Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

Grande Guerra (1914-1918) - 58

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

 

CONSIDRAÇÕES FINAIS

 

 

2.- 1914 - O apagar das Luzes de um século

Não é nosso intento deixar aqui plasmadas quaisquer conclusões resultantes do trabalho que trouxemos até ao leitor(a). Não é esse (ou foi) o nosso intento nem tão pouco o nosso saber e arte são bastantes para a realização de tal tarefa.

Nosso propósito é (foi) muito mais modesto. Apenas desejamos deixar aqui alguns pontos de vista, interrogações, uma ou outra frase ou pensamento à reflexão, resultantes da leitura e reflexão dos trabalhos sobre os quais nos debruçámos.

E comecemos por essa Europa.

Por essa Europa, cujo século, que se inicia em 1914, acaba com ela.

Uma Europa, cujos europeus, em 1914, pensavam que encarnava o Progresso e que, por isso mesmo, seriam os senhores do Futuro e do Mundo.

De uma Europa, cujos seus habitantes, se julgavam os detentores únicos de uma civilização por excelência, impar, universal e superior.

Uma Europa, que no século XX, iniciado sob as promessas de um futuro radioso, tinha a certeza de ser a maior na ciência, na técnica, nos costumes, na arte, na espiritualidade, na economia, na política, enfim, na cultura.

Uma Europa de europeus crentes num futuro radioso, na certeza de que a ciência e o saber, como fatores do progresso e da sabedoria, os levaria, cada vez mais, a serem os verdadeiros senhores e possuidores da Natureza e do Mundo.

Adquirida a vitória sobre as coisas e o domínio de si próprio, o homem europeu acreditava que a paz e o entendimento entre os homens estabelecer-se-ia por si próprio. Os próprios laços de dependência económica entre as potências (e até dos laços familiares entre as monarquias reinantes), acreditava-se, forçosamente levaria a Europa a uma paz perpétua.

Em suma, antes de 1914, a Europa considerava-se o centro do universo, dominando o mundo com todo o seu poderio, não tendo ainda rompido com o seu passado. Uma Europa que tinha entrado com audácia e confiança na modernidade.

Mas o impiedoso século XX e os seus conflitos desmentiram tais ilusões.

A Europa, o continente da liberdade, da democracia, da riqueza e do humanismo, como foi idealizada pelos grandes mestres do Renascimento, em 1914, chega ao seu fim.

***

Recuando um pouco, desde os princípios do século XIX, com o triunfo da burguesia, numerosos europeus não se reviam nesta Europa edílica. Pelo contrário, tinham dela uma perspetiva diferente. Uma Europa do reino das convulsões, tal como no-la relata Karl Marx no seu «Manifesto de 1848» em que “«em toda a parte onde tomou o poder, a burguesia espezinhou as relações feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que ligavam o homem feudal aos seus superiores naturais, quebrou-se sem piedade, não deixando subsistir outro laço entre os homens a não ser o do frio interesse...» A burguesia é, aqui, o rosto da modernidade” (Venner, 2009: 42), diz Dominique Venner.

Max Weber é um dos autores que melhor sintetiza as inquietações que a modernidade trouxe. Via que a lógica do domínio dos homens sobre a natureza e pela criação e apropriação de riquezas, era acompanhada por uma lógica da submissão dos homens aos bens materiais e que os instrumentos de emancipação moderna se transformaram em mecanismos de alienação. Ou seja, o reinado da Razão acabou por dar resultados opostos às esperanças das Luzes.

Oswald Spengler, um outro autor da época, não acreditava no progresso. Para ele, a história não tinha nem princípio nem fim: era feita de ciclos descontínuos, descrevendo cada um o nascimento, apogeu e morte de uma grande «cultura», petrificada sob a forma de «civilização», ao entrar em declínio. Para O. Spengler, o crescimento das cidades, a especulação financeira, o utilitarismo e o individualismo, bem assim a pseudomorfose das religiões, eram a manifestação visível desse declínio. Segundo Dominique Venner, para Spengler, “cada cultura [...] é uma experiência única, uma arte, uma ciência, uma moral, uma maneira de pensar e de criar, que são incompreensíveis do exterior do espírito que as anima. «Uma cultura morre quando [a sua] alma realizou a soma completa das suas possibilidades. A «civilização ocidental», a que ele chama «civilização fáustica», não é portanto o último avanço da humanidade na sua evolução, como pretende a interpretação linear da história, mas a fase terminal de uma cultura em decomposição. Após ela, jorrará um novo ciclo, portador de uma nova verdade, gerador de novas raças mentais e novas ciências” (Venner, 2009: 45).

Nesta linha de pensamento, já desde os finais do século XIX, alguns visionários tinham vindo a prever o declínio e hegemonia do «homem europeu», como Gobineau, Nietzsche ou Dostoievski. E autores como Freud, e os teóricos do inconsciente, e grande parte dos sociólogos tinham vindo também neste reforço dos profetas da decadência. Mesmo um liberal convicto, como Raymond Aron, no final das suas «Memórias», segundo Julliard (1983), citado por Dominique Venner, “sem adotar a interpretação spengleriana segundo a qual a civilização urbana utilitária, democrática, marca enquanto tal uma fase de decadência das culturas, [afirma que] é legítimo perguntarmo-nos, seguindo Pareto e muitos outros, se o florescimento das liberdades, o pluralismo das convicções, o hedonismo não põem em perigo a coesão das sociedades e a sua capacidade de ação” (Venner, 2009: 46).

Não está aqui em questão se somos ou não adeptos do pensamento dos autores que acima referimos ou que sejamos contra a(s) liberdade(s), ou o pluralismo das convicções e a democracia. O que nos deve preocupar é o fazermos, nos tempos que correm, uma análise crítica e pertinente dos seus pontos de vista e questionarmo-nos com o que fazemos da liberdade, da sinceridade do pluralismo das convicções, da aceitação (sincera) das diferentes culturas e modos de ver o mundo, e da forma como construímos a democracia.

***

O concerto europeu assentava em valores civilizacionais comuns a todas as elites dirigentes. Contudo, desde os finais do século XIX, a democratização da vida pública, a chegada ao poder de novas camadas, põe em causa aquele clube internacional que, até então, tinha governado os assuntos europeus. E, lenta e inexoravelmente, aqueles valores fundamentais em que a vida europeia assentava foram esquecidos, abandonados.

