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zassu

27
Set15

Poesia e Fotografia 173

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DEPOIS DA CHUVA

 

Abre a janela, e olha!

Tudo o que vires é teu.

A seiva que lutou em cada folha,

E a fé que teve medo e se perdeu.

 

Abre a janela, e colhe!

É o quiser a tua mão atenta:

Água barrenta,

Água que molhe,

Água que mate a sede...

 

Abre a janela, quanto mais não seja

Para que haja um sorriso na parede!

 

Coimbra, 8 de Março de 1949

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26
Set15

Poesia e Fotografia 172

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

VEM, DOCE MORTE

 

Triste,

Meu coração resiste

Por fidelidade.

Prometeu,

Dará tudo o que tem à humanidade.

Dará todo o calor que o aqueceu.

 

Mas cada vez mais triste e mais cansado,

Que ninguém o demore no caminho.

Um coração só é feliz parado,

Quando não é traição ficar sozinho.

 

Coimbra, 26 de Fevereiro de 1949

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25
Set15

Poesia e Fotografia 171

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CARTA FAMILIAR

 

 

 

Poeta irmão, não sujes as palavras.
Lembra-te do futuro!
Guarda as pedras da obra
Na virgindade austera da pedreira,
Até que te visite a inspiração.
Tu, que és o homem da pureza inteira,
Precisas da pureza da expressão.

 

Coimbra, 21 de Fevereiro de 1949

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24
Set15

Poesia e Fotografia 170

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NOIVADO

 

Dá-me outra vez as mãos, recomecemos
O nosso idílio,
Continuemos
Enamorados no jardim despido.
Interromper o beijo conseguido,
A floração que temos,
Era ficar serenamente à espera
Que viesse de novo a primavera.
E nós não renascemos!

Coimbra, 15 de Fevereiro de 1949

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23
Set15

Poesia e Fotografia 169

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

FADO DO LIMOEIRO

 

Que bonita me parece
A tarde, pela janela!
Que pureza de donzela,
Que corpo branco e perfeito!

 

Mas vê-la assim da janela,
Com impotência e despeito,
É quanto posso fazer.
A vida, agora, é um conceito,
Não é viver.

 

Coimbra, 28 de Janeiro de 1949

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22
Set15

Poesia e Fotografia 168

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PEQUENA HISTÓRIA DE UM MITO

 

O pregador da vida, quando começou,
Queria nascer também.
E o que pregou,
Pregou bem.

 

Porque além das quimeras que pregava,
Mostrava
Frutos e flores em cada mão.
E o povo gostava,
E acreditava nele e no sermão.

 

Mas o tempo passou,
E o pregador cresceu,
E a sua fé murchou,
E o seu amor morreu.

 

O pregador da vida já não tem fiéis.
Na sua velha igreja abandonada
Não há mais nada
Senão capitéis
Onde a seiva parou petrificada.

 

Coimbra, 18 de Janeiro de 1049

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21
Set15

Poesia e Fotografia 167

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ESTAMPA

 

Branca de neve, a serra é como um pólo
Da vida.
Tudo morreu gelado.
Em vão, divina, de menino ao colo,
Numa pequena ermida,
A Virgem abre o manto humanizado.

 

É de pedra o calor que nos promete;
Está despido o pequeno;
E por cima, sereno,
O céu, azul reflete
Uma tristeza tal que compromete
O aconchego de qualquer aceno.

 

Senhora da Ouvida, Montemuro, 3 de Janeiro de 1949

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18
Set15

Poesia e Fotografia 166

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ANO NOVO

 

 

Vai-se esgotando a taça do festim.
Sorvo a sorvo, no espelho do cristal
Fica apenas a baba natural,
O melaço do fim.

 

Ah, não haver coragem verdadeira
De que quebrar o copo antes da hora
Em que se acaba o vinho, e a bebedeira
De repente melhora!

 

S. Martinho de Anta, 1 de Janeiro de 1949

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17
Set15

Poesia e Fotografia 165

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NATAL

 

 

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

 

S. Martinho de Anta, Natal de 1948

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16
Set15

Poesia e Fotografia 164

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MEDITAÇÃO

 

 

Anoitece na praça.
E a estátua, para ler publicamente
O seu decreto eternizado em bronze,
Força a atenção e a vista.
Deve ser bom sentir a escuridão
Quando se é monumento e tem na mão
Apenas uma histórica conquista...

 

Coimbra, 6 de Dezembro de 1948

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