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04
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 13

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

III

PENSANDO NA GUERRA, ELABORANDO PLANOS

 

3.- Pensando na guerra, elaborando planos

3.1.- Planeamento e coordenação do esforço de guerra - questão fulcral

                      

O clima geral, social e psicologicamente, na década que antecedeu 1914, era de que, os povos e nações europeias, mercê das políticas de alianças e do clima de instabilidade e tensões que se vivia, a todo o tempo, esperavam uma guerra, levando toda a Europa para um conflito armado.

Não estranha, portanto, que dirigentes políticos e militares se preocupassem em elaborar planos contando com a guerra.

Mas, como Moltke, o Velho,

 

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o grande vencedor da guerra franco-prussiana, em 1871, dizia, a época nova que se vivia exigia novas formas, sofisticadas, de organização dos exércitos para a guerra. Longe ia o tempo, tal como desde Frederico, o Grande, George Washington, Napoleão ou Welington em que os exércitos, lentamente, se deslocavam a pé, enquanto os seus chefes mandavam batedores a cavalo para verem a configuração do terreno, localizarem o inimigo, ao mesmo tempo que tinham possibilidade para fazer o planeamento do ataque no palco da batalha.

Agora, no continente europeu, exceto a Grã-Bretanha, todas as potências possuíam exércitos permanentes, nas suas respetivas unidades, distribuídos por todo o território do país, por armas, e prontos para a mobilização a cada momento. E cada exército, ou corpo de exército ou divisão, tinha unidades especializadas não só de infantaria como de artilharia e engenharia para se deslocarem e combaterem com eficácia. Um volume tal de homens que, noutras épocas, seria impensável. A título de exemplo, a Alemanha, na década que antecedeu 1914, chamou às suas fileiras mais de 2 milhões de homens, munidos com toda a parafernália de toneladas de materiais e mais de 100 mil cavalos. Tudo isto, graças à revolução industrial que possibilitou exércitos maiores e o crescimento da população na Europa fez aumentar a reserva de recursos humanos disponíveis para o esforço de guerra, caso fosse preciso.

Fator importante e decisivo foi também, nos finais do século XIX, o comboio e a sua sofisticada e extensa rede de linhas que permitia transportar exércitos não só muito maiores como também para grandes distâncias, desde os quartéis e as fábricas, situadas atrás das linhas, possibilitando a manutenção dos exércitos com materiais e víveres para o esforço da campanha. Transportar mais de 2 milhões de homens, com toneladas de materiais, para os por nas fronteiras do Luxemburgo e da Bélgica, foram necessários 21 mil comboios. Se as coisas corressem mal, tal como sucedeu na guerra russo-japonesa com o caminho-de-ferro transiberiano, poderia ser catastrófico para os objetivos e esforço de guerra alemães.

Por aqui se vê a importância cada vez maior que a estrutura do exército começou a ter - o seu Estado-maior -, a maior inovação institucional dos exércitos do mundo moderno. O Estado-Maior passou a ser o cérebro do exército, propiciando ideias, organização e liderança aos imensos corpos de tropas com que tinham de abastecer, transportar e liderar. Aos oficiais dos Estados-Maiores dos exércitos competia-lhes a recolha das informações, a elaboração e certificação dos mapas (prontos e atualizados), a conceção e teste dos planos de guerra. Só para aquilatar da importância deste trabalho é passarmos uma vista de olhos pelas centenas ou milhares de páginas de planos pormenorizados que, para a mobilização e vias férreas, o Estado-Maior do exército alemão tinha, chegando ao pormenor de precisar o número de carruagens, dimensão dos comboios, velocidade dos mesmos, horários, paragens nas estações para abastecimento e manutenção, etc. Neste trabalho, na Seção dos Caminhos-de-ferro do Estado-Maior alemão trabalhavam mais de oitenta oficiais, “escolhidos mais pelas suas capacidades intelectuais do que pelos antecedentes familiares (a maioria provinha da classe média e, hoje em dia, seriam porventura os maluquinhos pela informática)” (MacMillan, 2014: 404).

A envergadura e complexidade da movimentação de uma imensa massa de homens para a frente da batalha levou os generais Joseph Joffre e Moltke, o Jovem, chefes dos Estados-Maiores dos exércitos francês e alemão, respetivamente, a alertarem os seus governos de que um dia, ou mesmo horas, na preparação e execução dos planos, seriam vitais, podendo trazer terríveis consequências em termos de baixas ou derramamento de sangue, de conquistas ou perda de territórios.

Os dirigentes civis, que ao longo de décadas eram poucos aqueles que dominavam as questões da guerra, face a esta enorme complexidade, tendiam a deixar inteiramente nas mãos dos militares o planeamento da guerra e, posteriormente, a sua implementação e avanço, considerando tal tarefa para peritos, sem, entretanto, fazerem perguntas, aliás para as quais não tinham conhecimento minucioso para as fazer, não contestando, por isso, as decisões que os militares tomavam.

Esta foi, porventura, uma das questões mais graves durante a Grande Guerra: o total divórcio, em termos de coordenação do esforço de guerra, pelo menos na primeira parte da contenda, entre civis e militares. Estavam de costas voltadas uns para os outros e, não raras vezes, os militares pouco, ou mesmo nada, informavam os seus dirigentes políticos do que se passava efetivamente na frente de batalha, ao ponto de alguns deles virem a saber as notícias, em primeira mão, pelos jornais, ou, pasme-se!, pela respetiva florista.

Era um mundo que girava a uma velocidade a que a maioria das pessoas e principais contentores e decisores - políticos e militares - não estavam habituados a lidar. Durante o século XVIII, os governos tinham meses para pensar se queriam ou precisavam de ir para a guerra ou não. Agora, eram reféns, se queriam atingir certos objetivos, de dias, ou mesmo de horas, dos «planos» de uma casta. A dificuldade muitas vezes de diálogo entre dirigentes militares, que se consideravam técnicos, e os políticos, esteve, por vezes, para por em causa o sucesso do esforço de guerra. Contudo, há uma linha limite para além da qual as questões técnicas têm de ser levadas ao «palco» das considerações políticas e diplomáticas, sob pena das dificuldades poderem interferir diretamente no sucesso de uma campanha. Veja-se, nomeadamente, o que representou a invasão do Luxemburgo e particularmente da Bélgica e do impacto que teve a invasão de um país neutral na opinião pública da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.

Em suma, para além de um correto planeamento, as questões da coordenação entre políticos e militares e, não raras vezes, entre os diferentes ramos das forças armadas, estiveram ausentes e foram causa de verdadeiros «engulhos» ou impasses, e quiçá, estiveram na origem de grandes desaires.

3.2.- Mentalidade e «preconceitos» militares reinantes

 

Os militares - e muitos dirigentes civis na Europa - não imaginavam um mundo sem guerra. Não admira, em consequência, a sua postura nos diferentes fóruns pela paz, arbitragem e desarmamento, durante a última década que antecedeu 1914. Muitos deles estavam imbuídos do preconceito e das ideias do darwinismo social, que considerava que as sociedades tinham inimigos, naturais e hereditários, e que o conflito entre eles era inevitável.

Refere Margaret MacMillan que “os soldados dos tempos modernos [antes da Grande Guerra] sonhavam com o emular os grandes ataques do passado com os seus assaltos de infantaria, a sua luta corpo a corpo e as suas cargas de cavalaria. As histórias militares, mesmo as mais recentes, reforçavam a visão romântica e heroica da guerra e expunham para admiração atos de bravura individual” (MacMillan, 2014: 409-410). Caso típico e sintomático era a posição dos observadores europeus que estiveram na guerra russo-japonesa, ao expressarem uma enorme admiração pelos soldados japoneses que lutavam e morriam como verdadeiros guerreiros. E, comentavam, preocupados, que os europeus já não eram capazes de se comportarem da mesma maneira. Na guerra, o movimento, o atacar, era, para o militar da época de 1914, mais fascinante e ousado. Ficar na defensiva era uma cobardia. Um major-general britânico, citado por Margaret MacMillan, dizia que “«a defensiva nunca é um papel aceitável para o britânico e ele pouco lhe liga e pouco a entende»” (Mac Millan, 2014: 414).

Ferdinand Foch, quando instrutor na Escola Superior Militar francesa, dizia que a força da defesa e a tecnologia seriam vencidas, caso os atacantes fossem, de longe, em número superior à defesa. Relevava este general, tão influente na Grande Guerra pelo lado francês, o fator psicológico como muito importante, ao incentivar que os soldados deveriam ser motivados, por via do treino, e pelo apelo ao patriotismo, a estarem preparados para atacarem e morrerem. E fazia sentir aos seus colegas, generais, que não deviam perder o ânimo, caso houvesse grandes baixas. Daqui, em termos de treino, a importância da baioneta como uma forma de instigar o soldado a atacar.

Termos como caráter, motivação e moral faziam recorrentemente parte do léxico militar antes de 1914 como ingredientes fundamentais para o êxito de uma ofensiva. A valorização da importância do fator psicológico recorria do pensamento muito comum e em voga na sociedade europeia da época em que, como já referido, as obras de F. Nietzche e H. Bergson não eram alheias ao fazerem a exaltação da vontade humana.

O coronel Louis Grandmaison,

 

 

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um grande teórico militar francês anterior à Grande Guerra, afirmava que “«É-nos dito, com acerto, que os fatores psicológicos são primordiais em combate [...] na verdade, não existem outros fatores, porque todos os outros - armas, manobrabilidade - só influenciam indiretamente provocando reações morais [...] o coração humano é o ponto de partida de todas as questões da guerra»” (MacMillan, 2014: 415).

Hugo von Freytag-Loringhoven, teórico e professor militar, afirmava nas suas aulas que a morte em combate era “«a suprema recompensa da vida», e pintava retratos de soldados alemães do passado marchando decididamente perante o fogo inimigo” (MacMillan, 2014: 416).

Os senhores da guerra, na década que antecedeu 1914, pensavam em termos de batalhas decisivas, em que as forças inimigas eram totalmente liquidadas, não se pensando em triunfos parciais, levando a negociações. O inimigo liquidado teria de aceitar todas as condições de paz que lhe fossem impostas.

Quando se passava para as questões táticas, a cavalaria continuava a desempenhar um papel crucial, tal como no tempo de Napoleão, quando este a enviava para o ataque depois de ver vacilar as linhas de infantaria inimigas. O manual de cavalaria britânico de 1907 dizia ”«que a espingarda, se bem que eficaz, não pode substituir a velocidade do cavalo, o magnetismo da carga e o terror do aço frio»” (MacMillan, 2014: 417).

Ataques, batalhas, a própria guerra, tinham todos que ser rápidos e, fundamentalmente, curtos.

Em suma, reinava a ideia de que a «ofensiva» tinha de penetrar no espírito da nação e de que, como afirmava um oficial francês no parlamento, em 1912, “«a primeira grande batalha decidirá toda a guerra, e as guerras serão curtas»” (MacMillan, 2014: 417).

3.3.- Dúvidas e o desmentido de algumas realidades

 

O tipo de guerra, com que a maioria dos militares da época de 1914 vislumbravam, era, face à realidade dos factos e o avanço do século XX, anacrónico.

As duas revoluções industriais produziram armas que eram demasiado poderosas, mais fiáveis e precisas e cujo alcance era muito mais superior àquele com que estavam, na época, habituados a lidar. Com estas armas, os soldados não viam o inimigo que estavam a matar e, por conseguinte, era muito mais fácil defender posições do que atacar, porquanto as tecnologias para vencer uma defesa forte, com os aviões ou os blindados (tanques) ainda não tinham verdadeiramente entrado em cena.

Após uma prolongada batalha, como foi a de Verdun, a frase de um general francês era bem oportuna, e realista, quando afirmava que três homens e uma metralhadora eram suficientes para deter e travar o avanço de um batalhão de heróis.

No que concerne a armamentos, os progressos da metalurgia, as armas de fogo, como as convencionais dos soldados até à artilharia, tornaram-se muito mais fortes e mais duradouras. E, no que diz respeito a explosivos, nomeadamente os inventados por Alfred Nobel, disparavam até mais longe e, com as estrias, eram muito mais precisas. Diz Margartet MacMillan que “em 1900 as espingardas eram precisas - e mortíferas - a uma distância maior, por vezes até um quilómetro, e as novas metralhadoras podiam disparar centenas de projéteis por minuto. Os números tinham subido e continuariam a subir por todo o lado. A artilharia de campanha, que tinha um alcance médio de pouco mais de meio quilómetro em 1800, atingia quase 7 em 1900; os canhões mais pesados, montados muitas vezes em chassis de caminho-de-ferro, tinham um alcance de dez quilómetros. Assim, os atacantes tinham de sobreviver a vários quilómetros de fogo de artilharia e, em seguida, a várias centenas de metros de intenso fogo de espingarda e metralhadora, ao avançarem para o inimigo” (MacMillan, 2014: 410-411).

Mas estas invenções técnicas e a sua real ênfase não se compatibilizavam, ou coadunavam, com os valores - como já evidenciámos - da classe donde provinham tantos oficiais. Mesmo, face à dimensão crescente dos exércitos e da necessidade de recrutamento de oficiais fora das classes tradicionais donde provinham, os novos oficiais, oriundos da classe média, que se pressupunha deverem ter em devida atenção, e olhar com mais entusiasmo e respeito, a mestria técnica e académica, pelo contrário, absorveram, com extrema facilidade, os valores aristocráticos e tradicionais, como a honra, a valentia, a prática dos duelos, ao contrário de apresentarem uma outra postura, mais representativa dos tempos modernos.

Os resultados e relatórios de observadores militares europeus em alguns palcos de guerra, como a Guerra Civil Americana, de 1861-1865; a travada entre a Turquia e a Rússia, em 1877; a própria guerra franco-prussiana, em 1870-1871; as guerras dos Bóeres, em que agricultores bóeres, bem escondidos no terreno, infringiram perdas devastadoras aos ataques frontais britânicos, e com o mesmo registo e padrão, a guerra russo-japonesa, com uma conjugação de posições defensivas bem preparadas, nomeadamente trincheiras, e velocidade de disparo, dizimando os atacantes e provocando um enorme número de baixas entre atacantes, de nada serviu de lição ou sequer de reflexão!

Nomeadamente a guerra dos Bóeres, na África do Sul, quanto à cavalaria, fez-se ressaltar uma nova utilização desta arma, como o poder de fogo montado para manobrar em volta dos flancos do inimigo. Contudo, a cavalaria dos próprios exércitos europeus ofereceu enorme resistência a este uso, como denunciava o vulgar «desabafo» de que não eram voluntários, de cavalaria, americanos. A experiência da Grande Guerra acabou por dar fim a esta arma, entendida nos termos tradicionais.

3.4.- O culto da ofensiva - guerra rápida, curta e fulminante?

 

A mentalidade militar vigente na década que precedeu 1914, em vez de refletir, face aos novos desenvolvimentos tecnológicos, sobre uma nova forma de fazer a guerra, continuou prisioneira do princípio do ataque.

Era voz corrente entre os militares de que não era o ataque que não funcionava, mas que tinha de ser mais forte, com mais homens.

Como se explica esta relutância em aceitarem novas formas de guerra? Talvez inércia burocrática. Alterar táticas, exercícios e métodos de treino desestabiliza e requere tempo. Para estes militares era mais fácil, psicologicamente, pensar em termos de ação. Semelhante atitude, face às conceções vigentes na época, de gente acomodada aos seus postos e com poucas perspetivas quanto ao futuro das novas armas, a guerra, para eles, significava tomar a ofensiva e forçar a uma decisão.

Para estes militares ofensiva era sinal de guerra rápida, curta e fulminante. E, perante esta mentalidade reinante, o «desabafo» de Ivan (Jean) Bloch ao considerar os militares uma casta sacerdotal que não gostava que os estranhos se imiscuíssem, ao afirmar que: “«Desde tempos imemoriais, a ciência militar tem sido um livro com sete selos, que ninguém, exceto os verdadeiros iniciados, é considerado digno de abrir»” (MacMillan, 2014: 441).

Mas havia gente que não alinhava por esta doutrina dominante face a nova sociedade que tinham pela frente, com novas armas e novas experiências de guerra. E alguns planeadores europeus, dos finais do século XIX, temiam longas guerras de desgaste, tendo dúvidas quanto à capacidade de as sociedades as aguentarem. Não eram, assim, apenas as «vozes» e movimentos a favor da paz que assim pensavam. Muitos até pensavam que a guerra lhes estava a fugir ao seu controlo e, uma vez encetada, seria difícil levá-la a uma conclusão decisiva. Nomeadamente, dizia-se, os exércitos até podiam conseguir uma ou várias vitórias, claras, como na Prússia, mas os povos podiam não aceitar o veredicto (MacMillan, 2014).

O novo fenómeno de guerra, que se vislumbrava no horizonte, com povos inteiros «mobilizados», chamava a atenção para o facto de levar muito tempo e ter custos demasiado elevados até um lado derrotar o outro.

Nos anos anteriores a 1914, a maioria dos chefes militares alemães começavam a por em dúvida - nomeadamente Moltke, o Jovem - que fosse possível uma guerra decisiva e curta, mas continuavam a fazer planos para uma guerra assim porque, como militares, não perspetivavam qualquer alternativa.

Visto agora à distância, havia, antes de 1914, uma flagrante ausência de planeamento sério tendo em perspetiva uma guerra longa. E a prova estava, pura e simplesmente, na circunstância de os responsáveis, civis e militares, em encararem esse pesadelo de derrota e agitação social que, fatalmente, face aos tempos que corriam, seria inevitável.

Era indisfarçável que, para estes dirigentes, o medo pairava no ar e sobre as suas cabeças, ao pressuporem uma guerra longa. E os avisos de Moltke, o Velho, o vitorioso de Sedan, quando numa sessão do Reichtag alertava para o fim da guerra dos gabinetes e que se deveria preparar para uma nova era da guerra dos povos, «caiu em saco roto».

O que se via imperar era o fatalismo, tão lucidamente contido nesta frase: “«A vitória poderia gerar uma sociedade melhor; se perdessem, já estavam condenados antes»” (MacMillan, 2014: 418).

E é, assim, como ainda diz Margaret MacMillan, que “à medida que a Europa foi passando por uma série de crises, na década anterior a 1914, e as alianças se foram estreitando, os seus líderes, e as suas respetivas populações, habituavam-se à ideia de que a guerra poderia eclodir. Os membros da Tríplice Entente - França, Rússia e Grã-Bretanha - e a Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, na Tríplice Aliança, acabaram por esperar que qualquer conflito entre duas potências arrastasse provavelmente os seus parceiros” (MacMillan, 2014: 419).