Ao contrário do muito que se escreve(u), não foram as elites que levaram à catástrofe: foi o seu esquecimento. Por isso, não admira o despertar das paixões nacionalistas e dos ódios entre europeus, nas vésperas de 1914. Eles são, em si mesmo, a manifestação do esquecimento dos valores entretanto partilhados e cuja experiência já vinha da Revolução Francesa. Sem pormos em causa os ideais fundamentais da Revolução Francesa, alicerce fundamental da construção de novos povos e da democracia moderna, há que refletir e ter em devida conta que os revolucionários substituíram, de um só golpe, o ódio aos outros - aristocratas ou estrangeiros - à antiga «piedade» pela pátria de sangue. E esta substituição revelou-se eficaz para inflamar multidões de indivíduos que tinham perdido as suas antigas fidelidades. E foi tão eficaz que, gradualmente, foi sendo adotada na Europa pelos adversários da Revolução, que acabaram por a virar contra ela: é, assim, neste cadinho, que, no decurso do século XIX, nasce o nacionalismo rancoroso, um instrumento detestável e poderoso, unindo as «massas» mais ou menos desenraizadas. E, tomando o lugar dos afetos dinásticos, o nacionalismo de aversão “conseguiu federar dessa maneira o que sobrenadava das antigas fidelidades feudais e comunitárias, que a democratização da sociedade, isto é, a sua autonomização individualista, tinha destruído [...] Para o acordar, ou reavivá-lo em sentido negativo, era preciso designar um inimigo absoluto, exortar a uma luta de vida ou de morte (...)” (Venner, 2009: 89).

Se, na opinião de Dominique Venner, era preciso fundar na razão a ideia de que a França era de uma natureza essencialmente diferente da Alemanha: que a primeira era a encarnação do direito, da liberdade, da civilização e a outra, que não passava de barbárie, o ódio ao vizinho, que daqui nasce, foi instrumentalizado como fator de coesão nacional capaz de se sobrepor às divisões sociais e políticas que dilaceravam a França. E é a conjugação destes sentimentos violentos que se revela eficaz e sinistra quando, a partir da declaração de guerra, é quebrada a solidariedade internacional do movimento socialista a favor da União Sagrada.

***

Mas é importante também refletirmos na compreensão das causas da Grande Guerra. Que são mais complexas do que as que tradicionalmente nos são transmitidas pelos manuais escolares, como o(s) imperialismo(s) e o(s) nacionalismo(s).

Porquanto, apesar de tudo, não é correto fazer-se querer que, quer o imperialismo, quer o nacionalismo exacerbado dos povos europeus foram a principal causa da guerra, se bem que, nas vésperas do conflito, quer na França, quer na Inglaterra, as paixões nacionalistas tenham sido levadas ao rubro pela imprensa, atingindo aspetos que bem poderiam ser enquadrados como um verdadeiro quadro patológico.

Mas também não foi nem na imprensa nem na rua que se decidiu o desencadeamento do conflito.

Que dizer, em todas as capitais da Europa, nos momentos decisivos, dos homens políticos?

E do seu silêncio aveludado nos palácios governamentais, quando sob pressão dos seus Estados-maiores e do jogo desordenado da diplomacia? Basearam-se em critérios políticos ou, pelo contrário, apoiaram-se exclusivamente em imperativos técnicos?

Porque “ninguém na Europa tinha tirado seriamente as lições da Guerra de Secessão americana, que, de 1861 a 1864, prefigurou muitos dos aspetos da «modernidade» de 1914-1918 e que custou à América escassamente povoada na época (32 milhões de habitantes) 620 000 mortos, muitos mais do que qualquer outro conflito travado ulteriormente pelos Estados Unidos, incluindo a II Guerra Mundial” (Venner, 2009: 81) bem como da guerra dos bóeres contra a Inglaterra!

Porventura ninguém tinha previsto, e pensado seriamente no gigantismo, na duração, no horror e nas consequências do conflito?

Porventura não tinham sido dado alertas de que guerra poderia não ser curta, fácil e, bem entendido, vitoriosa, com as que tinha conduzido Bismarck, cerca de 50 anos antes, contra a Dinamarca, a Áustria e a França?

***

Spengler, num ensaio de 1919, põe em destaque, de forma lapidar, as duas formas de religiosidade que saíram da Reforma no século XVII, gerando duas visões do mundo opostas: a primeira, nasceu em Inglaterra com o calvinismo revolucionário; a outra, com o pietismo luterano. Para o pietismo luterano há um profundo desprezo pela nova riqueza, pelo luxo, pelo conforto, pelo prazer, pela «felicidade». E, toda esta ideia de religiosidade, diz Spengler, está prenhe na mentalidade prussiana, na própria essência do espírito do soldado e do seu funcionalismo. Quer dizer, para o prussiano, o trabalho em si próprio - que não os seus resultados, como a riqueza e o êxito - é um valor ético, um mandamento de Deus. Já para o protestante inglês é todo o contrário. A religião, puramente laica, tem por base a Bíblia, que cada um a interpreta como muito bem entende, como se um puro soberano fosse. E, a esta luz de encarar a religião, tudo quanto, do ponto de vista moral se faça, é sempre justo, ao ponto de não passar pela cabeça de cada inglês qualquer dúvida sobre isso. O êxito foi sempre sinal da Graça Divina e a responsabilidade moral das ações cabe sempre a Deus. Pelo contrário, para o pietista, a responsabilidade moral atribui-a a si próprio. Foi, desta forma, com esta segurança absoluta e esta ausência de escrúpulos, diz Dominique Venner, que surgiu o povo inglês. E que muitos dos episódios por ela protagonizados (mesmo com Portugal), antes e depois da Grande Guerra nesta base se explicam.

E, assim, há quem pense que a própria guerra, para além das tradicionais razões assentes em fatores económico-imperialistas e nos nacionalismos, é vista também como afrontamentos, mais que ideológicos, em princípios ou razões espirituais.

***

Mas, com isto, não temos a pretensão, decorridos que são 100 anos do Grande Conflito, ter encontrado as verdadeiras razões do mesmo. Estamos, uma vez mais, com Dominique Venner: “Depois dos rios de sangue durante a guerra, têm corrido rios de tinta para elucidar as suas origens. O mistério, porém, mantém-se intacto. Quanto mais avançamos as investigações, menos claras parecem as causas do conflito” (Venner, 2009: 75).

