Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

26
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 33

 

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

 

2.4.3.6.- 2º semestre de 1917 - As batalhas

(junho a dezembro de 1917)

a).- A Batalha de Messines

 

Enquanto o moral das tropas francesas se recompunha, coube à FEB a «despesa» de aguentar ofensivamente a Frente Ocidental Aliada. Douglas Haig desejava reduzir o saliente do dispositivo inimigo, a sul de Ypres, conquistando a crista de Messines. Coube ao general do 2º exército da FEB - general sir Herbert Plumer - executar esta operação. E este general utilizou aqui uma nova modalidade de ataque que, manifestamente, surpreendeu os alemães pelo seu efeito espetacular. Esta nova modalidade consistia em cavar túneis na direção das posições inimigas, a uma profundidade que chegou, em alguns pontos, a atingir os 30 metros de profundidade, prolongando-se até cerca de 50 metros da retaguarda da primeira linha alemã. Na extremidade destes túneis, os sapadores britânicos, a maioria deles mineiros, colocaram 454 toneladas de explosivos para serem detonados, simultaneamente, numa frente de cerca de 50 Km. Este trabalho foi feito com tal perícia, e tamanho segredo, que só um dos túneis construído é que foi descoberto.

Na noite de 6 para 7 de junho de 1917, a artilharia britânica lançou uma violenta preparação sobre as posições alemãs. Quando esta terminou, a maioria das minas colocadas nos túneis explodiram (cinco delas ainda permanecem naquele solo sem detonar e, uma sexta, foi detonada durante uma tempestade, em 1955), deixando os pouco sobreviventes germânicos totalmente fora de combate. Às 7 horas da manhã, Messines estava na posse dos Aliados. A operação atingiu todos os seus objetivos e as unidades britânicas, depois de instaladas, repeliram com êxito os esperados contra-ataques alemães. A operação «Batalha de Messines», ocorrida na zona da Flandres, durou uma semana. Houve 25 000 mortos confirmados e 10 000 desaparecidos. Mais de 10 000 soldados alemães morreram na explosão, a maior planeada na história militar da época, abrindo crateras enormes, que ainda hoje podem ser vistas em fazendas francesas, servindo agora de piscinas ou de reservatórios de água, e criou um terreno muito perigoso para o avanço dos britânicos, onde 7 000 soldados perderam a vida.

a.1.).- Retalho de memória deste período da batalha

Uma semana depois, restabeleceu-se o equilíbrio na linha da frente. Nesse mês de junho, T. S. Eliot enviou à revista Nation uma carta que recebera de um oficial que tinha estado na Frente deste antes do seu décimo nono aniversário. O oficial estava zangado com o que considerava ser uma falta de compreensão, no seu país, das condições da Frente, “«terra leprosa, semeada de corpos inchados e enegrecidos de centenas de jovens. E o pavoroso cheiro a carne putrefacta (...] Lama como papas de farinha, trincheiras com gretas estreitas e inclinadas nas papas - papas que cheiram pessimamente ao sol. Enxames de moscas e moscardos pousados em montes de matéria decomposta. Homens feridos nas crateras de projéteis por entre corpos em decomposição; indefesos sob um sol abrasador e nas noites amargas, sob bombardeamentos permanentes. Homens com as tripas de fora, pulmões desfeitos, rostos enegrecidos, esfacelados, ou membros a voar pelo ar. Homens a gritar e a gemer. Homens feridos pendurados em agonia no arame farpado, até que o caridoso jorro do fogo líquido os façam murchar como uma mosca numa vela». «Mas isto são apenas palavras», concluía o oficial, «e provavelmente transmitem a quem as ouve apenas uma fração do seu significado. Estremecem, e esquecem-nas»” Gilbert, 2007: 503-504).

Mapa 7.jpg

b).- A 3ª Batalha de Ypres (ou de Passchendeale)

Do êxito de Messines, de um objetivo limitado, mas pleno de sucesso, poderia Douglas Haig ter retirado exemplo para o futuro. Mas assim não aconteceu, pese embora as observações de Lloyd George ao considerar que se tinha atingido um número de baixas demasiado elevado, em perdas humanas, sem significado minimamente significativo em termos de resultados no terreno. Haig insistiu na penetração do dispositivo alemão no setor de Ypres, com um duplo objetivo: numa primeira fase, a conquista das cristas situadas a este de Ypres; depois, a FEB infletiria para norte para conquistar os portos belgas do Canal da Mancha, onde se abrigavam os submarinos alemães. Llyod George, receoso do sucesso, não encontrou argumentos para contrapor aos militares, face à importância do objetivo a atingir, procurando dar um rude golpe à guerra submarina alemã.

A ofensiva foi planeada para o verão. O plano de operações era o seguinte: ao 5º exército, do general Gough, competia-lhe a realização do ataque principal; ao 1º exército, do francês Antoine, a esquerda de apoio; ao 2º exército, do general britânico Plumer, a direita de apoio; meios aéreos, britânicos e franceses, assegurariam o domínio do espaço aéreo, evitando e impedindo a observação e a regulação do fogo alemão; esperando-se a ausência de chuva, para não dificultar a progressão de infantaria e dos carros de combate num terreno habitualmente enlameado e pejado de crateras.

Mapa 8.jpg

A Posição da Flandres, do lado alemão, era assim que era designada, era uma das mais fortes da Frente Ocidental, porquanto se apoiava numa das poucas linhas de elevação existentes na região e dos trabalhos de organização dos terrenos meticulosamente levados a cabo. A ofensiva aliada teria de decorrer numa zona plana, sem vegetação nem edifícios de cobertura, tornando os atacantes num alvo fácil com um campo de tiro ideal para os alemães.

