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zassu

09
Dez15

Poesia e Fotografia 206

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANÇÃO HELÉNICA

 

Na sua mais perfeita arquitetura,
Cada coluna como um sonho erguido,
Deixou aqui a Grécia a assinatura,
Aqui, ao pé do mar adormecido.


Ia acabar o mundo da beleza.
Roma viria com as suas leis
Criar as formas doutra natureza,
Dobrar os homens e os capitéis.


Ficasse, pois, firmado o testamento
Duma pátria de todos, que morria
Com as imagens do seu pensamento
Desdobradas em ondas de harmonia.


Agrigento, 20 de Setembro de 1950

cariatides-acropolis-atenas.jpg

09
Dez15

Poesia e Arte 20

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REACÇÃO

 

Não me queres, nem te quero, sonho verde,
Mar de Sorrento, alheio à minha voz!
Mar do «Conto de Fadas» da Florbela,
Que se matou na Foz,
Longe desta aguarela...

 

Sorrento, 18 de Setembro de 1950

Conto de Fadas - Florbela Espanca.jpg

 

08
Dez15

Poesia e Arte 19

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SANTA TERESA DE BERNINI

 

Outra vez te visito,
Filha da Ibéria, mística doutora
Dos celestes e alados devaneios;
Nesta Roma papel e redentora,
Outra vez quero ver
Tremer a eternidade nos teus seios!

 

Cupido, o Anjo do amor divino,
Trocou a seta com que te feriu;
Humano e fundo, o golpe que te abriu
No coração
Deu à carne acordada a comoção
Dum abalo de terra sensual...
Sob a estopa do hábito votivo
De castidade
Vê-se ainda oscilar a virgindade
Do teu corpo dorido e natural!


Que descoberto rio de volúpia
Nas tuas veias!
Como ficaste feminina e morta,
Abandonada à porta
Do castelo da vida sem ameias!


Todo o granito de Ávila desfeito
Em movediça areia
De aluvião!
A teimosa e sincera condição
Duma pobre donzela
A pedir o que é seu...
A mais rica seara de Castela
Onde o lume do mundo se acendeu!


E nunca mais o fogo se apagou!
Bernini, o homem que te desposou
Nessa hora de entrega e de brancura,
Nesta nova Morada te deixou,
Santa mulher e frágil criatura...


Roma, Santa Maria della Vitória, 14 de Setembro de 1950

extasisbernini1.jpg

07
Dez15

Poesia e Arte 18

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ACTO DE CONTRIÇÃO

 

Tanta visita inútil!
Tanta grosseira e fútil
Recordação!
Guias,
Palavras,
Fotografias,
E a tua glória cada vez mais pura,
Longe de nós,
Chopin!
Perdoa-nos a todos, por não termos
Outra maneira de te ver.
Somos a humana e vil degradação...
Indignos de colher
No jardim desta cela de amargura,
De romântico amor
E solidão,
A mais humilde flor
Da tua inspiração.

 

Maiorca, Cartuxa de Valdemosa, 4 de Setembro de 1950

Chopin at 25, by his fiancée Maria Wodzińska, 18

 (Chopin at 25, by his fiancée Maria Wodzińska)

06
Dez15

Poesia e Fotografia 205

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A UM CARVALHO

 

Eis o pai da montanha, o bíblico Moisés
Vegetal!
Fala com Deus também, deste Sinai
De granito...
Dele recebeu a graça natural
De ter formas reais e ser um mito.

 

Forte como um destino,
Calmo como um pastor.
A sarça ardente é quando o sol, a pino,
O inunda de seiva e de calor.

 

Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços,
Gestos solenes duma fé constante...

 

Folhas verdes à volta do desejo
Que amadurece.
E nos olhos a prece
Da eternidade.
Eis o pai da montanha, o fálico pagão
Que se veste de neve, e guarda a mocidade
No coração!

 

Gerês, Vale do Homem, 10 de Agosto de 1950

2009 -  Geira Romana 173.jpg

05
Dez15

Poesia e Fotografia 204

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A UM RIBEIRO INQUIETO

 

Canta,
Masculina sereia, com garganta
De pedra!
Abre um leque de sons neste silêncio
De pesadelos...
Corta os negros cabelos
Da montanha,
E atrai a noite à perdição sonora
Do teu leito...
O poema imperfeito
E a solidão pesada
Sabem que a madrugada
Corre molhada do teu peito!

 

Gerês, 1 de Agosto de 1950

FB_IMG_1439111522373.jpg

04
Dez15

Poesia e Fotografia 203

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

INVOCAÇÃO

 

Agora ou nunca, Musa!
Depois de morto, não.
Quando não tiver sede,
De que me serve a infusa
Cheia de água?
Vivo
É que eu preciso que me dês a prova
Do teu amor!
Um trovador não trova na sepultura.
Criatura
Sonora,
É do lado de fora
Do caixão
Que te peço uma hora
De inspiração!

 

Coimbra, 15 de Julho de 1950

FB_IMG_1444415556249.jpg

03
Dez15

Poesia e Fotografia 202

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A SOMBRA DAS PALAVRAS

 

As palavras renascem.
Folhas de clorofila humana,
Brotam, crescem,
Murcham, desaparecem,
Mas renascem.

 

Que frescura teria a caravana,
A caminho da morte ou do nirvana,
Se os poetas cantassem!

 

Coimbra, 7 de Julho de 1950

FB_IMG_1442598739486.jpg

02
Dez15

Poesia e Fotografia 201

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ACTA

 

Trinta de Junho, às quatro e meia certas.
Eis, por meu punho, a exacta notação
Do momento preciso em que atravesso
A janela claustral do consultório,
E me liberto.
Sem mística nas asas que me levam
Homem que simultaneamente voa e anda,
Marco no calendário a hora e o dia
Desta aventura.
Subo a qualquer altura,
Desço a qualquer abismo,
Continua
A condição do barco em que navego.
Por isso, digo aqui quando despego
Da aguilhada, da leiva e da lavoura.

 

Coimbra, 30 de Junho de 1950

2013 - Coimbra I (423).jpg

01
Dez15

Poesia e Fotografia 200

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AVE POÉTICA

 

Não tenho mais senão as asas.
Quando subo os degraus do firmamento,
É com elas que subo e que sustento
O peso bruto desta incarnação.
Asas de penas que me vão nascendo,
E que voam depois, desconhecendo
Que fúria azul as levantou do chão.

 

Coimbra, 25 de Junho de 1950

FB_IMG_1442506983328.jpg

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