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zassu

02
Abr15

Poesia e Fotografia 51

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

  ANIVERSÁRIO

 

Há trinta e cinco anos que nasci.

Foi um calvário lento esta subida!

Chuva granizo, neve, e o que não vi

Que era um sol frio e me gelava a vida...

 

De vez em quando uma bandeira erguida

Lá muito longe, ao fim da encosta, ali

Onde a vista só chega comovida...

Era outro Homem que passava aí.

 

Nem uma telha contra esta invernia!

A própria pele humana que trazia

Tornou-ma em carne viva o aguaceiro...

 

Falta chegar ao fim, à cruz e ao fel.

Fazer a sério o resto do papel,

Até que o tempo corra o reposteiro.

 

Gerês, 15 de Agosto de 1942

08246_HD.jpg

02
Abr15

Poesia e Fotografia 50

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

  SANGUE

 

Filho:

O Poeta que sou cá neste mundo,

Infeliz,

Só e senhor de si,

De vez em quando vê que tem raiz,

E, comovido, lembra-se de ti.

 

Põe-se a pensar noutro pobre Poeta,

- Carne da sua carne,

Inspiração da sua inspiração -,

Aluado nas curvas do caminho,

A cair de poesia ou vinho,

E a ser pisado pela multidão.

 

Um Poeta-Menino que não mame,

Que não chore,

Que não suje os cueiros,

E, filho de Poeta, saiba arder

Na fogueira da sua própria lenha...

Uma quimera astral que deixe o berço astral,

E não venha.

 

Vicente, 11 de Agosto de 1942

07814_HD.jpg

02
Abr15

Poesia e Fotografia 49

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

  SESTA

 

Todo de milho verde,

O vale inteiro é um rio

Onde a tarde se perde

A correr sem desvio.

 

Curvas de rolas mansas

Num céu deserto e feio;

Danças

E poeira no meio.

 

Sede;

E uma bica gelada

A sair da parede

Duma vida fechada.

 

Vicente, 8 de Agosto de 1942

milho.jpg

01
Abr15

Encontro(s) - Cena 16:- Nostalgia

ENCONTRO(S) - CENA 16

 

NOSTALGIA

Na publicação «Memórias de uma Linha - Linha do Corgo-Chaves, 28 de agosto de 1921 a 1 de janeiro de 1990», uma produção Lumbudus, com fotografias propriedade de detenção de direitos de autor de Humberto Ferreira, editada em agosto de 2014, com textos de vários colaboradores, a certa altura era incluído o seguinte texto sob a designação em epígrafe:

“Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-me tão presente como se fora hoje. Vejo o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços nela apoiados, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente. Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pascoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro. Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz. Era a Ponte do Granjão. Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens. Nela passava o comboio. E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia.

Estava-se mesmo a ver que o rapaz, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali. Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo. O seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento, um vem comigo conhecer o mundo.

E um dia partiu mesmo.

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da «descoberta». Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças. Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que hoje é: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, de partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador, solidário, castiçamente ibérico e sonhador.

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo «navegar». Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser.

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos. E que nos indique um rumo. Um novo caminho”.

 

Do banco de pedra, da janela de sua casa, eis o panorama que o petiz Nona apreciava:

ABC_9812.jpg

No fundo do vale, uma linha estreita de água e uma ponte por onde comboios como este passavam e «levavam» para bem longe Nona:

Corgo 2.jpg

01
Abr15

Poesia e Fotografia 48

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

   

AGUARELA

 

Campos de Aveiro.

Manchas verdes de arroz,

E a vela dum barco moliceiro

Que um pirata ali pôs.

 

A servir de moldura,

O velho mar cansado;

E o céu alto a descer e a ter fundura

Na quilha reluzente de um arado.

 

Linha Lisboa-Porto, 1 de Agosto de 1942

1280px-Barcos_moliceiros.jpg 

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