Quando a 31 de julho se deu início à ofensiva, o que aconteceu foi muito diferente do que o planeado. O ataque, com início às 3 horas e 50 minutos, após uma preparação de artilharia, durante a qual foram disparadas 4 milhões de granadas, um número quatro vezes superior ao do Somme, obteve bons resultados - os alemães recuaram entre 5 a 10 Km, relativamente à linha da frente. Com poucas tropas alemãs nas trincheiras avançadas, o escalão de ataque dos Aliados não deparou com obstáculos significativos para percorrer os 2-3 Km iniciais. Mas, depois, começaram as complicações: as ligações telefónicas com a artilharia foram interrompidas; o mesmo sucedeu às que asseguravam o fluxo de informações para os postos de comando dos diferentes escalões; ao início da tarde, uma intensa chuva de granadas da artilharia alemã abateu-se sobre as unidades em progressão atacante, obrigando-as a recuar; e, como se esta chuva de projéteis não bastasse, uma forte chuvada caiu sobre o campo de batalha, transformando o solo num mar de lama, dificultando a progressão da infantaria e dos carros de combate. Face ao embaraço da chuva, não muito esperada neste período do ano, Douglas Haig manda suspender o ataque e consolidar as posições conquistadas. E insistiu, junto do Gabinete de Guerra britânico, para prosseguir a ofensiva, logo que aliviasse o tempo. Mas a chuva não parou de cair nas duas primeiras semanas de agosto. A 16, com a melhoria do tempo, o 5º exército lança-se na direção da linha Gheluvelt-Langemarck, com pesadas baixas. Diminuindo o ânimo da força atacante, do 5º exército, Haig, a 24, transfere a missão do ataque principal para o 2º exército, de Plumer. Mas Plumer entendeu ser oportuno algum tempo de preparação para o novo ataque e prosseguindo objetivos menos ambiciosos daqueles que Haig pretendia.

A 20 de setembro, a ofensiva continua. Agora imperava uma tática mais cautelosa: os primeiros avanços eram obtidos a partir de curtos lanços, de aproximadamente 1 500 metros, sempre acompanhados do apoio de artilharia. Tinha-se, finalmente, aprendido alguma coisa com este método. E, usando esta tática, todo o planalto de Gheluvelt foi conquistado e os alemães ficaram sem observação direta sobre o terreno imediatamente a este de Ypres.

O último assalto à colina de Passchendeale foi levado a cabo por tropas do corpo canadiano, a 6 de novembro.

No balanço final da 3ª Batalha de Ypres (ou de Passchendeale), eis o preço da iniciativa: 300 000 perdas britânicas; 8 500 francesas; 260 000 alemãs, entre mortos, feridos e desaparecidos, muitos deles submersos nas crateras do campo de batalha. David Martelo diz que as perdas sofridas pelos britânicos “adquiriram, agora, uma gravidade acrescida porque se haviam esgotado os voluntários de 1914 [da campanha de Kitchener] e, apesar de o governo ter decretado a conscrição, a qualidade física dos novos recrutas era claramente inferior aos padrões até então praticados” (Afonso; Gomes, 2013: 299).

Britânicos e franceses lutavam com um mesmo problema - o manter o mesmo número de divisões. Para a obtenção deste desiderato, o recurso foi reduzir os seus quadros orgânicos de 12 para 9 batalhões.

Do lado alemão, a situação não era assim tão grave, de momento. Estabelecida a paz com o novo regime dos sovietes, poder-se-ia agora contar com mais 50 divisões provenientes da Frente Oriental. Mas eram as únicas reservas a injetar nas trincheiras da Frente Ocidental.

c).- A Batalha de Cambrai

No outono de 1917, o brigadeiro H. Elles, comandante do Corpo de Carros de Combate da FEB, tendo intacto o seu grosso de carros de combate, aspirava o emprego destes veículos em massa compacta, em vez de os dispersar pelas unidades de infantaria (nova tática, portanto). Não sendo o solo lamacento da Flandres propício a esta ação, o brigadeiro H. Elles persuadiu o comandante do 3º exército, Byng, para, em frente a Cambrai, efetuar uma operação compacta destes carros. Byng, por sua vez, convence Haig das potencialidades desta nova tática e operação. Haig aprovou-a.

Na madrugada de 20 de novembro de 1917, 324 carros de combate, juntamente com o 3º exército, após uma preparação de artilharia, usando novo método de registo, que prescindia dos habituais fogos de regulação, apanhou os alemães desprevenidos. Neste contexto, dá-se início à ofensiva. O ataque britânico progride 6Km rapidamente, mercê da pouca guarnição das primeiras linhas alemãs, cujo padrão já era habitual. Os carros de combate iam à frente; a infantaria logo a seguir, a 150 metros. Embora houvesse alguma destruição de carros de combate, por manifesta descoordenação com a infantaria, no final do primeiro dia de operações, os britânicos não podiam estar mais felizes por este sucesso. Pensava-se que, agora, com estes meios, a guerra estaria ganha para os Aliados e o célebre KO de Llyod George seria aplicado, finalmente, aos alemães. O entusiamo foi tanto que até os sinos em Londres começaram a repicar.

Mas o uso dos carros de combate e as suas técnicas ainda não estavam suficientemente maduras para o sucesso que, mais tarde, se obteve deles. E os alemães, demonstrando uma enorme capacidade para manobrar as suas reservas, iniciaram um movimento de contra-ataque que, em poucos dias, recuperaram parte do terreno perdido.

