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zassu

30
Nov15

Poesia e Fotografia 199

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DIA POÉTICO

 

Que lindo dia
De poesia
Se pôs!
A manhã baça,
O jornal carrancudo.
E, de repente, tudo
Cheio de luz e graça!

 

E que não há milagres!
Há, mas são destes, que não provam nada...

 

É uma pena
Que a nossa alma seja tão pequena,
Ou já esteja ocupada.

 

Coimbra, 7 de Junho de 1950

2015 - Outono no Douro Vinhateiro IIII (304).jpg

29
Nov15

Poesia e Fotografia 198

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CLARIDADE POSSÍVEL

 

Desenhei a nanquim a minha estreia.
Deve ser negro o traço que limita,
Na grande labareda, a pequena chama
De cada um.
Pétala da rosa universal,
Ninguém a vê, sequer.
Mas é ela que eu tenho e me conduz
Através desta noite desmedida
Onde a luz
Foi brutalmente interrompida.

 

Coimbra, 29 de Maio de 1950

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28
Nov15

Poesia e Fotografia 197

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PROMESSA

 

Não desanimes por me veres ao lado
Triste como um ribeiro que secou.
Isto passa,
Podes ter a certeza.
Basta o degelo começar...
O poeta é uma graça
Da natureza:
Há-de sempre cantar.
Arranja pois as jarras da alegria,
E vai sorrindo já dos meus desleixos...
Eu volto a rolar seixos
Qualquer dia.

 

Coimbra, 7 de Maio de 1950

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27
Nov15

Poesia e Fotografia 196

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAVRAM E SEMEIAM AQUI AO LADO

 

Anda a terra no cio:
Chegou a lua.
E é como um falus de aço macio

A ponta aguda da charrua.

Com a certeza de procriar
Cai a semente da mão do vento...

 

E tudo lento,
Num ritual,
Como se o homem, pachorrento,
Realizasse o casamento
Do natural.

 

Coimbra, 5 de Maio de 1950

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(Charrua em Água Fria. Cortesia de Mário Silva)

 

26
Nov15

Poesia e Fotografia 195

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

FASTIO LÍRICO

 

Flores.
Lilases roxos que perfumam tudo.
Mas não é de lilases que eu preciso,
Nem de perfume.
O que a alma me pede,
Nem se cheira,
Nem se vê,
Nem se dá nos canteiros...

 

Não.
Se me querem valer,
Tragam-me a primavera
Como era
Antes de o jardineiro a corromper.

 

Coimbra, 19 de Abril de 1950

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25
Nov15

Poesia e Fotografia 194

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

VAZANTE

 

Maré baixa, com lodo e penedias.
Quando a fúria abandona o criador,
Que vazias
As formas!
Que diluída, a cor!

Porque não vem a onda que avassala
E traz o azul à praia, a melodia
Dum coração que bate sem sossego?
Maré cheia - um poema que se lesse
Numa folha espalmada de horizonte,
e fosse a sede e a fonte
De não sei que amargura se sofresse...

 

Génio!
Vento do céu, anónimo, invisível,
Porque não sopras sobre o corpo morto
Do gigante cansado?
Que triste é o mar despido e adormecido!
E estes ossos sem carne, que pecado!

 

Foz, 3 de Abril de 1950

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24
Nov15

Poesia e Fotografia 193

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ORGASMO

 

Deixa que eu te descubra, anónima paisagem,
Corpo de virgem que não amo ainda!
Fauno das fragas e dos horizontes,
Sonho contigo sem te conhecer...
Sonho contigo nua, a pertencer
Ao silêncio devasso e à solidão!
Num pesadelo, vejo amanhecer
O sol e o vento no teu coração!

 

E é um ciúme de Otelo que me rói!
Só eu não posso acarinhar a sombra
Do teu rosto velado!
Só eu vivo afastado
Dos teus encantos!
E são tantos
E tais,
Que eu não posso paisagem,
Esperar mais!

 

Teixeira, 2 de Março de 1950

2015 - Outono no Douro Vinhateiro IIII (446).jpg

23
Nov15

Poesia e Fotografia 192

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

QUASE UM POEMA DE AMOR

 

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Coimbra, 7 Fevereiro de 1950

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22
Nov15

Poesia e Fotografia 191

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NON SUM DIGNUS

 

Musa, não me visites.
Outros, neste momento,
Podem cantar por mim.
Hoje perdi-me tanto
Que não mereço
O Canto.
Paguei à vida o costumado preço
Mas não sei quanto.


Coimbra, 16 de Janeiro de 1950

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17
Nov15

Poesia e Fotografia 190

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CRISE

 

A flor gratuita que não dá semente,
E o verso inútil que não tem sentido...
Esse alívio somente
A um coração poético e dorido.

 

Outro remédio não, que me faz mal.
Hoje apenas o bálsamo tranquilo
De haver camélias, e ser natural,
E o céu cantar, e eu poder ouvi-lo.

 

Coimbra, 12 de Janeiro de 1950

ABC_9626.jpg

(Uma flor de camélia tirada à volta da Igreja e cemitério de S. Martinho de Anta/Vila Real)

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