E, porventura, daremos razão a Bertrand Russel quando afirma que, apesar dos «avisos» de alguns «iluminados», o pensamento ocidental, antes de 1914, sobrestimou o papel da razão e subestimou o da pulsão. Ou, ainda no dizer de Edgar Morin, quando na sua obra «O paradigma perdido - A natureza humana» nos chama a atenção que o homem tem tanto de sapiens como de demens, e, a certa altura, afirma: “A ordem está na cultura, na sociedade. E, certamente, a desprogramação genética está ligada à programação sociocultural, ao sistema de normas e de interdições, às regras de organização da sociedade, que sustem a desordem e lhe sabem dar folga, designadamente nos dias de festa. Mas, logo que entramos na era das sociedades instáveis, quer dizer, na era histórica, veremos desencadear-se a ubris e a desordem, os antagonismos internos, as lutas pelo poder, os conflitos exteriores, as destruições, os suplícios, os massacres, as exterminações, a ponto de o «ruido e o furor» constituírem um aspeto principal da história humana” (Morin, 1999: 108). Fatalismo? Não! Apenas uma simples constatação: de uma antropogénese que ainda não atingiu a sua total plenitude, mas que lá chegará desde que um qualquer cataclismo não a mate e o próprio Homem saiba preservar o berço - o Planeta Terra em que lhe é dado viver - e onde se deve realizar a sua Humanidade. Em vivência sã, sábia e pacífica.

E agora peguemos num episódio histórico, relatado por vários historiadores. E citemo-lo dum pequeno relato de Dominique Venner: “No decurso do Verão de 1916, confrontam-se duas visões opostas do futuro tendo como pomo de discórdia a questão da independência da Grã-Bretanha em relação ao Estados Unidos. O governo no poder, dirigido por Herbert Asquith, coligação de liberais e conservadores, tem consciência de que a guerra se arrisca a precipitar a desaparição da antiga ordem europeia e da própria Grã-Bretanha como potência autónoma. É por essa razão que o governo de Asquith tenta negociar com a Alemanha para pôr fim ao conflito pagando o preço de uma paz branca.

Esta política é combatida por Llyod George e uma outra fação dos liberais. Estes pensam, pelo contrário, que se deve fazer tudo para destruir o poderio político e económico do Reich, o que implica obter a participação dos Estados Unidos e a criação, no futuro, de uma espécie de condomínio anglo-americano. Este voto corresponde ao dos meios financeiros e intelectuais que, à volta de lorde Milner, defendem uma comunidade cultural e política “atlantista” avant lettre.

A queda do Gabinete Asquith e a chegada ao poder de Llyod George, em 6 de Dezembro de 1916, decidem a questão. Ao receber Walter Page, embaixador dos Estados Unidos, a 29 de Dezembro, Llyod George dir-lhe-á que a paz permanente desejada pelo presidente Wilson não é concebível sem que primeiro seja destruída a casta militar austro-alemã. Apelando a uma estreita colaboração entre Londres e Washington, sublinha que entre as democracias americana e britânica existem “a amizade, os laços de sangue, os mesmos ideais e um destino comum”. A subida ao poder de Llyod George marcava o nascimento da special relationship (a relação especial anglo-americana) (Venner, 2008: 108-109).

Não pretendemos fazer especulação. Tão-somente relatar um facto e pô-lo à reflexão. Sobre o que poderia hoje ser a Europa. Como o conflito poderia, em 1916, ter acabado. Qual o porquê das atuais, e das passadas, hegemonias mundiais. Porque a Europa se subalternizou e vive hoje num impasse. Sobre a lógica e as razões dos novos centros de poder mundiais.

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Poesia e Fotografia 127

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANÇÃO PARA O ALENTEJO

 

Alentejo, Alentejo,

Vastidão de Portugal

Futuro, continental!

Terra lavrada, que vejo

A ser mar mas sem ter sal.

 

Ondas de trigo maduro

Onde mais ninguém se afoga:

Danças alegres da roga

Que vindima no meu Doiro

E vem colher o pão loiro

Da inteira fraternidade

Que falta a esta metade

De coração largo e moiro...

 

Évora-Monte, 31 de Março de 1946

2015 - Nogueira com o Pluto (191).jpg 


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Terça-feira, 14 de Julho de 2015

Grande Guerra (1914-1918) - 57

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

 

CONSIDRAÇÕES FINAIS

 

 1.- A Grande Guerra à luz do novo paradigma histórico-militar

Tentámos, ao longo deste trabalho, dar uma perspetiva o mais abrangente e integradora, quanto possível, do primeiro conflito mundial de 1914-1918, mais conhecido como Grande Guerra.

Chegados ao fim do nosso trabalho, não é nossa intenção apresentar aqui conclusões, conclusões essas sempre provisórias, e constantemente sujeitas ao escrutínio da refutabilidade pelo contraditório. Nossa intenção é muito mais modesta. Não sendo o autor desta despretensiosa obra historiador, ou sequer especialista de qualquer segmento da história, em especial da militar, a incursão feita ao longo do trabalho, que o(a) leitor(a) tem nas suas mãos, feita a partir de um guião, que inicialmente construiu, e que ao longa da elaboração do texto foi fazendo, aqui e ali, ligeiras alterações, consoante as obras que entretanto ia consultando e aquelas que lhe serviram de referência, e muitas das vezes, longamente citadas, representa apenas uma leitura, uma certa leitura, que se faz a propósito do tema que lhe serve de base.

Face a esta certa leitura que o autor vos apresenta sobre o tema, a conclusão da mesma outra coisa não poderia ser senão que Considerações Finais que, a final, o autor retira.

Considerações Finais sempre, e necessariamente, sujeitas à crítica e ao contraditório, com base nos factos e nas visões que cada um, individualmente, tem sobre os mesmos.

O essencial, portanto, não é o produto final que aqui se apresenta, sempre sujeito a aperfeiçoamento, ou mesmo a revisão total, porquanto temos plena consciência da sua incompletude, mas o debate que o mesmo possa suscitar. Porque é este, essencialmente, o nosso desiderato.

Tentámos, a partir dos ensinamentos de François Simiand, principalmente da sua obra «Méthode Historique et Sciences Sociales»; do paradigma dos «Annales» e dos seus «pais» fundadores - Marc Bloch e Lucien Febvre - os quais, criticando os três ídolos da tribo da historiografia tradicional assente no político, no individual e no cronológico, e contra o recitativo político-militar, encontrar uma história que assentasse mais na economia e na sociedade, baseada em vários domínios, desde a demografia às mentalidades, e contra uma história do sujeito como herói individual, relevando mais uma história total da sociedade. Tentámos, mas não temos a certeza de o termos conseguido.

A exemplo de Fernand Braudel, procurámos evidenciar uma pluralidade de tempos históricos, tendo sempre em atenção que:

  • Todos os factos humanos são históricos, consequentemente, digno da história;
  • O sujeito histórico não é um sujeito individual, não é um herói, mas sim as sociedades e os grupos sociais;
  • E, finalmente, à história não interessa apenas o acontecimento, mas também a conjuntura e a estrutura, e os tempos que lhe são inerentes, enquadrados na média e longa duração.