Neste estado de coisas, e com este espírito, uma guerra generalizada travada no coração da Europa, estava a tornar-se imaginável.

As crises, o militarismo, os nacionalismos, a opinião pública, a mentalidade e preparação dos dirigentes - civis e militares - criaram o «lastro» psicológico e social para aceitarem a guerra como inevitável. E que se sabia que seria total!

Vejamos, agora, que tipo de planos de guerra estavam preparados, em cima da mesa.

04
Mai15

Poesia e Fotografia 76

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PEDIDO

 

Ama-me sempre, como à flor do lírio

Bravo e sozinho, a quem a gente quer

Mesmo já seco na recordação.

Ama-me sempre, cheia de certeza

De que, lírio que sou da natureza,

Na minha altura eu brotarei do chão.

 

Coimbra, 12 de Abril de 1943

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03
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 12

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

III

PENSANDO NA GUERRA, ELABORANDO PLANOS

 

2.- As «vozes» e os movimentos ténues «sonhadores» da paz

Quem, em finais do século XIX, e princípios do século XX, levantava a sua voz a falar da paz, da arbitragem, do desarmamento e da convivência pacífica entre os povos?

Já vimos que a Exposição Universal de Paris de 1900, (aliás como todas as Exposições), foi uma gigantesca parada de marketing propagandístico que, em nome da paz e do progresso, outra coisa não fez, ou procurou mostrar, senão o poderio de cada nação.

Mas, pelo seu Palácio de Congressos, os temas da paz, do desarmamento, da arbitragem e do concerto dos povos foram temas de debate. Eficácia, em termos práticos, é que não foi muito sentida.

Vamos recordar, sumariamente, ao longo do tempo, e antes da eclosão da Grande Guerra, algumas «vozes» e movimentos que tiveram algum eco.

2.1.- Ivan Bloch (ou Jean Bloch)

 

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Em 1898, Jean Bloch (ou Ivan Bloch) publica uma obra em seis volumes, juntando argumentos económicos contra a guerra, com os desenvolvimentos espetaculares da própria arte da guerra. Seu intento era defender que a própria ideia de guerra era obsoleta. E especificava seu ponto de vista: as guerras futuras serão terrivelmente mortíferas e vão absorver enormes recursos e mão-de-obra; serão em larga escala e transformar-se-ão num impasse, destruindo as sociedades nela envolvidas; nestes termos, a guerra será um enorme suicídio.

Embora Bloch não tivesse em devida conta a enorme coragem, sacrifício e pertinaz resistência, bem assim a enorme capacidade de mobilização de recursos, nomeadamente com a integração da mão-de-obra feminina no esforço de guerra, quanto ao resto, tinha razão, quando defendia que os progressos tecnológicos, “com armas que disparavam mais certeiras e com mais rapidez ou explosivos melhores, estarem a tornar quase impossível para os exércitos atacarem posições bem defendidas [bem assim] a conjugação de terra, pá e arame farpado [permitindo] aos defensores criar fortes obstáculos, a partir dos quais podiam distribuir um campo de fogo mais devastador perante os seus atacantes [não havendo nada] ao longo da linha do horizonte que mostre donde surgiram os projéteis que trouxeram a morte” (MacMillan, 20124: 369).

E prosseguia, dizendo que o atacante iria precisar de ter uma vantagem de, pelo menos, oito a um para transpor a linha de fogo. “As batalhas provocariam baixas massivas, «a uma escala de tal modo terrível que tornaria impossível arranjar soldados para travar a batalha até um ponto decisivo»” (MacMillan, 2014: 369). E Margaret MacMillan continua com o raciocínio de Bloch dizendo que, “«na verdade, nas guerras do futuro, seria impossível que alguma vez pudesse haver uma vitória clara. E, embora o campo da batalha fosse um campo de morte, as privações, na retaguarda, conduziriam à agitação e, em última instância, à revolução. A guerra [...] seria «uma catástrofe que destruiria todas as instituições políticas existentes» ” (MacMillan, 2014: 369).

Convenhamos que este autor foi uma das poucas vozes a alertar os dirigentes políticos, os militares (que, pelos vistos, não o levaram muito a sério) e a opinião pública, de uma forma espantosamente lúcida e premonitória.

2.2. - Norman Angell (A Grande Ilusão)

 

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Era um jornalista que, em 1909, publicou no Continental Daily Mail, em Paris, um panfleto Europe’s Optical Illusion, e que, ao longo de edições subsequentes, se tornou numa obra com a designação A grande Ilusão.

Contrapunha-se à ideia generalizada de que a guerra compensava. Afirmava que “num mundo economicamente interdependente do século XX, até mesmo as nações poderosas precisavam de parceiros comerciais e de um mundo estável e próspero onde pudessem encontrar mercados, recursos e locais de investimento. Saquear inimigos derrotados e reduzi-los à miséria só prejudicaria os vencedores [...] Nas últimas décadas, sempre que houvera tensões internacionais que ameaçavam degenerar em guerra, os negócios tinham sofrido e consequentemente os financeiros, tanto em Londres como em Nova Iorque, Viena ou Paris [tinham-se] juntado para por termo à crise «não por uma questão de altruísmo, mas por uma questão de autoproteção comercial». No entanto, a maioria dos europeus continuava a acreditar, perigosamente [...] que, por vezes, a guerra era necessária. No continente, havia estados a reforçar as suas forças armadas e a Grã-Bretanha e a Alemanha estavam envolvidos numa competição naval. Os europeus deveriam pensar que as suas poderosas forças armadas eram apenas para fins defensivos mas o efeito global do militarismo e da corrida aos armamentos era tornar mais provável a guerra. Os dirigentes políticos da Europa deveriam ver isso e, por outro lado, também eles, a grande ilusão” (MacMillan, 20124: 370-371).

E MacMillan arremata dizendo que dado o estado de grande nervosismo em que a Europa se encontrava nesse momento, o sentido de oportunidade de Norman Angell foi excelente e a receção da sua ideia foi encorajadora para os defensores da paz. Mas era uma das poucas vozes «pregando no deserto»!...

2.3.- Bertha von Suttner

 

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Secretária do rico industrial sueco Alfred Nobel foi uma grande publicista e uma excelente representante de grupos de pressão a favor da paz. Fundou a Sociedade Austríaca dos Amigos da Paz; foi ativa no Comité de Amizade Anglo-germânico; editou um jornal; escreveu cartas, petições, artigos, livros e romances, alertando o público para os perigos do militarismo, os custos humanos da guerra e os meios por que devia ser evitada. Enfim, foi uma autêntica lutadora, mantendo, ao longo da sua vida, uma permanente cruzada contra a guerra. Alfred Nobel, diz-se, que um dia teria desabafado com a sua antiga secretária nestes moldes: ”«Gostaria de poder produzir uma substância ou máquina com uma eficácia de tal modo terrível, em termos de devastação total, que as guerras se tornassem, por isso mesmo, completamente impossíveis». Quando morreu, em 1896, deixou parte da sua considerável fortuna para financiar um prémio para a paz” (MacMillan, 2014: 365-366).

2.4.- Movimentos a favor da paz

 

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Nas últimas décadas do século XIX, e na primeira do século XX, na Europa e na América do Norte, desenvolveram-se organizações a favor da paz, contra a corrida aos armamentos e o militarismo, fundamentalmente com o apoio das classes médias.

Em 1891, em Berna, é criado o International Peace Bureau, que ainda hoje existe.

As preocupações fundamentais destes movimentos centravam-se em questões como a arbitragem de conflitos e o desarmamento.

É por esta altura que começam a aparecer as palavras pacifista, pacifismo ou até pacificismo. Era um emaranhado de opiniões que iam desde a hostilidade à guerra, em todas as circunstâncias, às tentativas de a delimitar ou evitar.

O militarismo, a corrida aos armamentos e uma política externa agressiva eram todos eles vistos como males relacionados que tinham de ser resolvidos para que houvesse paz duradoura.

Registe-se que, apesar de toda a proliferação de sentimentos pacifistas, também havia um amplo e, muitas vezes, amargo desacordo quanto à construção de um mundo pacífico.

Uma questão relativamente à qual os movimentos pacifistas estavam de acordo, antes de 1914, mostrando algum progresso, era a arbitragem, mais do que o desarmamento.

Mas muitos pacifistas preferiam mais concentrarem-se no desarmamento ou, pelo menos, na questão da limitação das armas. Debalde todas estas tentativas! Os representantes dos diferentes governos «passeavam-se» por todos estes fóruns, uns, de uma forma cínica; outros, para a «fotografia», fazendo figuras de decoro na «cena».

Das diferentes Conferências e Convenções, particularmente na Convenção para a Solução Pacífica dos Conflitos Internacionais, há a registar a criação de um Tribunal Permanente de Arbitragem, sediado em Haia, que, embora tivesse vindo a resolver uma dezena de casos antes da guerra, foi de uma fraca eficácia. Tal como hoje sucede, dependia da boa disposição dos governos para lhe apresentar as questões!...

2.5.- II Internacional Socialista

 

Os governos fizeram pouco, até 1914, para promover a causa da paz.

Havia uma esperança, que residia na II Internacional, uma organização fundada em 1889 para juntar os operários de todo o mundo e os seus partidos socialistas. A I Internacional, fundada pelo próprio Karl Marx, em 1864, desmoronou-se doze anos depois devido a diferenças doutrinárias. A II Internacional era unida por um inimigo partilhado - o capitalismo -, e por uma ideologia fortemente influenciada por Marx e Fiedrich Engels.

A estratégia mais prevalecente no seio da II Internacional era que o uso das urnas de voto, a lei e a cooperação com outros partidos políticos, quando os seus interesses coincidiam, era a mais acertada, ao contrário da revolução sangrenta.

Um dos grandes defensores da paz, contra o militarismo e a guerra, foi o socialista francês, Jean Jaurès, que, no Congresso da II Internacional, em 1904, saiu derrotado. Venceram os nacionalismos contra o lutador internacional anti-belicista.

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O que verdadeiramente neste período «desuniu» a II Internacional não foi a doutrina ou a estratégia ou a tática. A fraqueza fundamental da II Internacional Socialista foi o nacionalismo. É esta a opinião de Marc Ferro quando contraria a posição de que o espírito internacionalista tinha entrado em crise e que os socialistas não conseguiram impedir a guerra, traindo os seus juramentos, impressionando, por tal facto, os seus concidadãos. Justificando os vencedores naquele congresso diz que, naquela época, cada cidadão “estava persuadido do contrário; ao responder ao apelo do seu país, estava a cumprir o dever de patriota e de revolucionário” (Ferro, 2008: 21). Lutava-se por uma guerra justa, inelutável, libertadora.

A parir desta sua derrota, Jean Jaurès “começou a ficar cada vez mais preocupado com a deterioração da situação internacional e dedicou grande parte das suas energias à causa da paz. Havia muito que apoiava a arbitragem e o desarmamento, mas agora estudava a própria guerra [levando] a cabo um estudo sério, lendo teoria militar e história da guerra e trabalhando com um jovem capitão do exército francês, Henry Gérard. Numa noite em que os dois homens estavam sentados num café em Paris, Jaurès descreveu como seria uma guerra futura: «O fogo de artilharia e as bombas; as nações inteiras dizimadas; milhões de soldados espalhados pela lama e o sangue; milhões de cadáveres [...]». Durante uma batalha na frente ocidental, alguns anos depois, um amigo perguntou a Gérard por que razão estava a olhar fixamente para o espaço. «Sinto como se tudo isto me fosse familiar», respondeu Gérard. «Juarès profetizou este inferno, esta aniquilação total»” (MacMillan, 2014: 390).

Ironicamente, Jean Juarès, um pacifista que pretendia, pela diplomacia, evitar a guerra entre os estados, foi assassinado, a 31 de julho de 1914, num café de Paris, às mãos de Raoul Villain, um jovem nacionalista francês que desejava a guerra contra a Alemanha!...

03
Mai15

Poesia e Fotografia 75

 

 

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POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MEDO

 

Ai a vida sem ti!...

Ai o sol a cair

Sem o mar a sentir

Que é puro fogo que recebe em si!...

 

Ai certas horas sem a tua mão

Leve e segura sobre o meu cabelo!...

Ai o calvário do meu coração

Sem os teus dedos no meu pulso a vê-lo!...

 

Ai a triste negrura

Do deserto do fim

Sem o teu vulto junto à sepultura

A lembrar-se de mim!...

 

Coimbra, 8 de Abril de 1943

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02
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 11

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

III

PENSANDO NA GUERRA, ELABORANDO PLANOS

 

 

Tudo o que temos agora é a guerra do povo

e qualquer governo prudente hesitará

em provocar uma guerra desta natureza

com todas as suas consequências incalculáveis.

 

1890, Helmuth von Moltke, O Velho,

in: Föster, «Facing People’s War», pp. 223-224,

(citado por MacMillan, 2014: 348)

 

Como anseio pela Grande Guerra!

Varrerá a Europa como uma vassoura,

fará saltar as coisas como grãos

de café a torrar.

 

Hilaire Belooc, in Stromberg,

“The Intelectual and the Coming War in 1914”,

Journal of European Studies, Vol. 3, nº 2, 1972, pág. 109

 

Assim como a ética do calvinismo tinha produzido o capitalismo,

a ética da nobreza tinha produzido o prussianismo.

 

(Venner, 2009: 52)

 

 

1.- O «lastro facilitador» da mentalidade e ofensiva militarista e nacionalista

     (Mudança social, novas ideias, medos e tensões)

 

Quando olhamos para a sociedade dos finais do século XIX e inícios do século XX, é por demais notório, que um novo mundo se tinha formado, com uma fé incontida no progresso, mercê dos avanços científicos e tecnológicos.

Simultaneamente, teremos de reconhecer, também, a persistência e a força das mais antigas formas de pensar e ser.

Se bem que, principalmente no mundo urbano, palpitava uma nova e exuberante sociedade, aberta, dinâmica, mais laica, e empreendedora (mas nem tudo parecia um mar de rosas), milhões de europeus, contudo, viviam em comunidades rurais, reproduzindo a mesma forma de viver dos seus antepassados. “A hierarquia e conhecimento do lugar que cada um tinha nela, o respeito pela autoridade, a crença em Deus ainda moldavam o modo como os europeus percorriam suas vidas. Na verdade, sem a persistência de tais valores, é difícil imaginar como é que tantos europeus podem ter marchado deliberadamente para a guerra em 1914” (Mac Millan, 2014: 320).

Apesar da existência de jornais e de outros meios de comunicação nascentes, não existia, de uma forma generalizada, uma opinião pública suficientemente forte, capaz de debater, em profundidade e serenidade, os grandes problemas com que a sociedade dos finais do século XIX se confrontava.

Não admira que as decisões - encaminhando a Europa para a Grande Guerra - tenham sido tomadas por um surpreendente pequeno número de pessoas, fundamentalmente oriundos das classes mais elevadas da sociedade, “tanto da aristocracia fundiária como da plutocracia urbana” (MacMillan, 2014: 320).

E as decisões que esses líderes tomaram - tanto civis como militares - refletem não só o seu mundo, as suas esperanças, como também os seus medos e angústias, porque inquietos relativamente a uma sociedade perante a qual não estavam habituados a lidar, resultante da industrialização, das revoluções científicas e tecnológicas, de novas ideias, atitudes e valores, que punham constantemente em causa a sociedade em que nasceram e foram criados. Porventura reside aqui a chave para a compreensão de uma Europa que se entendia como forte e poderosa mas cuja «agitação», muitas vezes, não souberam controlar.

Medos (e angústias) que agitaram, por todo o lado, a sociedade. Não só pelo fascínio da irrupção do irracional, das emoções e do sobrenatural, mas também de novas e contraditórias mundivisões. Veja-se, a propósito, a influência que, de um modo especial, as ideias de Friedrich Nietzche

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e Henri Bergson

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tiveram na opinião pública, em especial junto da geração mais jovem.

Não espanta, neste contexto, que a sociedade antes de 1914, fosse agitada, irrompendo nela os movimentos mais contraditórios, desde a fé no progresso e na paz duradoura até aos nacionalismos e ao recrudescimento do terrorismo, que apregoava a sociedade ocidental com corrupta e decadente e que deveria ser atirada ao lixo, para o caixote da História.

Não raro se ouviam vozes dizendo que “os homens [...] estavam a ficar mais fracos, e até efeminados, [e que] no mundo moderno os valores masculinos e a força já não eram valorizados. [...] A prosperidade e o progresso estavam, temia-se, a infligir danos à espécie humana e a tornar os jovens menos aptos para a guerra” (MacMillan, 2014: 334). Dai, temas com a homossexualidade, a ascendência das mulheres na sociedade, a virilidade e o decréscimo da fertilidade, preocupando o futuro da sociedade europeia, eram tratados recorrentemente.

O aparecimento da obra de Oswald Spengler (O Declínio do Ocidente)

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 e as ideias de Herbert Spencer

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criaram terreno fácil para a expansão do darwinismo social. Embora, como muito bem diz Margaret MacMillan, o darwinismo social “não [tivesse] qualquer base científica [reforçava, contudo,] as teorias racistas”. [Os darwinistas sociais] “presumiam em geral que os seres humanos não eram uma única espécie mas uma variedade delas a que, confusa e alternadamente, chamavam «raças» ou «nações». A confusão tornava-se ainda maior devido ao facto de nem ser claro se estava a ser descrito um tipo de pessoas ou uma unidade política, como um estado. Outra dificuldade residia em determinar que nações estavam a ascender na escala da evolução e quais as condenadas à extinção” (MacMillan, 2014: 337-338).

Este darwinismo social, identificando características culturais (como língua ou a religião) com aspetos biológicos (cor da pele e traços fisionómicos) deu um forte impulso, melhor, reforçou, as diferentes correntes nacionalistas.

Como era de esperar, continua Margaret MacMillan “o darwinismo social encontrava eco junto dos militares, porque parecia justificar e, na verdade, aumentar a importância da sua profissão, mas também influenciava o pensamento dos civis, fossem eles escritores, como Zola, líderes políticos, como Salisbury, ou empresários, como Rathenau” (MacMillan, 2014: 338).

Destas posições, até ao aparecimento de uma forte mentalidade e atitude militarista, poucos passos faltavam dar. A posição do general austríaco Conrad - cuja atuação foi tão decisiva no eclodir da Grande Guerra -, citado por Margaret MacMillan, é particularmente significativa, quando afirma que “«um povo que depõe as armas sela o seu destino»” (MacMillan, 2014: 338).