O saldo desta operação, de ambos os lados, seguia o padrão do costume - 45 000 mortos.

d).- Outras operações das tropas francesas

Começando a voltar à normalidade o moral das tropas francesas, durante o último trimestre de 1917, os franceses conseguiram operações limitadas, com sucesso, recuperando todas as posições perdidas por ocasião da ofensiva de fevereiro de 1916 (Verdun).

Em outubro, na região de Aine, também empurraram os alemães para norte do rio Ailette, atingindo o objetivo que se propunham alcançar na ofensiva de abril.

26
Mai15

Poesia e Fotografia 95

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MARÃO

 

Serra, seio de pedra

Onde mamei a infância.

Amor de mãe, que medra

Quando medra a distância.

 

Dura severidade

Tapetada de acenos

Às ilusões da idade

E aos deslises pequenos.

 

Velha raiz segura

À universal certeza

De um gesto de ternura

E um pouco de beleza.

  

S. Martinho de Anta, 23 de Maio de 1944

5081886350_1d91d26b68_b.jpg

21
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 32

 

 

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

2.4.3.3.- As ofensivas e a miragem das operações de rutura

(Janeiro a maio de 1917)

 

A frente ocupada pela FEB alongou-se 35 Km para sul do Somme, em resultado da substituição dos franceses no setor compreendido entre Péronne e Roye.

“O esforço de manobra acordado, em novembro de 1916, na reunião de Chantilly - esforço na região do Somme e penetração do dispositivo alemão, junto à costa, para capturar os postos belgas - não obteve a anuência do general Nivelle (Afonso; Gomes, 2013: 282), argumentando que o setor do Somme ficara transformado num complexo de escombros e crateras, depois das batalhas de 1916. Qualquer esforço de rutura nesse setor não teria qualquer êxito pela dificuldade de progressão. A escolha de Nivelle foi no sentido de se voltar a uma opção análoga a 1915, atacando nas alas do saliente. Assim, “a FEB atacaria no noroeste, na região de Arras e Vimy, e o exército francês faria outro tanto no setor sul do Aisne, na região do Chemin des Dames” (Afonso; Gomes, 2013: 282), um terreno muito acidentado e arborizado, impróprio para a infantaria andar depressa. Uma inabilidade, na opinião de David Martelo.

488ea4ee-74f7-11e1-be88-e1c47c730794-493x328.jpg

(General R. Nivelle)

Face a esta mudança de objetivos atacantes, o Corpo de Exércitos do general Micheler conduziria o ataque principal no setor de Chemin des Dames-Reims, enquanto a FEB executaria um ataque secundário no setor de Arras.

 

a).- Ofensiva da FEB

 

A ofensiva foi marcada para Abril de 1917. As condições meteorológicas não eram das melhores. Parecia que ainda se estava em pleno inverno, com chuva, neve e temperaturas baixas.

A FEB iniciou o seu ataque a 9 de abril. O corpo canadiano desempenhava o papel principal. A preparação de artilharia teve um efeito devastador sobre as posições alemãs, particularmente no que dizia respeito à destruição do arame farpado. Destruiu grande parte das linhas telefónicas e, deste modo, diz David Martelo, “as tropas da primeira linha alemã - que, segundo a nova doutrina da defesa em profundidade, eram em reduzido número - não puderam, com a rapidez necessária, pedir fogo de apoio e alertar as unidades de reserva para o desencadeamento de um ataque da dimensão da que estava em curso” (Afonso; Gomes, 2013: 283).

O primeiro dia de combate foi muito favorável aos britânicos pois, além de se apoderarem das alturas de Vimy, com certa facilidade, fizeram mais de 9 000 prisioneiros.

Mas foi um êxito mal aproveitado. De noite, os alemães movimentaram as suas reservas e, nos dias a seguir, a FEB foi, cada vez mais, sentindo a pressão defensiva dos alemães. Havia que fazer uma pausa e continuar a ofensiva a 23 de abril. Mas, nessa altura, as facilidades iniciais já não eram as mesmas. Depressa os alemães se recompuseram e a rutura da frente não se deu.

 

b).- Ofensiva francesa

 

No setor entre Chemin des Dames e Reims, os alemães já se encontravam informados dos preparativos franceses. Para além das 21 divisões que colocaram em primeiro escalão, possuíam mais 15 de reserva, como reforço ao contra-ataque. As suas unidades em primeiro escalão, de acordo com as novas táticas, apenas eram guarnecidas quase só por observadores com a função de vigiar a frente. Por detrás desta linha, posicionavam-se os “ninhos de metralhadoras, alguns deles em pontos fortes, capazes de permitir o prosseguimento dos fogos, mesmo se ultrapassados pela infantaria inimiga” (Afonso; Gomes, 2013: 284). A verdadeira força encontrava-se à retaguarda, com reservas bem protegidas de artilharia e prontas a contra-atacar as penetrações, se entretanto surgissem.

O ataque iniciou-se no dia 16 de abril, depois de uma longa preparação de artilharia. A partir daqui, as tropas francesas começaram a percorrer o terreno difícil, fortemente inclinado e arborizado, em direção aos seus objetivos de rutura. No início, enquanto a defesa alemã não se recompôs, parecia que o avanço era efetivo. Mas, com o avançar no terreno, foi-se dando conta que as concentrações rolantes de artilharia progrediam a uma velocidade superior à da infantaria, deixando esta a descoberto. E foi exatamente neste ponto que a eficácia dos ninhos de metralhadoras começaram a sua atividade arrasante e devastadora. Se a artilharia alemã tivesse dado conta «desta anomalia tática», o massacre seria muito maior. Conforme a infantaria francesa avançava, ia dando conta que a sua artilharia não tinha sido eficaz na destruição das redes de arame farpado. Mais uma contrariedade a superar: seria ela a fazer este trabalho, à custa, como é evidente, de pesadíssimas baixas.