A história, a partir deste entendimento, afasta-se do ponto de vista epistemológico da historiografia tradicional, quando partilhava da mesma conceção de facto, tempo e sujeito histórico: facto histórico único, singular, atomizado, acontecimento que se particularizava em especial no grande feito militar e, inevitavelmente, nas suas consequências políticas; tempo histórico linear, contínuo e irreversível, com a sucessão desses mesmos acontecimentos; finalmente, sujeito histórico, sempre individual e voluntarista, como o protagonista dos grandes acontecimentos - o herói, o homem de estado, o chefe militar.

Ao infletirmos para um novo paradigma epistemológico-histórico assente na interdisciplinaridade com as ciências sociais, em especial, e cujos modelos teóricos, métodos e técnicas tentámos aplicar ao estudo do passado, o centro de interesse do historiador passa da sucessão dos grandes feitos, protagonizados pela figura dos heróis (em que não raras vezes coincidiam com o chefe político e chefe militar), ou seja, do tradicional objeto político-militar, para a economia, a demografia ou as mentalidades.

Neste novo paradigma, baseado na lógica explicativa das ciências sociais, procuramos, se não leis, pelo menos, regularidades tendenciais, abandonando aquilo que alguns autores apelidam do «recitativo événenmetiel».

Neste novo paradigma, o discurso historiográfico é, assim, posto em causa e, como muito bem diz Severiano Teixeira (1990), a própria função política da história. A nova história, e portanto, modestamente o nosso intento, não foi no sentido ou função patriótica comemorativa nem tão pouco procurámos legitimar (ou deitar abaixo) a historiografia tradicional. Nosso esforço foi no sentido de, a partir dos factos, fornecer argumentos, apresentar pontos de vista. Não procurámos alimentar um sentido de nação ou fazer a apologia de governantes com o intuito de alimentar a necessidade de alguma legitimação retrospetiva. Pelo contrário, nosso desiderato foi, a partir de diferentes autores e visões, encontrar os meios para melhor compreender a realidade e, por isso mesmo, fornecermos matéria e mecanismos para uma eventual melhor gestão da realidade social.

Na esteira de Severiano Teixeira (1990), na elaboração deste trabalho, nortearam-nos certas constantes e linhas de força que poderemos aqui traçar como características da nova história militar:

  • O alargamento do campo historiográfico - introdução de novas problemáticas importadas de outros campos científicos (ciências sociais; políticas; pensamento estratégico, passando pelos estudos de defesa nacional), com deslocamento dos centros de interesse do domínio estritamente militar, das estratégias e das operações táticas para a logística, a medicina e, sobretudo, as experiências de combate - o moral do combatente, os movimentos de dissidência, os motins e a deserção, a experiência do cativeiro de guerra e, por outro lado ainda, o estudo da «frente interna», isto é, da sociedade em guerra - da mobilização industrial à organização da propaganda, do crescimento do estado à opinião pública, do recrutamento militar à fabricação da memória e à construção dos mitos.
  • A utilização no campo histórico das teorias, métodos e técnicas de outras ciências - desde a dinâmica de grupos à teoria dos jogos, dos métodos quantitativos à psicanálise, da informática ao pensamento estratégico. A história militar deve trocar, assim, e em definitivo, o «recitativo événementiel» pela compreensão e a explicação, à procura de um conhecimento tão rigoroso e objetivo quanto possível no campo das ciências sociais.
  • O abandono da função tradicional, patriótica e comemorativa - À história militar não cabe mais uma função legitimadora, mas sim uma função de natureza eminentemente técnica que, para além de outras finalidades, sirva a formação dos quadros militares e, não de todo despiciendo, o seu contributo para a resolução dos problemas presentes, na esteira do que já Lucien Febvre dizia que a história era a ciência do passado tanto quanto ciência do presente, bem assim quando Marc Bloch dizia que se deveria compreender não só o passado pelo presente mas também o presente pelo passado, pois passado e presente poderiam e deveriam iluminar-se reciprocamente.
  • A existência de duas tendências distintas dentro da história militar: a primeira, aponta para o estudo interno da organização militar e, em particular, do núcleo duro que é a batalha e o combate; a segunda, para o estudo da guerra, em contexto, e, consequentemente, da relação militar-civil e guerra-política, ou seja, entre a «história dos militares», para a primeira acessão, e a «história militar», para a segunda.
  • Um novo tipo de relações entre as duas componentes da história militar - a dos historiadores e a dos militares. Se a renovação foi marcada pelo retorno dos historiadores ao fenómeno militar, foi-o também pelo abandono do «événementiel» por parte dos militares. Abriu-se, assim, um novo capítulo marcado pela colaboração entre civis e militares que se materializa institucionalmente nas comissões nacionais de história militar, segundo nos explana Severiano Teixeira.

***

O século XIX e a revolução industrial aumentaram consideravelmente a capacidade não só de mobilização das tropas, com o caminho-de-ferro, mas também o potencial de destruição com a industrialização da tecnologia militar.

Estamos, com a Grande Guerra, no cerne daquilo que mais tarde, e mais acertadamente, poderemos designar por guerra total, cujo maior paradigma foi a II Guerra Mundial (ou segundo episódio da Grande Guerra).

Na verdade, ao contrário da guerra tradicional, a guerra total é uma guerra em que a lógica não é a da limitação, muito pelo contrário, assume proporções ilimitadas, a diferentes níveis:

  • Quanto ao espaço - são guerras globais, mundiais;
  • Quanto ao tempo - são guerras de longa duração;
  • Quanto aos objetivos - são guerras que mobilizam meios não só militares mas também a sociedade global: a nível militar - uma mobilização de massas; a utilização de uma tecnologia industrializada de elevado potencial destrutivo, que afeta não só os exércitos mas também as populações civis; ao nível global, a mobilização de toda a sociedade para o esforço de guerra, desde a constituição de uma economia de guerra à organização da propaganda, envolvendo forças materiais e morais;
  • Finalmente, uma guerra deixa marcas profundas no próprio tecido social: alterações demográficas, não só no aumento das taxas de mortalidade mas de todos os movimentos naturais da população, com distorções graves do sistema económico não só decorrentes da mobilização industrial mas também das alterações da composição da mão-de-obra, com a entrada massiva da mão-de-obra feminina e o aparecimento de fenómenos como o desemprego e a inflação; mudanças ao nível institucional e político com o crescimento do fenómeno do estado, da sua intervenção e controlo sobre a economia e a sociedade e a consequente inversão do primado institucional (legislativo) sobre o executivo. Em suma, é uma guerra que afeta as próprias estruturas sociais e, mais do que isso, se constitui como fator de mudança social (Teixeira, 1990).