Nesta linha de pensamento, não é de estranhar a ideia expressa, há muito por Hobbes, (entre outros), e entretanto muito em voga, quando afirmava que as relações internacionais não eram mais do que um interminável jogo de intrigas entre nações para obterem maiores vantagens; e, para esse fim ou luta, a guerra era bem esperada, e até bem-vinda.

O nacionalismo era encarado como unanimidade patriótica. “Para os combatentes franceses, ingleses ou alemães, não havia equívocos: a guerra tinha como objetivo a salvaguarda dos interesses reais da nação” (Ferro, 2008: 20). Ferro afirma que “na Europa, cada nação tinha, assim, o sentimento de ser vítima de catástrofes e de estar rodeada de inimigos que lhe invejavam a prosperidade, o desenvolvimento e mesmo a existência. [...] O sentido patriótico tornava-se uma das formas da reação coletiva da sociedade face aos fenómenos originados pela unificação económica do mundo” (Ferro, 2008: 24). Noutro passo, afirma que “é um facto que o conflito global das duas coligações teve a sua origem nas rivalidades imperialistas, mas os combates singulares que opuseram as nações uma por uma respondiam a uma outra necessidade, a uma tradição enraizada no mais fundo da consciência dos povos. Cada um deles pressentia que estava ameaçado na sua própria existência pelo inimigo hereditário. Para todos, o conflito obedecia assim a uma espécie de rito fatal, o que explica o carácter de luta, de «vida de morte», um aspeto que a natureza imperialista desta guerra não explicaria” (Ferro, 2008: 24). Positivamente, segundo este autor, in ob. cit., “para o francês, ou alemão, 1914-1918, foi um combate de bravos, tão claro e evidente como as cruzadas, a defesa da mãe, o combate pela fé ou a luta de classes. Nenhum raciocínio podia dominar este instinto coletivo” (Ferro, 2008: 24). O revanchismo francês, o pan-eslavismo russo ou o nacionalismo jugoslavo, propugnado pela sérvia, eram apenas algumas das manifestações, embora não exclusivas destes países.

Nacionalismo que dava cada vez mais protagonismo ao militarismo. Militarismo posto no pináculo da sociedade. E que leva, de uma forma cada vez mais acentuada, a uma acentuada postura militarista, entre estados e nações, bem assim das suas forças armadas - impondo o sentido da honra, dos valores militares, como a disciplina, a ordem, o autossacrifício e a obediência -, subalternizando os poderes da sociedade civil, criando um «caldo» verdadeiramente explosivo.

A dada altura, Margaret MacMillan, afirma “mestres escolas, escritores, generais ou políticos [preparam] psicologicamente uma geração para a Grande Guerra, [inculcando nesses jovens e cidadãos, desde tenra idade], valores militares como parte de uma tentativa de contrariar os efeitos prejudiciais do mundo moderno e deter o declínio da nação” (MacMillan, 20124: 352).

Mas, como diz Marc Ferro, ainda que a escola “ensine o futuro da ciência e a fé no progresso, a massa dos cidadãos do século XX não participa nos assuntos públicos. A democratização das instituições, durante os decénios precedentes, não foi mais que uma ilusão e as reformas quase nada mudaram” (Ferro, 2008: 16). Pese embora o aumento da escolaridade, em particular nos centros urbanos, os novos jornais, destinados às massas, os romances e a literatura de cordel outra coisa não mostravam ou faziam sonhar, às classes médias e baixas, entediadas e com vidas desinteressantes, senão outros mundos, alternativos, arrebatadores e excitantes. A construção da cidadania estava ausente.

Na opinião de Marc Ferro, estamos perante uma sociedade bloqueada em que para além de “crer, de beber, de jogar às cartas ou de ler crónicas [...] só restava uma dupla saída: a fuga ou a revolta ou, se preferirmos, a revolução ou a emigração” (2008: 17). A guerra, nesta sociedade sem saídas, representava também uma escapatória, uma libertação. Os jovens que inicialmente partiram para a guerra iam “felizes por mudar de vida, por viajarem, tendo todos respondido ao apelo do dever e estando todos convencidos de que irão voltar em breve, coroados com os louros da vitória” (Ferro, 2008: 21).

Apenas uns poucos - e estes em vão, com pouca ou nenhuma eficácia -, como de seguida se verá, previam as suas consequências.

Infelizmente, no tempo por que se passava, pouco ou nada se sabia, em termos de grande opinião pública, sobre o que a nova guerra seria.

Estamos, assim, de acordo com Margaret MacMillan e Marc Ferro, quando põem em causa, por cabal falta de provas, que tenham sido somente as rivalidades económicas que levaram ao eclodir da Grande Guerra. A História e a Sociedade devem ser vistas numa perspetiva holística...

 

02
Mai15

Poesia e Fotografia 74

POESIA E FOTOGRAFIA

 

 

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

VOZ

 

Era o céu que sorria nos seus olhos,

Eram junquilhos trémulos aos molhos,

As flores do rosto que eu beijava.

Fresca e gratuita como um hino à lua,

Nua,

Era um mundo de paz que se entregava.

 

Oh! perfume da Vida! - gritei eu.

Oh! seara de trigo por abrir,

Quem te fez todo o pão da minha fome?

 

Mas os seus braços, longos e contentes,

Só responderam, quentes:

- Come.

 

Coimbra, 6 de Abril de 1943

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01
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 10

 

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

II

A CORRIDA ÀS ALIANÇAS E OS FATORES DE PERTURBAÇÃO DO SUL DA EUROPA

 

4.- Outros fatores de perturbação no sul da Europa

4.1.- A questão da Itália

A Itália, depois de assinar a aliança com os Poderes Centrais (Alemanha e Áustria-Hungria), pensando-os mais fortes, ao ver a aproximação da França ao Reino Unido, hesita, fazendo uma política dupla. Formalmente apoia os Poderes Centrais, contudo, a sua diplomacia secreta garante à França que manterá a neutralidade, caso sobrevenha a guerra.

4.2.- O Império Otomano

Desde há muitos anos que vinha evidenciando uma enorme fraqueza, estando-se a desfazer. No Norte de África, os Otomanos perderam a Argélia para a França; o Egito para o Reino Unido; a Líbia para a Itália; Marrocos para a França e Espanha. No desfazer deste império, havia muitas ambições, de vizinhos e grandes poderes, de um modo especial quando começou a sentir-se a importância estratégica do petróleo para as economias, que não existia na Europa e abundante no Médio Oriente. A rivalidade quanto à partilha do Império Otomano provinha principalmente da Rússia, Alemanha, Reino Unido e França, os quatro maiores poderes europeus.

4.3.- Os Balcãs

O seu imenso mosaico de etnias; as mais recentes independências e estados, não coincidindo com as nações, eram ingredientes de um «caldo» imenso prestes, a qualquer momento, a abrir uma violenta fenda.

4.4.- A eclosão de movimentos nacionalistas

Em primeira mão, França e Alemanha.

Depois, quer no Império Otomano, quer na Áustria-Hungria (que não tinha uma forte identidade que servisse de contrapeso e em redor da qual os seus cidadãos pudessem reunir-se, uma vez que não era tanto um país mas um grupo de propriedades adquiridas pelos Habsburgo, ao longo do último milénio, mediante hábeis manobras, casamentos e guerras) ou na Rússia, em que a todo o momento eclodiam movimentos nacionalistas. Não se havia consolidado o sentido de nação. Dai o fomento de atividades terroristas, levando a cabo atentados bombistas, eram uma constante. Viena acusava a Sérvia de fomentar estas atividades, só que o grande problema era que a Sérvia tinha apoio da Rússia que, por sua vez, opunha-se a qualquer ação militar de Viena. Era a tão apregoada proteção russa dos irmãos eslavos do sul...

4.5.- Os efeitos da corrida naval no sul da Europa

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Face ao perigo que a Alemanha poderia representar com a sua esquadra naval, em tempo de guerra, Inglaterra e França chegaram ao seguinte acordo: A Inglaterra concentrava a sua marinha no Mar do Norte para conter a Alemanha; a França ficava responsável pela situação naval no Mediterrâneo. A marinha francesa tinha, em 1914, 703 mil toneladas (números que segundo António José Telo, in ob. cit., correspondem a unidades de combate), significando que, sozinha, poderia derrotar a Áustria (277 toneladas) e a Turquia (61 mil toneladas), caso se juntassem à Alemanha. Simplesmente, ainda segundo este mesmo autor, a Itália tinha 517 mil toneladas e a Espanha 88 mil. Ora, se as quatro se unissem contra a França, os Poderes Centrais teriam no Mediterrâneo 943 mil toneladas, contra as 703 mil da França - o que seria desastroso para os Aliados. Assim, a estratégia era impedir a Itália e a Espanha de alinharem com os Poderes Centrais, negociando com estas um conjunto de concessões. No caso de Espanha, as concessões passaram pela cedência de uma zona de Marrocos e pela condescendência em relação às suas ambições para Portugal.

O Mediterrâneo era uma zona muito sensível para a grande estratégia dos Aliados em caso de guerra. A situação foi tensa enquanto a Itália não definiu a sua posição. E, por isso mesmo, a neutralidade da Espanha era muito importante - particularmente para a Grã-Bretanha -, estando, ainda segundo A. J. Telo “Londres e Paris dispostos a todas as concessões para o conseguir” (Telo, n.d.: 24), residindo aqui, ainda segundo este autor a recusa por parte da aliada Inglaterra da “beligerância portuguesa na fase inicial da guerra: não quer fazer nada que possa levar a Espanha ou a Itália a alinhar com os Poderes Centrais” (Telo, n.d.: 24).

Em 1915, a Itália entra na guerra ao lado dos Aliados, contando estes no Mediterrâneo com 1 220 mil toneladas de navios de guerra para as marinhas da França e da Itália, contra as escassas 338 mil para as marinhas da Áustria e da Turquia. A partir deste momento, a posição da Espanha passa a ter menor importância.

Quando, na Segunda Parte deste trabalho, falarmos da questão da problemática da beligerância portuguesa neste conflito, esta questão será um pouco mais desenvolvida, abordando o jogo da diplomacia entre Londres e Lisboa, nos anos de 1914-1915.

Em suma, para além do seu caráter imperialista, a lógica das alianças “estava ligada ao desigual desenvolvimento das nações, à rivalidade que deriva desse facto [...] Outras nações industriais nasceram, conseguiram crescer e, depois, prosperar, não se deixando dominar pela Inglaterra. Em primeiro lugar, foi a França e depois a Bélgica, que partiram logo a seguir na corrida para a industrialização; depois foram os Estados Unidos, a Rússia e o Japão; por fim, e principalmente, a Alemanha” (Ferro, 2008: 37). Com uma força económica extremamente competitiva, concentrada num território demasiado pequeno, querendo crescer e expandir-se, encontrou rivais que lhe obstaram o caminho, na satisfação das necessidades extraordinárias de um corpo em pleno crescimento.

Tentámos expor o «magma» em que assentava o movimento das placas (instáveis) - poderes imperiais - na Europa.

E, neste jogo de alianças e de preparação para a guerra, a corrida naval e aos armamentos estava na ordem do dia, pese embora o movimento anti belicista.

Assim, qualquer fissura, por mais pequena que fosse, e, ao mais ligeiro descuido, poderia transformar-se num terramoto cujo epicentro criaria ondas de choque imprevisíveis, dificilmente controláveis.

Embora ainda naquela altura não existissem, devidamente estruturados, «observatórios sismológicos» para antecipar fenómenos, prevenir ou minorar as catástrofes, havia, contudo, já planos. Não para por fim ou minorar as ondas de choque, mas infelizmente para as por em marcha.

Vejamos, antes do «apagar das luzes», que Sarajevo representou, quais eram esses planos, começando pelo «ambiente» que presidiu à sua respetiva elaboração.

01
Mai15

Poesia e Fotografia 73

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DIA

 

Amanhece.

O poeta de penas já cantou.

Já nos seus altos versos adormece

O fantasma da noite que passou.

 

Como um halo de sonho acontecido,

A luz das coisas vai nascendo em nós;

Desenha-se na sombra o pressentido,

E a vida já tem gestos e tem voz.

 

Já novamente o sol doira a frescura

Da relva verde e do lençol de linho.

Outra vez há ternura

De gente a ver-se e de se ver caminho.

 

Coimbra, 29 de Março de 1943

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