Em suma, com três dias de ofensiva ou combate, eis os números da parte francesa: 130 000 baixas, das quais 29 000 mortos. A ofensiva foi um fracasso. Os ganhos de terreno não ultrapassaram mais de 7 Km. E as linhas de resistência alemãs ficaram praticamente intactas. Foi um rude golpe para o exército francês, em termos ofensivos.

 

2.4.3.4.- O moral das tropas francesas cai a pique. Revolta nas fileiras e recuperação do moral

 

É aqui que o moral das tropas francesas começa a ser preocupante. Não tendo encaixado este insucesso, o poder político substitui Nivelle por Philippe Pétain como comandante-chefe das Forças Armadas Metropolitanas, enquanto Foch subia ao cargo de chefe do Estado-Maior do Exército francês.

Muito se discutiu se este clima de revolta se deveria classificar de «motim» (indisciplina conjugada com o uso da força contra os superiores) ou por «indisciplina» (colapso da «ordem»).

Refere David Martelo: “Ora sucede que, mesmo nas unidades claramente revoltadas - como foi o caso do regimento de infantaria 74 - os soldados não hostilizavam os superiores imediatos que com eles partilhavam as agruras das primeiras linhas. A insatisfação visava bem mais alto e traduzia-se por uma firme determinação de não retornar para as trincheiras [...] e apresentaram motivações inspiradas nas lutas laborais: mais tempo de licenças, melhor alimentação, maior apoio às famílias dos soldados mobilizados, fim à injustiça e carnificina e, finalmente, a mágica palavra «paz»” (Afonso; Gomes, 2013: 285).

Positivamente, aqui chegados, a chama patriótica de 1914 extinguiu-se!

E não se cuide que era apenas da parte dos franceses. O desejo de paz foi tal que tomou a forma de tréguas, “tacitamente aceites em ambos os lados da terra-de-ninguém” (Afonso; Gomes, 2013: 285).

Não se pense que este clima de revolta se circunscrevia única e restritamente ao campo militar. De alguma forma, o que se passava no exército era o reflexo ou espelho do mau estar das outras instituições que ele representa e salvaguarda. Ou seja, a generalidade da população também já estava exausta desta guerra.

Coube ao general P. Pétain a tarefa de, na sequência mal sucedida da ofensiva de abril de 1917, repor o clima de «motim» ou «indisciplina» que se seguiu nas fileiras francesas, que atingiu quase metade das unidades nos diferentes teatros de operações a Ocidente.

Refira-se, para um mais cabal e melhor enquadramento, que, é precisamente neste momento, que as forças do Corpo Expedicionário Português (CEP) começam a chegar à Flandres.

Pétain, para além de repor a ordem nas tropas, levando-as a uma quase normalidade - o que demorou alguns meses do segundo semestre de 1917 - interrompeu as ações ofensivas com significado.

No exército alemão, entretanto, aderiu-se plenamente ao sistema de defesa em profundidade, implicando, assim, que, o volume de efetivos das trincheiras ao alcance da artilharia inimiga diminuísse substancialmente, com menor desgaste para as unidades de infantaria, o maior número em campo. Os alemães, ocupados noutras frentes, não se aperceberam desta situação, perdendo aqui uma extraordinária oportunidade de tentarem uma ação efetiva de rutura na Frente Ocidental, suscetível de mudar, nesta data, o rumo da guerra.

 

2.4.3.5.- Retalhos de memória do 1º semestre de 1917

 

Numa carta que foi publicada nos jornais ingleses, em julho de 1917, Sasson escreveu que era sua convicção “«que esta guerra, na qual entrei porque era uma guerra de defesa e de libertação, se tornara uma guerra de agressão e conquista» e prossegue: «Vi e suportei sofrimentos dos soldados, e não posso continuar a fazer parte do prolongamento desses sofrimentos, para fins que creio serem malévolos e injustos. Não protesto contra a condução da guerra, mas contra os erros políticos e a falta de sinceridade pelos quais os homens em luta estão a ser sacrificados. Em nome daqueles que sofrem, faço este protesto contra o logro que está a ser praticado sobre eles; e acredito também que posso ajudar a destruir a insensível complacência com que a maioria dos que estão em suas casas encaram a continuação da agonia que eles não compartilham, e que não têm imaginação suficiente para compreender»”. (Gilbert, 2007: 523). A 23 de julho de 1917, Sasson foi admitido no Hospital Militar Craiglockert para oficiais neurasténicos. Teve sorte, em vez de ser presente um tribunal marcial!

O soldado britânico Alfred Pollard refletia, nesta altura, sobre a raiz do seu achado de uma trincheira repleta de cadáveres. Dizia: “«Eu não era mais do que um jovem que olhava a vida com a esperança e otimismo e via a guerra como uma aventura interessante. Quando naquele dia descobri os corpos dos hunos mortos pelo fogo das nossas granadas, fui tomado pela compaixão por aqueles homens cujas vidas tinham sido ceifadas no momento do seu máximo vigor. Em contrapartida, eu era agora um homem e sabia que passariam anos antes de terminar a guerra. E olhava para uma trincheira cheia de corpos sem sentir absolutamente nada. Nem pena nem medo de também eu poder em breve estar morto; nem sequer raiva contra os homens que os tinham matado. Era apenas uma máquina que procurava cumprir o seu dever o melhor possível»” (Canal da História, 2013: 256).

21
Mai15

Poesia e Fotografia 94

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PACTO

 

Juro e assino a jura:

O nosso amor há-de florir

À tona da mais funda sepultura

Que a vida nos abrir.