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A guerra total tornou completamente obsoleto o paradigma tradicional da história, em particular da história militar. Até então era possível conceber uma história militar centrada sobre o enunciado das campanhas militares e a biografia dos seus chefes. Com a guerra total - que a Grande Guerra inaugurou - mobilizando a sociedade global e impondo-lhe mudanças estruturais, tornou-se impossível uma história militar concebida em termos de batalhas decisivas.

Em suma, é nosso entendimento que, constituindo a história sempre uma meditação sobre a existência através dos personagens reais, não pensemos que qualquer grande estudo histórico revela (sempre) uma total objetividade sobre a realidade. Na verdade, qualquer estudo histórico traz sempre consigo uma certa «visão» que o autor tem do «mundo» e da realidade que estuda e que no-la apresenta ou transmite.

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publicado por zassu às 23:26
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Poesia e Fotografia 126

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SAUDADE

 

Ribeira do Bernardim,

Jardim

De pedras e mágoa:

Onde vai ter esta água

Possessa de humanidade?

Por que razão aqui vim

Cantar de pura saudade?

 

Neste lirismo corrente,

Com azinheiras ao lado,

Menina e Moça inocente,

A poesia da nascente

Foge de amor e cuidado.

 

Embala-se de frescura,

De balidos e brancura

Do rebanho,

E vai beber a amargura

De uma larga sepultura

Com marés e com tamanho.

 

Por isso, poeta irmão,

Outro e novo Bernardim:

A razão por que aqui vim

É minha mas não é tua...

Pára a mágoa no jardim,

Mas a vida continua.

 

Torrão, 30 de Março de 1946

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publicado por zassu às 16:21
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Grande Guerra (1914-1918) - 56

 

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

VI

 

DO ARMISTÍCIO AOS TRATADOS DE PAZ - PEQUENAS NOTAS

(NO RESCALDO DO TERRAMOTO AO ARREBANHO DOS DESPOJOS)

 

2.- O fim do Império austro-húngaro - Tratados de Saint-Germain e Trianon

austriahungarywwi.gifCom o Tratado de Saint- Germain pôs-se fim à dupla monarquia da Áustria-Hungria.

A Áustria cedeu todos os seus territórios não alemães: A Galícia aos Aliados, que a restituíram à Polónia; o sul do Tirol, Trieste e parte da Dalmácia, à Itália; a Boémia-Morávia constituíram o essencial da Checoslováquia e a Hungria tornou-se independente.

A Áustria deveria reconhecer a independência de estados sucessores mais vastos que o dela.

E via proibida a sua união com a Alemanha, como desejava.

O seu exército contaria apenas com 30 000 homens, sem aviões, nem artilharia pesada e era forçada a ceder a sua marinha de guerra.

Semelhantes condições, criaram na Áustria uma reação favorável ao Anschluss com a Alemanha.

Nestes termos, e face aos ânimos que este tratado suscitava, a lógica da vitória estava voltando-se contra os vencedores.

Ao tratado de Saint-Germain estava ligado o tratado de Trianon, assinado entre os Aliados e a Hungria.

Com este tratado sancionava-se à Hungria a perda de 2/3 do território da Translitânia após a união da Ruténia e da Eslováquia à Checoslováquia, da Transilvânia e do banato de Themesvar à Roménia.

Perto de um milhão e meio de Magiares ficaram, assim, na Roménia; 700 000, na Checoslováquia e quase 500 000, na Jugoslávia.

A cólera dos húngaros juntou-se à dos búlgaros, que depois os veremos aliados com a Alemanha na II Guerra Mundial.

 

3.- O Tratado de Neuilly e a Bulgária

Em novembro de 1919, a Bulgária regressava às suas fronteiras de 1913, ou seja, ao Tratado de Bucareste. Perdia a Trácia Oriental e o seu acesso ao mar Egeu, acesso esse concedido à Grécia com o porto de Alexandrópolis; a Dobruja Meridional era cedida à Roménia e a Macedónia à Jugoslávia.

 

4.- O fim do Império Otomano - Tratados de Sévres e Lausanne

500px-TratadoDeSevres1920_svg.png

Este Tratado pôs fim ao Império Otomano que, segundo Marc Ferro “não cessa de relembrar a sua existência com o de Lausanne que lhe sucedeu. Na Síria, no Líbano, na Arménia, no Iraque, etc., ele eclode por todo o lado. Neste aspeto, a guerra de 1914-1918 ainda não acabou” (sublinhado nosso) (Ferro, 2008: 277).

Refiramo-nos sucintamente que os árabes estavam gratos aos Aliados por os terem livrado da ocupação turca. Lembremo-nos da ação de Hussein, descendente do Profeta, que, com a ajuda de T E. Lawrence (Lawrence da Arábia) e da célebre investigadora oriental, e espia, Gertrude Bell, quando desencadearam a revolta contra os turcos em 1916.

Lembremo-nos da Declaração de Balfour, em novembro de 1917, em que a Grã-Bretanha anuncia que seria criado um país judaico na Palestina, e que não estava nos planos dos negociadores ingleses de altura que a Palestina fizesse parte do futuro reino árabe independente. E recordemo-nos que, no mesmo espírito, o rei Faiçal assinou um acordo com Weizmann, representante de uma organização sionista, ficando decidido que os lugares santos muçulmanos permaneceriam sob controlo do Islão.

Lembremo-nos que o desmantelamento do Império turco, tal como o previsto pelos vencedores, suscitou um revivalismo nacional que tomou corpo na revolta de Mustapha Pacha. Apesar de parte do território estar ocupado por ingleses, franceses, italianos e gregos, o objetivo de Kemal - a luta nacional - ao definirem o território otomano e ao reconhecerem aos países de população maioritariamente árabe o direito a decidir livremente o seu destino - mas não os gregos nem os arménios nos territórios maioritariamente turcos - constituíram aí o seu estado turco.

Lembremo-nos, contudo, que o tratado de Sévres, assinado pelos otomanos, em abril de 1920, reconhecia a independência da Arménia e que os Estados Unidos deveriam garantir este estado, arbitrando os seus limites.

Lembremo-nos, ainda nesta região, o recomeço da luta armada, acompanhada de massacres recíprocos entre gregos, turcos e arménios e que só em novembro de 1922, com o tratado de Lausanne, em que, pela primeira vez os Soviéticos participam na sua revisão, finalmente se pôs fim à guerra, em que a independência da Arménia deixava de ser uma questão.

