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zassu

09
Abr15

Poesia e Fotografia 61

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NATAL

 

 

Velho Menino-Deus que me vens ver

Quando o ano passou e as dores passaram:

Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,

Mas quando as minhas dores o desejaram...

 

Agora, outras quimeras me tentaram

Em reinos onde tu não tens poder...

Outras mãos mentirosas me acenaram

A chamar, a mostrar e a prometer...

 

Vem, apesar de tudo, se queres vir.

Vem com neve nos ombros, a sorrir

A quem nunca doiraste a solidão...

 

Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.

O que eu chorei por ele! Era de arminho

E batia-lhe dentro um coração...

 

Coimbra, 24 de Dezembro de 1942

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09
Abr15

Poesia e Fotografia 60

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PARTILHA

 

 

Contigo e Deus a minha vida é tal

Que nem tem este nome que lhe dou.

Contigo é um bem sem fim, com ele um mal

Que já vem desde que isto começou.

 

Contigo, é este ser ao natural

O que o corpo de barro diz que sou;

Com ele, é esta voz de vendaval

Que chama, chama, quanto mais não vou.

 

Entre os dois polos me reparto todo.

Na tua mão terrena a flor-do-lodo,

Na dele, celeste, o cálix da amargura...

 

Entre os dois pólos me procuro em vão;

Tu a dizeres-me que sou puro chão,

Ele, que sou anjo de não sei que altura...

 

Coimbra, 11 de Dezembro de 1942

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09
Abr15

Poesia e Fotografia 59

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CLARÃO

 

 

O que isto é, viver!

Abrir os olhos, ver,

E ser o nevoeiro que se vê!

Nevoeiro ao nascer,

Nevoeiro ao morrer,

E um destino na mão que não se lê...

 

Coimbra, 30 de Novembro de 1942

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09
Abr15

Poesia e Fotografia 58

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

FIM

 

Falam por mim os plátanos da rua:

Deixam cair as folhas amarelas,

E ficam hirtos na friagem nua

Como mastros sem velas.

 

Coimbra, 19 de Novembro de 1942

IMG_8204.jpg

 

09
Abr15

Poesia e Fotografia 57

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

APELO

 

 

Com a tarde a cair cheia de cor,

- Folhas de Outono no Choupal deserto -

Olha-te doutra maneira o meu amor,

E o teu coração pulsa mais perto...

 

Como que pede vida nesta hora

Uma força que em nós nos era alheia...

Uma onda que vem pelo mar fora

À procura de paz na sua areia...

 

Nada que seja a flor duma impureza;

É qualquer coisa de mais belo e fundo:

- Sugestão do adeus da natureza

A pedir fé no mundo.

 

Coimbra, 27 de Outubro de 1942

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09
Abr15

Poesia e Fotografia 56

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SAUDAÇÃO

 

Não sei se comes peixes, se não comes,

Irmão poeta Guarda-Rios:

Sei que tens céu nas asas e consomes

A força delas a guardar os rios.

 

É que os rios são água em mocidade

Que quer correr o mundo e conhecer;

E é preciso guardar-lhe a tenra idade,

Que a não venham beber...

 

Ave com penas de quem guarda um sonho

Líquido, fresco, doce:

No meu livro te ponho,

E eu no teu rio fosse...

 

Barril de Alva, 28 de Setembro de 1942

346173-blackangel.jpg

09
Abr15

Poesia e Fotografia 55

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PARÁBOLA

 

No silêncio do parque abandonado

O repuxo prossegue a sua luta;

É um desejar alado

A sair duma gruta.

 

Ergue-se a pino ao céu como uma lança;

Ergue-se a pino, e sobe na ilusão;

Até que a flor do ímpeto se cansa

E cai morta no chão.

 

Mas a raiz do Sonho não desiste;

Subir, subir ao céu, alto e fechado!

E o repuxo persiste

Na solidão do parque abandonado.

 

Gerês, 30 de Agosto de 1942

2015 - Allariz (261).jpg

06
Abr15

Poesia e Fotografia 54

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CONDENAÇÃO

 

Toda a manhã o lírio pagão,

O animal sensível que em mim olha,

Olhou, olhou, cheio de comoção,

Uma folha.

 

Era de tília a mágica verdura.

Larga, quieta, ao sol, vivia.

E a viver assim dava frescura

A quem da terra seca lha pedia.

 

Nisto, não sei que maldição soprou,

Ou que Deus demoníaco sorriu,

Que toda aquela calma se agitou

E caiu.

 

Gerês, 26 de Agosto de 1942

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06
Abr15

Poesia e Fotografia 53

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ÁGUA

 

Água a correr na fonte.

Uma quimera líquida que sai

Das entranhas do monte

A saber ao mistério que lá vai...

Pura,

Branca, inodora e fria,

Cai numa pedra dura

E desfaz o mistério em melodia...

 

Gerês, 26 de Agosto de 1942

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06
Abr15

Poesia e Fotografia 52

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PÁTRIA

 

Serra!

E qualquer coisa dentro de mim se acalma...

Traída,

Feita de terra

E alma.

 

Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:

- Sob a garra dos pés a fraga dura,

E o bico a picar estrelas verdadeiras...

 

Gerês, Pedra Bela, 20 de Agosto de 1942

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  • Jorge

    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

  • Jorge

    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

  • Aqui há coração

    Poesia em cada palavra.

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • Anónimo

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