 

Coimbra, 18 de Maio de 1944

04052_HD.jpg

21
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 31

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

 

2.4.3.- 1917: Continua o impasse. A tragédia continua

2.4.3.1.- Ardor da vitória, colapso do moral, incertezas e novas esperanças

 

Longe já ia o tempo em que a guerra podia ser «ligada e desligada» em função da vontade de meia dúzia de líderes. O tempo da «guerra ministerial» (Stone) tinha passado à História.

Nesta altura, os estadistas bem depressa se aperceberam que, com a conscrição de massas; as enormes perdas em mortes, feridos, prisioneiros e material de guerras, nos campos de batalha; o ódio feroz ao inimigo (mais criado pela propaganda) e a emergência de um «monstro», que nenhum poder político podia ignorar - a opinião pública - tornou-se impensável acabar a guerra com a simples assunção «de que tudo não tinha passado de um gigantesco engano».

E a tragédia agudizou-se porque, cada um dos lados, considerava inteiramente possível vencer o seu adversário.

Com as mudanças político-militares nos finais de 1916, tudo para aí apontava: era a postura claramente ofensiva de Nivelle, com novas táticas, como as suas «barragens rastejantes», por parte dos franceses; a firme determinação de Lloyd George, do lado britânico, de ganhar a guerra com um KO à Alemanha e a nova dupla Hindenburg-Ludendorff, os militares que vinham com uma enorme áurea da sua atuação na Frente Oriental, tomando conta não só da guerra mas também militarizando, mais que nunca, o país. Assim, outra coisa não se esperava senão a continuação da guerra. Inventando novas táticas, novas armas e constantes, e renovados, métodos.

Era patente, no espírito dos Altos Comandos germânicos que, continuando as coisas como estavam, a Ocidente não poderia haver mudança e só se podia esperar, dia-a-dia, e cada vez mais, impasse e mortandade sem qualquer efeito útil e pedaço de terra conquistado minimamente significativo.

No primeiro semestre de 1917, face à pouca eficácia das ofensivas encetadas e ao mesmo padrão de mortandades, os franceses colapsam e quase metade das suas unidades sublevam-se. A vigorosa unidade patriótica que se via na partida para a frente de batalha em 1914, em 1917, tinha desaparecido e outra coisa não se desejava senão a paz. Por milagre que as Potências Centrais não se aperceberam deste moral tão em baixo pois bem poderiam nesta altura, com uma iniciativa de envergadura, ter ganho a guerra.

Na verdade, no final de 1917, as Potências Centrais estavam à beira da vitória. Conscientes que, com a ajuda dada ao alastramento dos motins nos exércitos russos, nomeadamente levando Lenine - o líder da revolução bolchevique - da Suíça para o território russo para provocar mais a insurreição interna e a saída da Rússia da guerra - o que veio a verificar-se com o Tratado de Brest Litovsk; tendo obtido um enorme sucesso na Frente Balcânica e no Império Otomano, com a ajuda aos turcos, só faltava, pois, ganhar a Ocidente.

Para isso, haveria que recorrer a outros métodos, já que no palco das operações militares no terreno não se atava nem desatava. E já acima nos referimos a um deles: o método de asfixia pelo uso da guerra submarina, agora irrestrita. Os alemães, com a vitória quase assegurada nas outras frentes, e com este método, estiveram a um passo de ganhar a guerra.

Mas a guerra submarina «até às últimas consequências» teve, para as Potências Centrais, um efeito perverso ao não ponderarem devidamente a entrada dos Estados Unidos na guerra. Pelo menos deveriam ter ponderado o imponderável - o que não foi feito.

Já em 1915, os alemães ao tentarem a guerra submarina irrestrita, e provocarem o afundamento do navio norte-americano Lusitania, face aos veementes protestos americanos, arrepiaram caminho. Desta vez estavam mesmo decididos a ir para a frente, não se importando no rude golpe que estavam a dar à economia norte-americana, e confiantes de que estes, declarando-lhes guerra, não viriam a tempo de ajudar os Aliados porque, entretanto, a guerra terminaria pela asfixia da Grã-Bretanha.

E jogaram tudo. Arthur Zimmermann, o novo Secretário dos Negócios Estrangeiros, considerou que a intervenção americana - com uma marinha enorme, mas sem um exército -, apesar de tudo, teria de ser contrariada. Berlim, sabendo dos problemas que os Estados Unidos tinham com o México, encorajou este país a atacar os Estados Unidos. Foi, para o efeito, redigido um telegrama sugerindo aos mexicanos uma eventual aliança com a Alemanha e, já agora, porque não inquirir junto do micado japonês se não estaria interessado em aderir ao clube? Não contou Zimmermann que os serviços de Informações navais britânicos escutavam a sua linha e decifraram os seus códigos. O almirante britânico Hall copiou o telegrama e enviou-o, através da linha alemã, que os britânicos conheciam, para conhecimento dos norte-americanos.

Diz Stone que este telegrama, que o próprio Zimmermann não desmentiu, foi o «bilhete de suicídio» final da Alemanha.

Do lado dos Aliados, principalmente dos britânicos, havia também muita determinação. Por fim, face ao pânico que a guerra submarina irrestrita estavam provocando, acabaram por encontrar meios de a neutralizar ou, pelo menos, de a fortemente minimizar.

Quando os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha e, a partir de 1918, não constituindo a guerra submarina irrestrita já grande ameaça para o transporte de tropas, chegavam ao porto de Boulogne 200 000 americanos, por mês.

Os Aliados só teriam que fazer um último esforço, resistindo, até que esta ajuda preciosa estivesse efetivamente operacional.

As ofensivas levadas a cabo durante o ano de 1917, quer por Nivelle quer por Douglas Haig, quase iam destruindo ambos os exércitos, tamanha a envergadura em número de perdas para quase nenhum avanço com verdadeiro significado.

Nivelle, um general oriundo de artilharia, acreditava que a guerra poderia ser outra vez de movimento se a artilharia fosse usada de forma adequada. Depois de se ter dado prioridade à indústria militar, em detrimento das exportações, como já antes tinham feito os alemães, os canhões eram aos milhares e as munições aos milhões. E havia novas e aperfeiçoadas armas disponíveis. Nomeadamente os aviões “que em 1914 eram muito dados a avarias e serviam apenas para avistar grandes massas de homens - com bom tempo - começavam a florescer. Os pilotos já podiam disparar contra o inimigo por cima do nariz do aparelho sem perigo de acertarem na hélice, e os monoplanos começaram a substituir os velhos biplanos. A fotografia aérea era muito mais precisa, e estava inventado o tanque (Stone, 2010: 131). Por outro lado, as comunicações de artilharia tinham melhorado e a «barragem rastejante», que Nivelle achava que seria ela a vencer a guerra, começava a tornar-se padrão. As táticas de infantaria estavam modificando-se - nada de avanços em vagas e, muito menos, nos grandes aglomerados de 1914 e 1915, mas sim em pequenos grupos, avançando, diagonalmente, de cratera em cratera, com uma parte, disparado sobre o inimigo o para cobrir o avanço da outra.

Mas vejamos, como tudo isto, ao longo do ano, na Frente Ocidental, se comportou.

 

2.4.3.2.- Linha Hindenburg

 

A linha de trincheiras da Frente Ocidental, fixada em finais de 1914 e inícios de 1915, não se modificou. Apenas teve aperfeiçoamentos. Mas a experiência dizia aos beligerantes que ocupavam algumas posições vulneráveis e dispendiosas. Aguentavam-se simplesmente por uma questão de prestígio. “A Ypres britânica e a Verdun francesa estavam cercadas de três lados e os defensores sofriam fogo de flanco (Stone, 2010: 132). Do lado alemão, a linha era desnecessariamente longa. Estendia-se “sem qualquer valor estratégico, num bojo enorme, do campo de batalha do Somme a Chemin des Dames “ (Stone, 2010: 132).

Durante o inverno de 1916-1917, particularmente de 9 de fevereiro a 18 de março, os alemães recuaram numa profundidade de 55 Km, na chamada Operação Alberich, desfazendo, assim, aquele saliente.

Esta nova linha defensiva, como se pode ver no mapa passou a designar-se por linha Wotan e Siegfried, mas os Aliados preferiram chamar-lhe de Linha Hindenburg.

Mapa 6.jpg

Os Aliados, por seu turno, no início de Abril, aproximaram-se das novas posições germânicas, com a construção das suas linhas de defesa.

21
Mai15

Poesia e Fotografia 93

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SOLUÇO

 

Meu coração de lágrimas redondas,

Mal salgado a bater:

Deixa que o vento endemoninhe as ondas,

O mal é nenhum sonho te beber!

 

Secasses tu na boca de uma estrela,

Ou na concha da mão uma sereia!

Mas a doçura de morrer vais tê-la

Sobre um corpo de areia...

 

Coimbra, 17 de Maio de 1944

08102_HD.jpg

21
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 30

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

 

2.4.2.3.- O aparecimento dos primeiros carros de combate

 

Foi em setembro de 1916, na Batalha do Somme, que apareceram os primeiros tanques ou carros de combate.

Figura 14.jpg

Os carros de combate aliavam o poder de choque (peso) ao fogo (canhão/metralhadora), ao movimento (motor de explosão) e à proteção (blindagem). Ou seja, abarcavam, com enorme vantagem, os 4 elementos essenciais do combate. “Deslocando-se sobre lagartas - aproveitando a tecnologia dos tratores Caterpillar -, o carro de combate podia acompanhar a infantaria em todo o terreno e a sua blindagem não era perfurável pelas munições de armas ligeiras (espingardas e metralhadoras) nem pelos estilhaços das granadas de artilharia. Só o impacto direto de um projétil de arma pesada podia causar a sua destruição” (itálicos nossos) (Afonso; Gomes, 2013: 233).

Este novo meio de guerra foi, por parte dos Aliados, uma grande vitória técnica sobre a indústria militar alemã.

O primeiro ataque em que participaram os Mark I - assim se chamavam os primeiros modelos de tanque -, desenrolou-se ao longo da estrada de Albert para Bapaume. O seu aparecimento em campo de batalha deixou os alemães aterrorizados. Simplesmente, a sua eficácia foi muito reduzida devido a problemas mecânicos. Neste primeiro ataque só um dos 36 Mark I é que não foi destruído. Os ganhos que inicialmente estes carros produziram, devido a avarias mecânicas complexas, foram supridos pelos posteriores contra-ataques alemães. Aliás, de outubro a novembro de 1916, o Somme haveria de se caraterizar, como já acima Gilbert referia, por constantes cenários de avanços e recuos, ou seja, impasses em termos de conquista de terreno; um cenário de enormes mortandades e feridos - um holocausto!

 

2.4.2.4.- Mudanças na condução da guerra

 

Analisado o ano de 1916, na Frente Ocidental, não era preciso ser-se muito entendido para perceber que foram absolutamente desastrosos para os chefes militares de ambos os lados da contenda.

Não admira, assim, na imprensa, a posição de alguns críticos britânicos quando, a propósito das gigantescas baixas e da incapacidade da sua FEB para romper a frente alemã, ao afirmarem que era «um exército de leões comandado por asnos» (Luís de Alencar Araripe e Martin Gilbert).