E, finalmente, quanto ao território nacional judaico. O Conselho da Sociedade das Nações confiou à Grã-Bretanha as diligências de o constituir mediante a concessão de um mandato (24 de julho de 1922.

Com a guerra de 1914-1918, a Europa, que estávamos habituados a conhecer, desaparece. Benedetto Croce, o maior filósofo italiano do seu tempo, que conheceu a Europa antes de 1914, mais tarde, em 1931, falará do drama que representou a sua desaparição, falando nestes termos: “«Quem, depois de ter repensado na Europa tal como ela era antes de 1914, ordenada, florescente, abundante em comodidades, levando uma vida fácil, vigorosa e segura de si mesma, se decidir a considerar a Europa do pós-guerra, que encontra empobrecida, agitada, triste, dividida de um lado ao outro por falsas barreiras alfandegárias, uma Europa onde se dispersou a brilhante sociedade internacional que se reunia nas suas capitais, onde cada povo se ocupa apenas dos seus tormentos, tomado pelo temor do pior, e por conseguinte, desviado das coisas do espírito, onde se extinguiu, ou quase, a vida comum do pensamento, da arte, da civilização, será levado a verificar entre as duas Europas uma profunda diferença e a assinalar uma linha - ou melhor, abismo - a demarcação entre as duas: a guerra de 1914-1918» ” (Venner, 2009: 71).

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O filósofo espanhol Ortega e Gasset, no seu popular livro ou ensaio «A Rebelião das massas», publicado em 1930 - mas produto da recolha e textos seus desde 1921 -, porventura marcado pelo traumatismo espanhol de 1898, e pensando na história europeia desde os Descobrimentos, dizia que o mundo tinha sido sempre «dirigido» por uma potência dominante. A partir desta verificação, fazia esta pergunta: «Quem manda hoje?» E respondia: «a Europa já não manda. Se a Europa já não manda, outros iriam mandar por ela e talvez mesmo nela». Ortega y Gasset previa que, se a Europa se habituasse a já não mandar, perderia em duas gerações o ânimo, a energia e a disciplina que tinham feito a sua grandeza. E augurava-lhe mergulhar num caos moral e cultural sem precedentes.

Ortega e Gasset, pelos vistos não se enganou de todo!

Na mesma obra - «A Rebelião das massas» -, Ortega y Gasset ainda dizia que esta época era definida por “pessoas [que] já não estavam, nem física nem psicologicamente nos lugares que lhes pertenciam por natureza. Durante séculos, a maior parte da humanidade viveu em aldeias e em bairros, ocupada em ofícios que passavam de pai para filho. Uma minoria governava, poetava, gozava luxos e mudava de ideias. O resto sobrevivia e acatava as autoridades. O liberalismo e o crescimento económico do século XIX tinham vindo perturbar irremediavelmente esta ordem milenar. Amplas maiorias impreparadas tiveram pela primeira vez acesso àquilo que sempre estivera reservado para as elites. O primeiro indício desse facto, segundo Ortega, era a sensação de desconforto que se sentia em lugares que antes se encontravam vazios e agora estavam cheios: escolas, cafés, transportes públicos. Toda a gente se misturava e circulava. Todos estavam convertidos em «massa». Com o fim dos velhos preconceitos e hierarquias, deixara de se respeitar o Estado e o talento. O gosto caíra e o mundo estava ingovernável. Ortega concluía, assim, que a civilização produzira um tipo de europeu que negava a sua própria geração” (Ramos, 2001: 23).

No mesmo sentido vai Dominique Venner quando afirma: “«Os europeus foram os únicos responsáveis pela guerra e portanto pela catástrofe que se lhe seguiu. Já que produziram as hecatombes insensatas desta guerra e as atrocidades da seguinte, a sua civilização não se vê assim moral e politicamente condenada? Na realidade, a pergunta está mal formulada, pois não foi a civilização europeia que provocou a guerra de 1914 mas sim, pelo contrário, a rejeição dela [...] Além de todas as razões humanas e técnicas [...] é preciso também ter em conta que o abandono da cultura política que tinha prevalecido até então. O concerto europeu repousava sobre valores de civilização comuns a todas as elites dirigentes. Ora, desde o fim do século XIX, a democratização da vida pública, a chegada ao poder de novas camadas, põem em causa esse verdadeiro clube internacional que tinha até então gerido os assuntos europeus. Por outras palavras, os valores fundamentais da civilização europeia tinham sido abandonados. Não foram as elites que levaram à catástrofe mas o seu esquecimento. O despertar de paixões nacionalistas e dos ódios entre europeus, em vésperas de 1914 e depois, é uma manifestação desse esquecimento»” (Venner, 2009: 87-88).


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Segunda-feira, 13 de Julho de 2015

Poesia e Fotografia 125

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LISBOA

 

A luz vinha devagar

Através do firmamento...

Vinha e ficava no ar,

Parada por um momento,

A ver a terra passar

No seu térreo movimento.

 

Depois caía em toalha

Sobre as dobras da cidade;

Caía sobre a mortalha

De ambições e de poalha,

Quase com brutalidade.

 

O rio, ao lado, corria

A querer fugir do abraço:

Numa vela que se abria,

E onde um sorriso batia,

O mar já era um regaço.

 

Mas a luz podia mais,

Voava mais do que a vela;

E o Tejo e os areais

Tingiam-se dos sinais

De uma doença amarela.

 

Ardia em brasa o Castelo,

Tinha febre o casario;

Cada vez mais nosso e belo,

O profeta do Restelo

Punha as sombras num navio...

 

Nas casas da Mouraria,

Doirada, a prostituição

Era só melancolia;

Só longínqua nostalgia

De amor e navegação.

 

Os heróis verdes da História

Tinham tons de humanidade;

No bronze da sua glória

Aviva-se a memória

Do preço da eternidade.

 

Nas ruas e avenidas,

Enluaradas de espanto,

Penavam, passavam vidas,

Mas espectrais, diluídas

Na cor maciça do encanto.

 

E a carne das cantarias,

Branca já de seu condão,

Desmaiava em anemias

De marítimas orgias

De um fado de perdição.

 

Lisboa, 20 de Fevereiro de 1946

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publicado por zassu às 19:14
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Grande Guerra (1914-1918) - 55

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

VI

 

DO ARMISTÍCIO AOS TRATADOS DE PAZ - PEQUENAS NOTAS

(NO RESCALDO DO TERRAMOTO AO ARREBANHO DOS DESPOJOS)

 

Como muito bem diz Dominique Venner: “ Iniciada como uma guerra clássica entre Estados, acabou em cruzada ideológica, levando à destruição da antiga ordem europeia encarnada pelos três grandes Impérios do Centro e do Leste da Europa, o Império alemão, o Império austro-húngaro e o Império russo. Destruiu também o Império otomano, cujos despojos foram repartidos entre os vencedores, de tal maneira que daí nasceram mais tarde a conflagração do Médio Oriente e o renascimento do islamismo.

