Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

15
Set15

Poesia e Fotografia 163

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TERMO DE RESPONSABILIDADE

 

 

Tudo,
Menos deixar uma incerteza
No caminho.
Quem vier nesta direcção,
Veja as passadas dos meus pés,
E siga.
Saiba por elas que não fui traído,
Mesmo se me encontrar adormecido
De morte natural ou de fadiga.

 

Coimbra, 15 de Novembro de 1948

FB_IMG_1439713923574.jpg

14
Set15

Poesia e Fotografia 162

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PEQUENO TESTAMENTO

 

Meu caminho de rosas, que não tive,
Lego-te em testamento aos naufragados;
Sem veludo nos pés é como vive
Quem quer deixar os passos desenhados.

 

Coimbra, 28 de Outubro de 1948

FB_IMG_1439799044194.jpg

 

13
Set15

Poesia e Fotografia 161

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ÍCARO

 

O alcatraz atira-se do alto.
Dobra as asas, e cai.
Do céu à terra é um salto.
Do céu ao mar, um gesto.
Longe fica o protesto
Que não sobe aonde vai.

 

Palheiros de Mira, 26 de Setembro de 1948

FB_IMG_1439062123652.jpg

12
Set15

Poesia e Fotografia 160

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

IDADE DA POESIA

 

O verso é o mesmo no papiro aberto
Da praia visitada pelas ondas;
A mesma fúria sobre um chão incerto
E o mesmo grito com vogais redondas.

 

Palheiros de Mira, 26 de Setembro de 1948

03963_HD.jpg

11
Set15

Poesia e Fotografia 159

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SUGESTÃO

 

O mar é grande por não ter sentido.
Por ser um verso azul feito de espuma,
E de fúria e de bruma,
E nunca se cansar dentro do ouvido.

 

Palheiros de Mira, 22 de Setembro de 1948

FB_IMG_1438698089612.jpg

 

10
Set15

Poesia e Fotografia 158

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ETERNO FEMININO

 

Voltei, ninfas amigas!
Quem pode resistir a um fresco aceno
De donzelas despidas?
Fiel devoto da nudez da vida,
Tinha sede de ver-vos distraídas
A correr pela terra ressequida.


Serei criança, mas voltei de novo
Ao vosso altar sagrado.
Ou não fosse eu poeta!
Ou não me desse a imagem do passado
Uma esperança secreta...

 

Vim, e que o mundo murmure,
Ninfas de cada fonte!
Que me importa que digam que enlouqueço
Junto de vós?
Quero é beijar-vos, é beber,
E sentir-me no fim purificado...
Só deusas verdadeiras podem ter
Um corpo tão perfeito e tão lavado.


Caldelas, 1 de Setembro de 1948

FB_IMG_1440721022766.jpg

09
Set15

Poesia e Fotografia 157

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MINHO

 

O verde come o resto do arco-íris.

Quem quer vir combater

Contra a monotonia?

O vinho é verde, a dor é verde, o mar é verde...

Tudo é verde e se perde

Numa verde agonia.

 

Caldelas, 27 de Agosto de 1948

FB_IMG_1438721412771.jpg

08
Set15

Poesia e Fotografia 156

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA 

 

ANIVERSÁRIO

 

Mãe:
Que visita tão pura me fizeste
Neste dia!
Era a tua memória que sorria
Sobre o meu berço.
Nu e pequeno como me deixaste,
Ia a chorar de medo e abandono.
Então vieste, e outra vez cantaste,
Até que veio o sono.

 

Gerês, 12 de Agosto de 1948

FB_IMG_1440432327109.jpg

 

07
Set15

Poesia e Arte 11

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

GOMES LEAL

 

 

Eis o Cristo dos versos
No seu calvário!
Eis o poeta Hilário
Três dias antes da Ressurreição.
Puro como nasceu,
Assim morreu,
E assim há-de sair da podridão.

 

A túnica de linho que o cobria,
Rico lençol de imagens,
Foi dividida pela soldadesca.
Nu e branco na cruz,
Já não precisa dela.
Agora, veste-o a luz
Duma estrela.

 

Coimbra, 14 de Junho de 1948 

Gomes_Leal_-_caricaturaa.jpg

 (Caricatura de Bordalo Pinheiro)

05
Set15

Poesia e Arte 10

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

 

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

 

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

 

São Martinho de Anta, 1 de Junho de 1948

JOHANN GEORG MEYER VON BREMEN.jpg

Quadro de JOHANN GEORG MEYER VON BREMEN

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Aqui há coração

    Poesia em cada palavra.

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • concha

    Herberto Helder! Tão Grande

  • Anónimo

    Um lindo poema cheio de nostalgia.Gostei muito.Par...

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub