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zassu

20
Ago15

Poesia e Fotografia 141

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MACERAÇÃO

 

Tanto fruto maduro,
E a mão hesita sem colher nenhum!
A fome do poeta é o pomar todo.
E o poema é só um...

 

Coimbra, 22 de Janeiro de 1947

0101.jpg  

18
Ago15

Poesia e Fotografia 140

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

FONTE NOVA

 

Minei as fragas onde o sol e a neve
Pintavam panoramas só de fora.
E da alma da serra, fresca e leve,
Brotou este caudal que tenho agora.

Água despida que se entrega toda.
Debruçai-vos e vede...
Água que é o vinho desta nova boda.
Beba quem tenha sede!

 

S. Martinho de Anta, Natal de 1946

2015 - Pescaria na Ferradosa (126).jpg

17
Ago15

Poesia e Fotografia 139

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A MANUEL DE FALLA,
QUE MORREU ONTEM

 

A vida é breve, Falla.
Mas é breve
Para quem apodrece na mortalha.
Não a tua!
No Concerto de Cravo
Uma vida mais alta continua.

Não, não há génio breve,
Nem morre o homem que na vida o teve,
Como tu!
Dorme e descansa o corpo velho e gasto,
Porque o teu nome é um astro
No céu da Ibéria desolado e nu.

 

Coimbra, 15 de Novembro de 1946

FB_IMG_1439303373913.jpg 

 

 

10
Ago15

Poesia e Fotografia 138

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

REGRESSO

 

Bicho que nunca se ergueu,
Instinto desprevenido,
Digam que não, mas sou eu,
Aqui deitado e despido.

Sinto a vida como um seio
Que lateja de calor;
Como um ventre onde semeio
O meu sémen criador.

Ouço cantar as raízes,
E vejo seixos fechados
Reluzentes e felizes
Por serem acarinhados.

As linhas de água corrente
Passam pelas minhas veias.
Entre o meu corpo e a nascente
Não há distâncias alheias.

Cheira-me a terra a tutano,
Mastigo-a e sabe-me bem.
Animal, mas desumano,
Recebo inteiro o que vem.

Estou na origem do ser,
Primário como Adão.
Que pena eu não me esquecer
De cantar esta emoção.

 

Rio de Onor, 28 de Setembro de 1946

2013 - Baçal, Sacóias, Varge, rio de Onor, Gomon

(Rio de Omor em Rio de Onor)

04
Ago15

Poesia e Fotografia 137

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANTIGA DE MALDIZER

 

Esta menina que eu sei

É como a rosa-dos-ventos:

Ora grita aqui-del-rei.

Se alguém a vem namorar,

Ora maldiz os conventos

Onde o pai a quer guardar.

É um riso agradecido

E um pranto de se acabar.

Parece um fruto maduro,

Do outro lado do muro,

Com medo de ser comido

E medo de ali ficar.

 

Coimbra, 12 de setembro de 1946

FB_IMG_1438706525124.jpg

 

02
Ago15

Poesia e Fotografia 136

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ODE

 

Eis-me nu e singelo!

Areia branca e o meu corpo em cima.

Um puro homem, natural e belo,

De carne que não peca e que não rima.

 

A linha do horizonte é um nível quieto;

As velas, de cansaço, adormeceram;

E penas brancas, que eram luto preto,

Perderam-se no azul de onde vieram.

 

Sol e frescura em toda a grande praia

Onde não pode haver agricultura;

Esterilidade limpa, que não caia

De pão e vinho a cósmica fartura.

 

Dançam toninhas lúdicas no céu

Que visitam ligeiras e felizes;

Uma força sonâmbula as ergueu,

Mas seguras à seiva das raízes.

 

Nem paz, nem guerra, nem desarmonia;

O sexo alegre, mas a repousar;

Um pleno, largo e caudaloso dia,

Sem horas e minutos a passar.

 

Vem até mim, onda que trazes vida!

Soro da redenção!

Vem como o sangue doutra mãe pedida

na hora de dar mundo ao coração!

 

Lavadores, 14 de Agosto de 1946

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Pág. 2/2

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