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zassu

31
Jan16

Poesia e Fotografia 234

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RETRATO


O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado;
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.


Coimbra, 12 de Março de 1952

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30
Jan16

Poesia e Fotografia 233

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RENÚNCIA


Como nunca vieste, já não venhas.
O mais rico tesouro é o que se nega.
Ágil veleiro doutros mares, navega
Com as asas que tenhas!


Foge de ti, porque de mim fugiste.
Alarga a solidão que me consome.
A apaga na memória a praia triste
Onde eu pergunto às ondas o teu nome.


Coimbra, 6 de Março de 1952

Alessandro Caproni_Looking At The Reef_a0RkSQ.jpg

 

29
Jan16

Poesia e Fotografia 232

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REGRESSO


Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado na distância!


Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.


Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.


S. Martinho de Anta, Natal de 1951

AZS_0369.jpg

 

28
Jan16

Poesia e Fotografia 231

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MALDIÇÃO


Não insistam comigo.
A mim já só me salva o Inimigo...


Quero desassossego.
De nada mais preciso.
Sou contra qualquer céu ou paraíso
Sem penas, como as asas de um morcego...


Coimbra, 12 de Novembro de 1951

livrando-se-dos-morcegos-1.jpg

(In:- http://www.esa.ipb.pt/~verao/pedro/index.php/morcego)

27
Jan16

Poesia e Fotografia 230

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONTÁGIO


Há uma esperança:
A constância otimista da alvorada.
Quando os galos começam,
E o melro meu vizinho, abre a janela,
Qual desespero qual desilusão!
Como cadáveres que ressuscitassem,
Os versos endireitam-se, renascem,
E mesmo incertos, a manear, lá vão...


Coimbra, 15 de Setembro de 1951

FB_IMG_1440410606801.jpg

26
Jan16

Poesia e Arte 22

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

A UM CRISTO DE MANUEL PEREIRA


Brando e pequeno Cristo português,
Dançarino do Minho numa cruz:
Chagas sem nenhum pus,
Abertas na pureza da nudez.


Nem amargura, nem desprezo, apenas
A dor humana de qualquer mortal;
A dor discreta de quem sofre penas
À medida de um corpo natural.


Aqui me tens ao pé, teu companheiro
Do lirismo modesto e tolerante
Que tem a morte do perfeito amante
Que se desculpa de partir primeiro...


Segóvia, 11 de Setembro de 1951

cristo.jpg
(Oratório do Santíssimo Cristo de Olivar [1647])

24
Jan16

Poesia e Fotografia 229

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MADRIGAL


Minha Galiza de perfil bonito,
Órfã de pátria num asilo austero:
Só por seres portuguesa é que te quero,
E por seres castelhana te acredito.

 

Pontevedra, 5 de Setembro de 1951

DSC09627.JPG

22
Jan16

Poesia e Arte 21

 

 

POESIA EARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RETÁBULO


Debaixo de ramadas de silêncio
Um Baco melancólico medita.
Gasto, o seu coração já não palpita
Com a força do mosto encarcerado
Na redonda prisão de cada bago.
E o sol da vida, que num doce trago
Bebia a cada hora,
Nem lhe apetece, nem o aquece, agora.


Morrem os deuses quando desesperam.
Quando não podem, como já puderam.
Ressuscitar do corpo a cada instante.
Quando a dor que os magoa é semelhante
À dor que os inventou - necessidade
De raras perfeições quotidianas
Que parecem divinas e humanas
E tenham neste mundo eternidade.

 

Caldelas, 23 de Agosto de 1951

001-pequeno-baco-doente-4.jpg

21
Jan16

Poesia e Fotografia 228

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ALVORADA


A lança da manhã furou-me os olhos.
Vejo! Vejo outra vez
A brancura da cal rir-se, contente
De me ver!
Também ela, com luz, ressuscitou,
E de mim ou do sol vai receber
O poema que a noite lhe roubou!

 

Coimbra, 25 de Julho de 1951

FB_IMG_1451616452836.jpg

20
Jan16

Poesia e Fotografia 227

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MERGULHO


Tirem o céu da sua altura triste;
Olhem a cor do inferno aqui no chão:
Verde-esmeralda que, se não existe,
É um milagre de luz em cada mão.


Anjos de barro, o nosso espelho apenas
Deve ser o cristal que viu Narciso:
Água dum poço de ilusões pequenas
Onde morra e renasça o Paraíso.

 

Serra da Estrela, Poço do Inferno, 22 de Julho de 1951

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