Positivamente, os generais que ocupavam os cargos de maior responsabilidade não estavam preparados para enfrentar este tipo de guerra. Por outro lado, estava longe a ligação entre o poder político e o militar em se estabelecer de uma forma absolutamente aberta e franca, um diálogo propiciador de uma eventual abertura que possibilitasse o caminho à diplomacia.

Não choca, pois, chegados a este momento, por um lado, de insucessos no campo de batalha e, por outro, de falta ou ausência de diálogo e cooperação entre as chefias militares e os dirigentes políticos, que não se procedesse à demissão, e subsequente mudança, das chefias militares.

Falkenhayn foi o primeiro a cair: Guilherme II, a 29 de agosto de 1916, demitiu-o. Naturalmente que a intriga e o sucesso na Frente Oriental tinham também a ver com esta mudança. Ocupou o cargo de Falkenhayn a dupla Hindenburg - um velho da direita radical, que trazia a esperança na mudança da estratégia global alemã - e Ludendorff, seu chefe do Estado-Maior. O chanceler Bethmann-Hollweg ficou aliviado quando o velho Hinderburg se mostrou contrário à guerra submarina sem restrições. Mas Bethmann-Hollweg, ciente do prestígio de Hindenburg, também não teve dúvidas que, este chefe militar, tendo ao lado Ludendorff, tomariam conta das operações de guerra ditatorialmente, empurrando o poder político civil para a sombra. O que, na realidade, não se enganou. Mas colaborou nesta base pois, naquela conjuntura, acreditava ser a que melhor servia os interesses alemães.

Com a queda de Falkenhayn, a 12 de dezembro, vem a de Joffre. Para não ferir suscetibilidades ao velho comandante, foi designado «Conselheiro técnico-militar do Governo para a direção da guerra» e elevado à dignidade de Marechal-de-França, com o título de Comandante dos Exércitos Franceses. Para o lugar de comandante das forças combatentes, em território francês, foi nomeado o general Nivelle, prestigiado pela forma como conduziu a parte final da defsa de Verdun.

Na Grã-Bretanha, o ministro da Guerra, Lord Kirchener, a 5 de junho, faleceu, na sequência do afundamento do cruzador Hampshia, quando viajava com destino à Rússia. Lloyd George, ministro das Munições, passa para Ministro da Guerra.

Os insucessos nos campos de batalha e as divergências entre o conservador primeiro-ministro Asquith e o liberal David Lloyd George, quanto ao modelo de atuar dos chefes militares, em que Asquith lhes dava vasta autonomia, ao contrário do que pensava Lloyd George, partidário de um Gabinete restrito que pudesse orientar e controlar a ação da estrutura militar de campanha, fez com que, a 5 de dezembro de 1916, Asquith pedisse a sua demissão. A escolha de Lloyd George para lhe suceder foi quase imediata. A 7 de dezembro de 1916, o ministro, primeiro das Finanças, depois das Munições e, a seguir, da Guerra, passa a ocupar o lugar no nº 10 da Downing Street, sendo, a partir desta data, o Governo da Grã-Bretanha a ser chefiado por um dos políticos mais ilustres do século XX, decidido a impor a supremacia do poder civil quanto às decisões fundamentais da guerra, coisa que, até então, não acontecia. Mas não se pense que Llyod George queria acabar com a guerra, na expressiva expressão de Stone, o seu “objetivo era assestar um KO” (2007: 118). De George Llyod se diz que foi o «Homem Que Ganhou a Guerra» e não «O Homem Que Fez a Paz».

Convém aqui deixar registado que a demissão de Asquith, que comandava um governo conservador-liberal, não teve apenas a ver, e essencialmente, com a condução da guerra por parte dos seus comandantes militares. Há autores que referem questões mais de estratégia política. Na verdade, Asquith era partidário e desejava uma paz branca com o Reich para evitar a sujeição ao poderio invasivo dos Estados Unidos. David Llyod George era partidário, pelo contrário, pela destruição do Reich, fundando, com os Estados unidos, um condomínio atlantista (Venner, 2009: 72).

Face ao descalabro, que Verdun e Somme representavam, em novembro de 1916, os representantes dos países Aliados, pela terceira vez, voltaram-se a reunir em Chantilly para acertaram uma ação convergente para 1917.

Das decisões destes chefes militares decidiu-se: o esforço no Somme; uma outra penetração no dispositivo alemão, junto à costa, para capturar os portos belgas.

No dia em que Nivelle ocupa o lugar de Joffre, o chanceler alemão, Bethmann-Hollweg, pronunciou no Reichtag (parlamento alemão) um discurso, anunciando que a Alemanha, através dos países neutros, iria estabelecer conversações visando o caminho da paz. Woodrow Wilson, o presidente norte-americano, apresentava-se disponível para desempenhar o papel de intermediário nas conversações, sob o lema «nem vencedores nem vencidos». Contudo, a iniciativa foi mal recebida nos países Aliados. A 30 de Dezembro de 1916, uma declaração conjunta dos países Aliados punham em causa as propostas alemãs, que consideravam falhas de sinceridade e que outra coisa não queriam se não obter nítidas vantagens para os seus interesses.

Neste pé, a guerra iria continuar...

21
Mai15

Poesia e Fotografia 92

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LEGADO

 

A quem vier um dia, curioso

De conhecer uma novela triste,

Contai-lhe a minha história verdadeira.

Dizei-lhe onde nasci, onde morri,

O que vi,

E como só fui carne passageira.

 

Podeis também mostrar-lhe estes meus versos

E o caminho do jogo onde passei

A cantá-los, rebelde e apaixonado...

