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zassu

26
Fev16

Poesia e Fotografia 245

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PASSEIO


Olho as pedras roladas do teu leito,
Rio de sonho que me desafias
A cantar, a cantar noites e dias,
Como um velho poeta insatisfeito.


Pedras roladas, os teus versos brancos,
Joias de inspiração
Arrancadas ao sono dos barrancos
E a brilhar no trajeto da canção.


Gerês, 8 de Agosto de 1952

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22
Fev16

Poesia e Fotografia 244

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ACORDE FLORESTAL


Ouço-vos por instinto,
Sussurrantes pinhais!
Não entendo as palavras, mas pressinto
Que são poemas que me recitais...


Poemas simples, de raiz agreste,
Ondulada e discreta melodia
Que ressuscita e veste
O cadáver de cada penedia.


Gerês, 3 de Agosto de 1952

2009 -  Geira Romana 184.jpg

 

21
Fev16

Poesia e Fotografia 243

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PEQUENA ELEGIA


Noite dos cegos, que não amanheces,
És a imagem da sombra de tristeza
Que nasceu e cresceu dentro de mim.
A terra do jardim dos desenganos
Era o meu coração;
E nele desabrochou, desiludida,
A negra flor da vida,
Violeta da eterna solidão.


Coimbra, 15 de Julho de 1952

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18
Fev16

Poesia e Fotografia 242

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TRIBUNAL


Não há outros comparsas no processo.
Eu acuso e defendo e sou juiz
Do réu também sou, preso por mim.
O crime é um ato de rebelião
Contra os alto ditames da razão,
Que mandam que me aceite como vim.


Ora eu não quero tal e qual!
Desejo-me intangível, imortal,
Não sei ao certo ainda em que universo...
E aguardo, cabisbaixo, o julgamento,
Enquanto vou sentindo o pensamento
Evadir-se da sala em cada verso.


Coimbra, 10 de Julho de 1952

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17
Fev16

Poesia e Fotografia 242

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SECURA


Cai a chuva nos campos ressequidos,
E a verdura desperta.
Água que desce em regos paralelos,
Repartida no crivo da igualdade.
Toda a sede de amor pode beber
Da grande fonte maternal do céu.
Todas as ervas, todas as culturas,
Todas as criaturas,
Menos eu.

 

Coimbra, 16 de Junho de 1952

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16
Fev16

Poesia e Fotografia 241

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONTEMPLAÇÃO


Mar, seara sem ninhos!
Ave de fantasia, a inspiração
Olha a rama das ondas, e não pousa...
Escrever o quê, na movediça lousa
Onde se muda em espuma o giz dos versos?
Voar entre os azuis da inexpressão...
Por caminhos diversos,
Nunca chegar ao fim da imensidão!


Serra da Boa Viagem, 2 de Junho de 1952

Vista para as Dunas de Quiaios a partir da Serra d

(In:-  http://caminhadasnapraiadequiaios.blogspot.pt/2013/04/caminhadas-na-freguesia-de-quiaios.html)

13
Fev16

Poesia e Fotografia 240

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

QUEIXA


Nada me cai do céu. Nem um poema!
Tudo me custa um dia de lavoira.
A velha bruxa, a Moira,
Viu-me sempre com olhos de megera...


Galeriano desde o nascimento,
Compro a não sei que dono da galera
Os próprios versos em que me lamento.


Coimbra, 30 de Maio de 1952

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12
Fev16

Poesia e Fotografia 239

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

EXORTAÇÃO


Musa, faz-me cantar!
Fura-me os olhos, se preciso for.
Vadio rouxinol encarcerado,
Não me deixes calado
Aos ferros verticais da minha dor.


Força-me o desespero emudecido
E solta o meu protesto em melodia
Noite é já neste mundo anoitecido
Ode só tem sentido
A luz secreta que os alumia.

Obriga-me a sonhar outra floresta
De homens em liberdade.
Aves na sua festa,
Que ninguém prende, que ninguém molesta
Com as fronteiras de nenhuma grade.


Coimbra, 28 de Maio de 1952

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08
Fev16

Poesia e Fotografia 238

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

JARDIM DA LEMBRANÇA


No jardim da lembrança,
Onde cultivo as flores
Da perpétua e alada primavera,
Nem a terra se cansa,
Nem desmaiam as cores,
Nem o pólen dos sonhos desespera.


Tudo ali permanece
Fiel ao devotado jardineiro,
Que na distância tece
O halo que merece
Cada rosa acordada no canteiro,
Quando o dia das rosas amanhece.


Horto da infância entre areais adultos,
Há nele ainda a sombra de dois vultos
Que debruam de amor a pequena extensão
Desse mundo florido
Onde sempre feliz, tenho vivido,
Graças à graça da imaginação.


Coimbra, 11 de Maio de 1952

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05
Fev16

Poesia e Fotografia 237

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MAIS UM POEMA


Mais um poema para desfolhar
À passagem da infância desvalida...
A sina dos poetas é lançar
Versos aos pés da vida.


A dureza do chão
- Visto serem crianças que ali vão -,
É com outros senhores...


Esses, nem pão,
Nem flores.


Coimbra, 17 de Abril de 1952

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