    Capela do Socorro (https://viladoconde.com/capela-...

  • Anónimo

    Há decénios que Chaves está em dívida com Miguel T...

  • Fer.Ribeiro

    Sem comentários!

  • Anónimo

    Indique-me o seu mail, por favor.

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D