Mas guardai o segredo do meu pó

Onde podre e desfeito vivo só,

Da própria consciência abandonado.

 

Coimbra, 15 de Maio de 1944

07947_HD.jpg

21
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 29

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

 

c).- Retalhos de memória destas duas batalhas

 

The_Second_Battle_of_Ypres.jpg

Não resistimos aqui em contar, na primeira pessoa, as memórias daqueles combatentes, quer em Verdun, quer no Somme. Refere Gilbert: “Um dos que serviam no 24º Regimento era o segundo tenente, Alfred Joubaire. Tinha vinte e um anos de idade. Pouco dias antes marchara para Verdun atrás da sua banda do regimento, ao som de «Tipperary». A 23 de Maio, escreveu no seu diário: «A Humanidade está louca! Tem de ser louca para fazer o que está a fazer. Que massacre. Que cenas de horror e carnificina! Não consigo encontrar palavras para expressar as minhas impressões. O inferno não pode ser tão terrível. Os homens estão loucos!». Foram as últimas palavras que Joubaire escreveu no seu diário. Nesse dia, ou no dia seguinte, foi morto por um projétil alemão disparado de uma das 2 200 peças de artilharia que os alemães tinham concentrado no saliente” (2007: 380).

O correspondente de guerra Philip Gibbs, na Batalha do Somme, conta-nos que quando os alemães avançavam em direção às trincheiras britânicas, “«ombro a ombro, como barra sólida», tal espetáculo não passava de um «puro suicídio» [...] «Vi os nossos homens a por as suas metralhadoras em ação, e o lado direito da barra viva a desfazer-se; depois toda a linha caiu na erva chamuscada. Seguiu-se outra linha. Seguiu-se outra linha. Eram homens altos, e não hesitavam enquanto avançavam, mas pareceu-me que caminhavam como se estivessem conscientes de que se dirigiam para a morte. Morreram. A semelhança é um lugar-comum, mas era exatamente como se uma gadanha invisível os tivesse ceifado»” (Gilbert, 2007: 422).

Num outro passo, Gibbs comentou: “«Vitória!... Alguns dos alemães mortos eram rapazes, demasiado novos para serem mortos por crimes de velhos; outros, eram novos os velhos, mas não conseguia saber pelos rostos, eram apenas massas de carne amassada com uniformes em farrapos. Havia pernas e braços soltos, sem o tronco na proximidade»” (Gilbert, 2007: 399).

Canal da História (2013: 250) refere que “No primeiro dia da Batalha do Somme (1 de julho de 1916) quando os ingleses lançavam um enorme ataque suicida em que sofreram 55 000 baixas, chegou um momento em que os atiradores das metralhadoras alemãs se sentiram enjoados pela carnificina que estavam a cometer e negaram-se a continuar a premir o gatilho. Os oficiais resolveram a crise, obrigando-os com a pistola apontada a continuar o fogo, embora muitos os tenham feito enquanto as lágrimas lhes escorriam pelas faces”.

British_39th_Siege_Battery_RGA_Somme_1916.jpg

E, quanto à Batalha do Somme, refere Martin Gilbert: “No Somme, a guerra de desgaste, mais do que a guerra de penetração, tornou-se o triste padrão de luta para os exércitos anglo-franceses. Era uma guerra de bosques, matas, vales, ravinas e aldeias ganhos e perdidos, novamente tomados e novamente perdidos” (2007: 422). Uma inutilidade!

Going_over_the_top_01.jpg

Stone refere que C. S Forester escreveu uma novela «Yhe General», “na tentativa de compreender a mente das altas patentes que tornava possível o que se tinha passado. E observou que os generais da Frente Ocidental estavam a tentar parafusar um parafuso à martelada, e quando o parafuso resistia davam-lhe com mais força. A necessidade acabou por mostrar como deveria ser travado aquele tipo de batalha, mas o processo de aprendizagem foi longo e sangrento” (2010: 112).

René Arnaud, ao sair em 1916 da primeira linha de Verdun, deixou anotado no seu diário: “«Talvez esta indiferença seja o melhor estado em que uma pessoa que se encontra em combate possa sentir: agir por hábito e por instinto, sem esperança e sem medo. O prolongado período de sentimentos exacerbados acabou por aniquilar a capacidade de sentir»” (Canal da história, 2013: 256).

63.jpg

(Volume de munições de artilharia gastas num dia) 

21
Mai15

Poesia e Arte 04

 

POESIA E ARTE

  

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

O BISPO

 

Soturno como um cipreste,

O triste bispo que eu sou

É pintado.

Diante de Compostela,

Meu bispado,

Ali estou na minha tela,

Magro, pálido e parado.

 

Olhos cavados de fé,

Nariz curvo e descaído,

Boca rasgada e torcida,

Até na tinta se vê

Que não anda bem na vida

Quem já no céu está perdido.

 

A fogueira arde por dentro

Da batina e da rameira...

A fogueira...

O lume que reconcentro

Numas brasas de lareira.

 

Ninguém se salva comigo,

Porque eu próprio me condeno.

No quadro, o meu inimigo

É um postigo...

Um simples olhar sereno.

 

Foi o pintor Alvarez

Que me pintou tal e qual:

Inquisidor castelhano

A fazer um entremez

Mais humano

Em Portugal.

 

Porto, 8 de Maio de 1944

ALVAREZ - O Bispo - óleo sobre tela -Colecção d

(Dominguez Alvarez - «O Bispo» - óleo sobre tela -Colecção de Menéres Campos)

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Aqui há coração

    Poesia em cada palavra.

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • concha

    Herberto Helder! Tão Grande

  • Anónimo

    Um lindo poema cheio de nostalgia.Gostei muito.Par...

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub