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zassu

19
Jan16

Poesia e Fotografia 226

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

OFERENDA


Menina que não lês o meu poema
Mas que tens a pureza que nele canto,
Vê na balança dos meus olhos quanto
Pesa a ternura humana que te dou:
Ponho nas tuas mãos ingénuas de criança
Toda a herança
Que da morte da vida me ficou.

 

Córdova, 24 de Abril de 1951

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18
Jan16

Poesia e Fotografia 225

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A GARCÍA LORCA, EM GRANADA


As torgas que te dei torno a levá-las.
Fiquei aqui abandonado e triste.
No teu jardim fechado
Não cabe nem a pétala de um verso
Doutro poeta.
Alto rosal de neve e de verdura,
É mais ainda do que a perfeição:
Seca nos olhos de quem o procura
A cor possível doutra inspiração.


Córdova, 19 de Abril de 1951

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17
Jan16

Poesia e Fotografia 224

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NA MESQUITA DE CÓRDOVA


Recolheu ao seu berço, perseguido
Por um outro colega intolerante,
Alá, deus das Arábias ressequidas.
Cansado das securas do deserto,
Veio ver como era a Andaluzia;
E gostou deste chão de riso aberto
Onde o seu coração reverdecia.


Mas, corrido a orações e virotões,
Num minguante de moiras ilusões,
Lá se foi novamente às suas dunas
Caiar de branco a fé das açoteias.
E o seu palmar divino arquitetado,
Que aqui plantou, ondula mutilado,
Com saudade do dono e das areias.


Córdova, 17 de Abril de 1951

mezquita-cordoba.jpg

16
Jan16

Poesia e Fotografia 223

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

A UM SECRETO LEITOR

 


No silêncio da noite é que eu te falo
Como através de um ralo
De confissão.
Auscultadores impessoais e atentos,
Os teus ouvidos são
Ermos abertos para os meus tormentos.


Sem saber o teu nome e sem te ver
- Juiz que ninguém pode corromper -,
Murmuro-te os meus versos, os pecados,
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.


Coimbra, 21 de Fevereiro de 1951

confessional-04.jpg

15
Jan16

Poesia e Fotografia 222

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RASTO


Semeador de versos? Quem me dera!
Não haveria homem mais feliz.
Ter o espírito em flor na primavera,
E o corpo, no inverno, com raiz.


Não.
Retalho apenas a desilusão...


À teimosa procura
Dum singular e único sinal
Que todo me defina e me resuma,
Vou desfolhando a rosa da expressão
E deixando no chão
Caídas as palavras, uma a uma.


Coimbra, 15 de Fevereiro de 1951

FB_IMG_1451757689919.jpg

 

 

14
Jan16

Poesia e Fotografia 221

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

SUDÁRIO


Estas mãos, que são minhas.
Apenas o seu íntimo calor
Poderá ser guarida
À minha dor.
Sobre um rosto magoado de vergonha
- Da presente vergonha de viver -,
Não há outra mortalha que se ponha,
Além de algum pudor
Que se tiver.


Coimbra, 10 de Fevereiro de 1951

maxresdefault.jpg

 

 

07
Jan16

Poesia e Fotografia 220

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

APELO À POESIA


Porque não vens, alarga-se a incerteza.
Quanto tempo teremos de agonia?
A eternidade inteira,
Ou somente este dia?
Mas nem um verso - o ramo de oliveira
Que te anuncia!


Desfigurada, a multidão protesta.
Quando o teu halo não debrua a festa
Da criação,
É este pesadelo que nos resta:
Transforma-se o cortejo em procissão.


Luz fechada nas pétalas da noite,
Abre a rosa imortal do teu sorriso!
Ou não merecemos nós, mais uma vez,
O paraíso?


Coimbra, 3 de Fevereiro de 1951

2015 - Douro no Outuno (161).jpg

 

07
Jan16

Poesia e Fotografia 219

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NOTURNO


Calou-se o violino da cidade.
Nas suas tensas cordas de metal
Parou a melodia
Municipal.
O som férreo da elétrica corrente
Que um arco penitente
Transmitia
À multidão,
De repente
Adormeceu na prima e no bordão.


Corre agora o silêncio nesses fios...
E, com eles, o luar
Tece nos céus vazios
Uma rede discreta de poesia,
Onde pode sonhar
Quem tiver fantasia...


Coimbra, 28 de Janeiro de 1951

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07
Jan16

Poesia e Fotografia 218

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ACORDE SENTIMENTAL


Como as palavras falam devagar,
Ouve os meus olhos, que vão mais depressa;
E vê se todo o sonho recomeça
Guiado apenas por telepatia!
Mudo,
É que eu sei dizer tudo
(Ou sei dizer o que te não diria
Sem magoar o meu íntimo pudor...)
É do silêncio branco duma estriga
Que, nas aldeias, cada rapariga
Fia
O seu amor...


Coimbra, 22 de Janeiro de 1951

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07
Jan16

Poesia e Fotografia 217

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A VERDADEIRA MORTE


O domingo passou, mas nos meus olhos
Não morreu a paisagem da moldura.
Mal dos montes, das urzes e das fontes,
Se perecessem pela cercadura!


Outro tempo os preserva e acarinha
Dentro de mim.
Na fortaleza da recordação,
A duração das coisas
Não tem fim.


A desgraça completa
É se morre o poeta...


Coimbra, 14 de Janeiro de 1951

2015 - Alanhosa+Senhora da Saúde (229).jpg

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