Na própria Europa, retalharam-se fronteiras e povos, impuseram-se aos vencidos, em 1919, condições humilhantes e cruéis: tudo isto trazia o embrião da guerra seguinte, mais catastrófica ainda que a precedente” (Venner, 2009: 26-27).

Mas, vejamos algumas notas ou detalhes.

 

1.- Versalhes - O Tratado da Discórdia

lideres-reunidos-versalhes -  Lloyd George, Vittor

(Os lideres em Versalhes -  Lloyd George, Vittorio Emanuele Orlando, Georges Clemenceau e o americano Woodrow Wilson) 

Não foram fáceis as conversações para se chegar a um acordo quanto aos termos do tratado. Em primeiro lugar, os diferentes pontos de vista ente F. Foch e G. Clemenceau; em segundo, a posição dos britânicos e norte-americanos, que, embora convergentes, nem sempre eram coincidentes e, depois, a questão dos italianos que, descontentes com o que lhes seria distribuído como despojos, acabaram por se retirar. As personalidades vencedoras em presença eram bem diferentes uma das outras, para além dos seus objetivos políticos que pretendiam alcançar. Vale a pena aqui recordar uma passagem constante de Canal da História (2013: 363) quando, a certa altura, diz: “ Quase desde o início deu-se um claro distanciamento entre Wilson e Clemenceau. O primeiro era um homem idealista e empenhado em procurar por em prática os seus princípios sobre todas as coisas, que se demonstraram realmente difíceis de aplicar à complexa realidade europeia. Clemenceau era sobretudo pragmático e nas suas posições pesavam muito mais as exigências populares e, acima destas, a procura de garantias para proteger a França face a uma possível agressão alemã no futuro. Aparentemente, Wilson chegou a considerar o presidente do Governo Francês um cínico, e este chegou a dizer que o seu colega norte-americano se julgava um segundo Jesus Cristo - «Estou sentado entre o futuro Napoleão e o próximo Jesus Cristo», foi o célebre gracejo de Clemenceau no momento da assinatura do tratado; com Napoleão referia-se ao primeiro-ministro inglês Llyod George”.

Levantemos, exemplificativamente, um pouco o véu de algumas discussões.

Na Conferência de Paz de Paris, D. Llyod George começara a ter dúvidas sobre o bom senso da severidade dos termos que estavam a discutir, uma severidade em que os franceses, e Clemenceau e em particular, insistiam.

Llyod George declarou que a sua preocupação era criar uma paz para sempre, não para uns meros 30 anos, admitindo que “«a manutenção da paz dependerá de não haver motivos de exasperação, que incendeiem constantemente o espírito do patriotismo, ou da justiça, ou de atuar com lisura para daí tirar vantagem...»” (Gilbert, 2007: 754).

Mas os argumentos e objeções de Llyod Geoge caíram em saco roto...

E G. Clemenceau apontou o calcanhar de Aquiles aos britânicos: «Se os britânicos estão tão ansiosos por apaziguar os alemães, deveriam olhar... para o outro lado do mar... e fazer conceções coloniais, navais e comerciais».

E as discussões e ataques mútuos continuaram...

Cada um procurou arrebanhar, em função da sua força, o que mais pode.

Mas também havia, da parte de muito outros, espectativas, transformadas em desilusões pelo reparto dos despojos de guerra. Refiramos um ou dois casos.

Foi negado à Bélgica qualquer parcela da África Oriental Alemã, que ela tinha ocupado, e que tinha a garantia de ter, mas, em vez disso, recebeu o território africano do Ruanda-Urundi, sem saída para o mar.

Portugal também pretendia ficar com a África Oriental Alemã, mas porque era um dos territórios pretendidos pela Grã-Bretanha, teve que contentar-se com o Triângulo de Quiongo, no norte de Moçambique.

A Itália pretendia ter mão livre na Abissínia, mas não tinha sido território alemão, e o seu pedido foi negado. Foram-lhe também recusadas muitas exigências na África do Norte e Oriental, pois tal só poderia ser feito à custa da França e da Grã-Bretanha.

Quem ficou, apesar de tudo, mais contente foi a Grã-Bretanha. O resultado da distribuição das colónias alemãs bem assim do império turco, nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, A J. Balfour, “«foi um mapa do mundo mais vermelho»” (Gilbert, 2007: 749).

Na verdade, a Alemanha foi obrigada a renunciar às suas colónias. Em teoria, estas seriam administradas pela Sociedade das Nações, mas, na prática, esta organização cedeu as suas funções a algumas das potências vencedoras, sob a forma legal de mandatos. A África Oriental Alemã foi maioritariamente absorvida pela Grã-Bretanha (salvo o território do noroeste, vizinho do Congo belga, que passou para a Bélgica com o nome de Ruanda-Burundi); o Sudoeste Africano foi entregue ao domínio britânico da África do Sul. As colónias ocidentais de Togolândia e Camarões foram divididas entre a Grã-Bretanha e a França. Na Oceânia, a Nova Guiné Alemã passou para o domínio britânico da Austrália e as suas ilhas adjacentes repartiram-se entre a Austrália e o Japão.

O bloqueio à Alemanha manteve-se em vigor, e assim se manteria, insistiram os Aliados, até que o tratado fosse assinado. Se o tratado não fosse assinado, referiu o The Times, a ocupação de toda a Alemanha seria acrescida ao bloqueio, como ameaça e como arma.

Na manhã de 7 de maio de 1919, terceiro aniversário do afundamento do Lusitânia, numa sala sobrelotada do Palácio Trianon, no Parque de Versalhes, os delegados dos Aliados receberam em audiência o enviado plenipotenciário alemão - o conde Ulrich Brockdorff-Rantzau - para lhe entregarem uma cópia do Tratado que propunham à Alemanha o concerto para a paz.

A delegação alemã, ao chegar à cidade parisiense foi acolhida no mesmo hotel em que os líderes franceses, em 1871, tinham estado, enquanto negociavam com Bismarck.

O conde Brockdorff-Rantzau, em Versalhes, declarou “«É-nos pedido que admitamos que somos os únicos culpados de guerra; admiti-lo, nos meus lábios seria uma mentira [...] As centenas de milhar de não combatentes que pereceram desde 11 de novembro devido ao bloqueio», disse, «morreram devido a uma fria deliberação, depois de os nossos adversários terem vencido e assegurado a vitória. Pensem nisso quando falarem de culpa e castigo». E continuou no mesmo tom.

Este discurso foi recebido pelos presentes com evidente embaraço. O próprio W. Wilson chegou a afirmar que foi «o discurso menos diplomático que ouvi na minha vida».

A imprensa Aliada denunciou este ‘insulto’ alemão, e o Daily Mail dizia aos seus leitores: «Depois disto, ninguém tratará os Hunos como civilizados ou arrependidos».

O tratado, para além do conteúdo constante do armistício assinado a 11 de novembro de 1918, e da repartição dos despojos coloniais, resumia-se ao seguinte: despojamento da Alsácia-Lorena, da Posnânia, de Eupen e de Malmédy; exército reduzido a 100 000 homens; frota naval de guerra confiscada; nos termos do artigo 231 do Tratado, «julgada responsável pela guerra». Os alemães, no que concerne à Silésia e ao Sarre, duvidavam da lealdade dos vencedores para organizarem o prometido plebiscito.

O povo alemão acusou os seus dirigentes de porem a ridículo a Alemanha ao aceitarem esta paz de traição. A ocupação da margem esquerda do Reno, durante 15 anos, a título de caução, levou ao rubro a irritação.

Exacerbada pela propaganda revanchista, o mito da punhalada pelas costas ganha consistência. E, para grandes franjas de setores políticos alemães, a duplicidade dos vencedores aumentava a sua cólera.

Afirma Marc Ferro que é um facto que os governos das grandes potências vencedoras queriam assegurar o domínio dos vitoriosos. Mas subestimaram a cólera da Alemanha, o descontentamento da Itália, cujos interesses eram, em parte, sacrificados aos da Jugoslávia. Ignoravam igualmente as perturbações na Europa balcânica ou na Irlanda bem assim o fogo que começava a despontar na Ásia e no mundo árabe. Ou seja, na precipitação em suster a cólera dos alemães como uma caução de vitória, os Aliados não se apercebiam de que estavam a perder a paz no exato momento em que ganhavam a guerra.

E, por mais incrível que pareça, à parte duas ou três províncias perdidas, a Alemanha mantinha-se intacta: não sofrera qualquer perda material durante a guerra e o seu potencial económico continuava excecional. As indemnizações previstas pelo tratado não limitavam, nem o seu desenvolvimento, nem a sua liberdade de manobra.

Pelo contrário, a França, ferida, destruída, exangue, gastava uma parte da sua energia nacional a reconstruir a sua economia; a Alemanha teria somente que a reconverter.

Arruinadas pelo esforço de guerra e pelas compras ao estrangeiro, a França e a Inglaterra, prósperas em 1914, viram desaparecer o seu crédito no exterior antes de ele se transformar em conta a débito.

Igualmente no plano estratégico, ainda segundo Marc Ferro, a França e a Inglaterra perdiam a partida: a Grã-Bretanha via o Japão ocupar o seu lugar no mercado asiático e os povos de cor a contestarem a sua hegemonia, de Calcutá ao Médio Oriente.

No quinto aniversário do atentado de Serajevo, pretexto que tinha dado origem à guerra, no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, onde os franceses tinham sofrido a humilhação de assistir à proclamação do Império alemão em 1871, após a sua derrota na Guerra Franco-Prussiana, assinava-se o Tratado de Versalhes. Nada foi feito ao acaso.

Após esta assinatura, a Conferência de Paz não se dissolveu, uma vez que era preciso assinar um tratado com cada uma das Potenciais Centrais: tratados de Sainte Germain e Trianon; tratado de Neuilly e os tratados de Sévres e Lausana.

O tratado de Versalhes entrou em vigor a 10 de janeiro de 1920, apenas 7 semanas depois de o Senado Americano o ter rejeitado.

Doravante a Europa estava entregue a si mesma para descobrir a forma de implementar o cumprimento das várias cláusulas, e para atuar, ou não atuar, se as cláusulas não fossem cumpridas.

O 14º ponto de W. Wilson - a Liga das Nações -, de certo modo, era já uma organização talhada para a concertação da paz. Todavia, não tinha no seu seio a Rússia e a Alemanha ainda não estava incluída. E com uma China irritada com os Japoneses. Era, apesar de tudo, uma esperança. Mas os precisos termos de Versalhes não traziam à Europa senão uma paz podre.

Contestado, vilipendiado pelos vencidos, o tratado de Versalhes teve uma existência agitada. Durante 20 anos, Hitler só falou num Diktat (imposição) ou um Schandvertrag (Tratado da Vergonha). A Segunda Guerra Mundial, para muitos autores, como Ferro, resultou deste Tratado.

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publicado por zassu às 18:37
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Sábado, 11 de Julho de 2015

Poesia e Arte 08

 

 

POESIA E ARTE

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ODE ÀS MULHERES DA VIDA

 

Gatas humanas da rua,

Que poema de Janeiro!

Que epopeia branca e nua

Ao luar do mundo inteiro!

 

Amam? Não amam? Que importa

Saber mistérios alheios?

A carne pode estar morta

E ter quentura nos seios.

 

Encolhidas nos portais,

Debruçadas nas janelas,

São amantes naturais

Prostitutas e donzelas.

 

Todas beijam, todas são

Aberta terra em pousio;

Calor de fecundação

Num desespero vazio.

 

Alguém passa, alguém as quer,

Alguém que é alto e moreno...

Como vai qualquer mulher

Senão assim, a um aceno?

 

E num quarto e numa cama,

E num lençol de amargura,

Nua e branca, quem é dama,

Ou mulher de vida impura?

 

Humildes servas de Deus,

Do Deus homem que as chama,

Que humanos versos os seus,

A brilhar na sua lama!

 

Lisboa, 16 de Janeiro de 1946

fado_e_a_severa.jpg


publicado por zassu às 19:55
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2015

Poesia e Fotografia 123

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ABYSSUS ABYSSUM

 

Gosto do mar desesperado,

A bramir e a lutar;

E gosto de um barco ainda mais ousado

Sobre esta rebeldia a navegar.

 

Coimbra, 25 de Novembro de 1945

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publicado por zassu às 21:36
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2015

Poesia e Fotografia 49

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AJUDA

 

Porque o amor é simples,

Vale a pena colhê-lo.

Nasce em qualquer degredo,

Cria-se em qualquer chão.

Anda, não tenhas medo!

Não deixes sem amor o coração!

 

Coimbra, 23 de Outubro de 1945

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publicado por zassu às 20:08
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