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zassu

05
Abr20

Versejando com imagem - Ternura, David Mourão-Ferreira

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TERNURA

 

FB_IMG_1579601008886

 

Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do sol,

quando depois do sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

onde uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despimos assim que estamos sós!

 

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

03
Abr20

Palavras Soltas - Ibéria - Terra de Sanchos e D. Quixotes

 

PALAVRAS SOLTAS

 

IBÉRIA - TERRA DE SANCHOS E D. QUIXOTES

01.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (101)

Para a reportagem das Torres da Límia, a 10 de fevereiro passado, fomos até à Porqueira, no vale da Baixa Límia, onde se encontra a Torre com o mesmo nome (ou da Forxa).

 

Para além do nosso inseparável amigo, nestes périplos pela Ibéria galega, acompanhou-nos, desta vez, sua mulher, Délia, e uma amiga fotógrafa, Anxo.

 

A Torre da Porqueira (ou da Forxa) fica na povoação/sede do concello da Porqueira, no lugar da Forxa.

 

Trata-se de um concello pequeno, com 6 parroquias e, segundo os Censos do INE e IGE (Institutos de Estatística de Espanha e da Galiza), em 2014, possuía 931 habitantes.

02.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (1)

Nesta povoação/sede de concello, destaca-se o seu casario típico, rural,

03.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (19)

(Ângulo I)

03a.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (11)

(Ângulo II)

mas velho,

04.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (21)

(Aspeto I)

05.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (20)

(Aspeto II)

e algumas casas em ruínas.

06.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (30)

(Aspeto I)

07.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (77)

(Aspeto II)

Mas, para além da sua Torre, o que mais se evidencia são os seus «hórreos» (espigueiros)

08.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (6)

(Cenário I)

09.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (7)

(Cenário II)

10.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (8)

(Cenário III)

11.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (13)

(Cenário IV)

12.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (15)

(Cenário V)

Não deixámos de contemplar este exemplar, rodeado das couves, ditas galegas.

13.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (5)

Depois de termos passado uns momentos nesta «aira» (eira) de espigueiros, dirigimo-nos para a Torre, no Cimo do Povo.

14.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (37)

Enquanto efetuávamos o pequeno percurso, à nossa direita, apresentava-se-nos a Igreja Matriz, a uns metros de distância.

15.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (42)

Aproximámo-nos.

16.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (41)

Apenas conseguimos obter imagem de parte da sua fachada principal

17.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (25)

e da fachada de um edifício contíguo que supomos ser a residência paroquial (Rectoral),

18.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (28)

bem assim, ao redor do adro da Igreja, no seu «Campo Santo» (cemitério), este enorme mausoléu.

19.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (23)

Até que nos aproximámos do lugar da Forxa, onde se localiza uma das mais faladas (e preservadas) Torres da Límia.

20.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (48)

Subimos até à plataforma onde a Torre se ergue,

21.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (67)

observando-a pelos seus diferentes ângulos. Aqui se apresentam quatro.

22.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (64)

(Ângulo I)

23.-2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (68)

(Ângulo II)

24.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) GOPRO (5)

(Ângulo III)

25.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) GOPRO (17)

(Ângulo IV)

Do alto da plataforma em que a Torre assenta, eis os panoramas que se observam para a veiga (chaira) da Límia, em conjunto com o casario do Cimo do Povo da Porqueira.

26.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) GOPRO (20)

(Panorama I)

27.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (71)

(Panorama II)

28.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (59)

(Panorama III)

29.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (63)

(Panorama IV)

Aqui e ali vão-se reconstruindo as casas: umas, para habitação própria;

30.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (122)

outras, para turismo rural.

31.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (50)

Enquanto as senhoras desciam para o Fundo do Povo, nós, passando por uma velha capelinha

32.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (75)

e por mais edifícios em ruínas,

33.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (123)

(Edifício I)

34.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (124)

(Edifício II)

procurámos ir ver os soutos

35.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (92)

(Perspetiva I)

35a.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (120)

(Perspetiva II)

e depois dirigirmo-nos às cascatas da Fírbeda.

36.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (93)

Pablo, curioso com a cena que via à sua frente,

37.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (96)

meteu souto foro e, amigo que é de dar dois dedos de conversa, dirigiu-se a este «Tio», que, expectante, já esperava por ele.

38.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (98)

Deixamos aqui como testemunho, três momentos da conversa havida entre o amigo Pablo e o «Tio limiano». O senhor bem disse o seu nome, mas, para aqueles, como nós, que não estamos habituados a ouvir e lidar com nome tão estranho, não nos ficou na memória; por isso, vamos passar a tratá-lo por «Tio limiano».

39.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (110)

(Momento I)

40.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (111)

(Momento II)

41.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (114)

(Momento III)

Afinal, que de especial teve (ou tem) este senhor e a sua conversa para aportarmos este encontro e deixarmos de ir às cascatas?

 

É muito simples. «Tio limiano» é um maior (ancião) de 101 anos. Como se vê, ainda «fresco»! Apenas vai para casa para comer as suas refeições e dormir. Quanto ao restante tempo, ocupa-o nas suas propriedades. Nunca tem paragem, dizia-nos depois um dos seus sobrinhos. E, mesmo quando não tem que fazer nas terras, não fica em casa – dá a volta ao termo da aldeia.

 

Fomos dar com ele, debaixo daquela frágil estrutura, a plantar kiwis machos, que um seu amigo de Xinzo lhe tinha dado.

 

Andar pelas terras e cuidar delas é o que mais gosta. É o seu maior prazer. No meio da natureza sente-se o homem mais feliz do mundo!

 

Despedimo-nos do «Tio limiano».

42.- 2020.- Ponte Porqueira+Ponteliñares (A Limia-Galiza) (116)

E as cascatas lá terão de ficar para uma outra ocasião…

 

A atitude e o exemplo deste «maior» deixou-nos a pensar.

 

E, ao chegarmos a casa, de imediato, veio-nos à lembrança um texto aqui postado neste blogue a 4 de fevereiro de 2013, sob o título «Entre «os Poemas Ibéricos (de Torga) e a «Mensagem» (de Pessoa) – Ao encontro de um Portugal com os pés bem assentes na terra».

 

Deixemos aqui, ma vez mais, as palavras que, face à postura e atitude do «Tio limiano», mais nos prenderam.

 

Miguel Torga afirmava que a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano». Mas materno, a que os seus filhos que mamaram nas suas tetas de pedra devem fidelidade eterna.

 

Somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, a Ibéria, mas dotada de uma grandeza de que nos devemos orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, qual sereia traiçoeira. Por isso, Torga exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

O último poema do livro «Poemas Ibéricos» termina assim:

Venha o Sancho da lança e do arado

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Para o nosso grande poeta transmontano, M. Torga, o verdadeiro herói é o Sancho, o humilde herói coletivo da luta do quotidiano da vida contra a morte.

 

Partir é sempre perder-se de si próprio. Optar pelo «barco» é ser infiel à raiz.

 

Fernando Pessoa é sempre pelo «barco» contra a raiz. Mas Pessoa explica, depois em prosa, o que queria dizer com a sua mensagem na «Mensagem», ou seja, que os portugueses se afirmassem no presente de uma forma que fosse equivalente das Descobertas do passado. Não apenas no domínio do ser, não do ter.Como então. Por isso, incita os seus concidadãos a reencontrarem-se em «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Face ao tempo dramático por que passamos, deixamos aqui, mais uma vez, a reflexão que, já em 2013, deixámos postada:

 

Na miragem do cravo e da canela e de outras índias e oiro de outros brasis, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho, a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, nos está sendo «roubada» e desenvolvendo, todos, toda ela – do mar à montanha; da planície ao planalto; do norte ao sul; do litoral ao interior. Numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem sonharam, erguendo e preservando – Portugal.

 

«Tio limiano», nascido no mesmo berço da mesma Ibéria a que pertencemos, tendo em conta a evolução dos tempos, deve servir-nos de guia e exemplo – de amor ao terrunho onde nascemos, cuidando carinhosamente dele…

 

31
Mar20

Versejando com imagem - Cântico de Humanidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CÂNTICO DE HUMANIDADE

lavrar-a-terra

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que lavram no chão,

Atuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.

 

Apenas se os deuses querem

Ser homens, nós os cantemos.

E à soga do mesmo carro,

Com os aguilhões que nos ferem,

Nós também lhes demonstremos

Que são mortais e de barro.

 

Miguel Torga, in Nihil Sibi

30
Mar20

Palavras Soltas - Esperança e luta por um outro paradigma de vida

 

PALAVRAS SOLTAS

 

ESPERANÇA E LUTA POR UM OUTRO PARADIGMA DE VIDA

 

Desde o Iluminismo, quando as pessoas se revoltavam

contra as autoridades e decidiram usar as forças

da razão para melhor suas vidas,

têm encontrado formas de o fazer, e há pouca dúvida

de que continuarão a conquistar vitórias

contra as forças da morte.

 

Agus Deaton, 2013,

in «The Great Escape: Health, weath, and the origins of inequality»

 

 

giphy (1)

Steve Pinker, na sua obra «O Iluminismo AGORA em defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso» afirma que durante quase toda a história da Humanidade a força da morte mais poderosa foi (é) a doença infeciosa. Esta doença é a desagradável componente da evolução onde organismos pequenos, que se reproduzem rapidamente, e que garantem a sua sobrevivência à custa do ser humano, transportando-se, de corpo para corpo, em insetos, vermes, fluxos corporais e vírus. 

 

As epidemias mantaram milhões de pessoas, devastando povos e civilizações inteiras, trazendo repentinamente o caos e a miséria.

 

Ninguém foi (era) poupado. Ricos e pobres, ninguém escapava!

 

Contudo, afirma, o sempre criativo Homo sapiens já há muito que combatia a doença com charlatanices, tal como a reza, o sacrifício, o derramamento de sangue, a aplicação de ventosas, os metais tóxicos, a homeopatia e o sangrar uma galinha até à morte contra uma parte infetada do corpo. 

 

Todavia, o curso da batalha começou a mudar em meados do século XVIII com a invenção da vacinação e acelerou no século XIX com o reconhecimento da teoria microbiana da doença.

 

A lavagem das mãos, a obstetrícia, o controlo de mosquitos e, especialmente, a proteção da água potável dos escoamentos de esgotos públicos e a coloração da água da torneira haveriam de salvar milhares de milhões de vidas.

 

De entre um numero infindo de descobertas, no dia 12 de abril de 1955, uma equipa de cientistas anunciou a segurança comprovada da vacina de Jonas Salk contra a poliomielite - uma doença que matava milhares de pessoas todos os anos, paralisou Franklin Roosevelt e condenou várias crianças aos «pulmões de aço» (uso de ventiladores de pressão negativa que auxiliavam os pacientes com dificuldades respiratórias graves ou mesmo com paralisia dos músculos respiratórios).

 

E o autor que vimos seguindo, pergunta-nos: ultimamente, quanta atenção temos dispensado a Karl Landsteiner, ele que apenas salvou um milhar de milhão de vidas com a sua descoberta dos grupos sanguíneos? 

 

E o que dizer destes, entre muitos outros, heróis, cujo quadro abaixo apresentamos?

 

Saúde

A estimativa acima feita por investigadores calcula ainda que mais de cinco mil milhões de vidas foram salvas (até agora) por cerca de uma centena de cientistas, que os mesmos selecionaram.

 

Apesar dos cientistas serem ignorados - e até mesmo a própria ciência - pelo cidadão (comum), uma coisa é certa: se não fosse a comunidade de cientistas e a ciência, nossas vidas não se teriam transformado ao ponto não só de termos melhor qualidade de vida como mais longevidade.

 

Se é certo que a razão e o progresso científico é a chave para o fim dos horrores que, periodicamente, a Humanidade padece, há que, por isso, todos nos consciencializarmo-nos que a luta pela saúde e pela vida, é a nossa principal prioridade e que deve ser uma constante em toda a nossa Sociedade.

 

Na verdade, a defesa da vida só com conhecimento e informação é que se consegue. Informação e conhecimento são a chave para os males que afligem toda a Humanidade.

 

Todos os dias circulam pelas redes sociais palavras e reflexões sobre o momento por que hoje passamos. Queríamos deixar aqui aos(às) nossos(as) leitores(as) duas.

 

A primeira, dizendo-lhes que este não é o apocalipse, mas pode ser uma oportunidade para entender o real propósito da nossa passagem por este planeta Terra. quando a Europa, neste momento, é mais afetada que a África; quando um beijo se torna uma arma; quando o dinheiro, que cada um tem, não nos salva; quando a vida como a entendemos até agora para todos e o tempo se torna um castigo... talvez quando voltarmos a sair de casa, andaremos mais devagar, mais perto, mais humildes, mais humanos.

 

A segunda é um texto de uma psicóloga italiana - Francesca Morelli - que passamos a transcrever:

"Acredito que o Universo tem a sua maneira de equilibrar as coisas e as suas leis quando estão viradas do avesso. O momento que vivemos, cheio de anomalias e paradoxos, dá que pensar. Numa altura em que as alterações climáticas causadas por desastres ambientais chegaram a níveis preocupantes, primeiro a China e depois tantos outros países vêem-se obrigados ao bloqueio. A Economia colapsa, mas a poluição diminui consideravelmente. O ar melhora; usam-se máscaras, mas respira-se.

Num momento histórico em que algumas ideologias e políticas discriminatórias, com fortes referências a um passado mesquinho, estão a reativar-se em todo o planeta, chega um vírus que nos faz perceber que, num instante, podemos ser nós os discriminados, os segregados, os bloqueados na fronteira, os portadores de doenças. Mesmo que não tenhamos culpa disso. Mesmo que sejamos brancos, ocidentais e viajemos em classe executiva.

Numa sociedade fundada na produtividade e no consumo, em que todos nós corremos 14 horas por dia na direção não se sabe muito bem de quê, sem sábados nem domingos, sem feriados no calendário, de repente chega o “parem”. Fechados, em casa, dias e dias. A fazer contas com o tempo do qual perdemos o valor. Será que ainda sabemos o que fazer dele?

Numa altura em que o acompanhamento do crescimento dos filhos é, por força das circunstâncias, confiada a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e obriga a encontrar outras soluções, a juntar a mãe e o pai com as crianças. Obriga a refazer família.

Numa dimensão em que as relações, a comunicação, a sociabilidade se processam principalmente no “não-espaço” do virtual, das redes sociais, dando-nos uma ilusão de proximidade, o vírus tolhe-nos a verdadeira proximidade, a real: que ninguém se toque, nada de beijos, nada de abraços, tudo à distância, na frieza do não contacto. Até que ponto dávamos por adquiridos estes gestos e o seu significado?

Numa altura em que pensar no próprio umbigo se tornou regra, o vírus envia uma mensagem clara: a única saída possível é através da reciprocidade, do sentido de pertença, da comunidade, do sentimento de fazer parte de algo maior, de que cuidamos e que pode cuidar de nós. A responsabilidade partilhada, o sentir que das nossas ações depende não apenas o nosso destino mas o de todos os que nos rodeiam. E que dependemos das deles.

Por isso, deixemo-nos da caça às bruxas, de perguntar de quem é a culpa ou porque é que tudo isto aconteceu, e perguntemos antes o que podemos aprender com isto. Creio que temos todos muito para refletir e fazer. Porque para com o Universo e as suas leis, evidentemente, temos uma grande dívida. Explica-nos o vírus, com juros muito altos.”

Para os nossos(as) amigos(as) galegos(as) e castelhanos(as) deixamos este vídeo:

 

LA REFLEXÍON DE UNA PSICÓLOGA ITALIANA SOBRE EL CORONAVIRUS

Se é verdade que hoje o nosso lema é fazermos guerra ao Coronavirus Covid-19, que, pelo nosso Planeta, está dizimando mulheres e homens, também é bem certo que a situação por que hoje dramaticamente passamos exige de todos nós um outro paradigma de vida: de luta e guerra contra as guerras; de luta e guerra contra a não preservação do Planeta onde habitamos; de luta e guerra contra os individualismos mesquinhos que trazemos do berço. 

 

União e solidariedade são as palavras que hoje em dia - e sempre - fazem todos a diferença e têm todo o sentido.

 

António de Souza e Silva

29
Mar20

Versejando com imagem - Pérola solta, José Régio

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PÉROLA SOLTA

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Sem que eu a esperasse,

Rolou aquela lágrima

No frio e na aridez da minha face.

Rolou devagarinho...,

Até à minha boca abriu caminho.

Sede! o que eu tenho é sede!

Recolhi-a nos lábios e bebi-a.

Como numa parede

Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,

Na boca me cantou,

Breve como essa lágrima,

Esta breve elegia.

 

José Régio, in Filho do Homem

27
Mar20

Ao Acaso... Palavras efetivamente repugnantes!...

 

AO ACASO…

 

PALAVRAS EFETIVAMENTE REPUGNANTES!...

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Em tempo de distanciamento social forçado, apesar de termos a sensação de que muito que se tem escrito até agora terá de ser profundamente revisto e que nada ficará como dantes, obrigando-nos a enfrentar um outro paradigma de vivermos neste Mundo, construindo uma outra Sociedade, pelas redes sociais entra-nos a atitude de indignação do Primeiro-ministro português, António Costa, face as declarações do ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra.

 

Estamos completamente de acordo com as palavras de António Costa: simplesmente repugnantes!...

 

Ao Acaso… fomos encontrar estas palavras de Steven Pinker no seu livro, saído em 2018, sob o título «O Iluminismo Agora em Defesa da Razão, da Ciência, Humanismo e Progresso» quando nos diz que a ideia de natureza humana universal leva-nos ao conceito de Humanismo. “Humanismo que privilegia o bem-estar individual de homens, mulheres e crianças em detrimento da glória da tribo, da raça, das nações e da religião.

São os indivíduos, e não os grupos, que são sencientes – que sentem prazer e dor, satisfação e angústia. Quer tendo como objetivo a finalidade de providenciar a felicidade de maior número de pessoas possível, quer como imperativo categórico de tratar as pessoas como fins e não como meios (…) a natureza humana prepara-nos para responder a esse apelo. Isso deve-se ao facto de sermos dotados do sentimento de compaixão, que os pensadores iluministas também designavam por benevolência, piedade e comiseração.

Uma vez que estamos equipados com a capacidade de nos solidarizamos com os outros, nada impede que o círculo da compaixão se estenda da nossa família e da tribo para abraçar toda a Humanidade, principalmente quando a razão nos leva a perceber que não existe nada de único que seja merecido exclusivamente por nós ou por qualquer dos grupos a que pertencemos.

Nós somos, assim, forçados ao cosmopolitismo, ou seja, à aceitação da nossa cidadania no mundo”.

 

E, desta feita, perguntamo-nos: que gente é esta que governa a União Europeia, berço do Iluminismo e do Humanismo?

 

Não é esta Europa à qual aderimos e pela qual indefetivelmente queremos estar, lutar e construir!...

 

António de Souza e Silva

25
Mar20

Versejando com imagem - Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NÃO É FACIL, SENHOR, A VIDA QUE NOS DESTE

 

2018.-Vidago -  Parque do Palace Hotel (48)

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Se há momentos serenos como lagos

inundados de sol,

também há a selva escura,

infindável e escura, de muitas horas

que cansam e fazem doer a alma.

 

Há longas esperanças que, depois

de levarem o melhor dos nossos sonhos,

desabam de repente.

Há o fracasso, o desânimo

e a insegurança de tudo quanto nos vem às mãos.

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Luta-se muito, temos de lutar,

todos os dias, por qualquer coisa,

qualquer coisa que acaba por nos fugir,

como se a vida se reduzisse

a um puro jogo das escondidas,

como se nos criasses apenas

para te servirmos de passatempo.

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Por isso, muitos corações

se vão assemelhando a pequenos pântanos

onde se desenvolve o limo da melancolia

ou a serpente do desespero.

Por isso as árvores do sonho

mal conseguem dar frutos

e os poucos frutos

deixam nos lábios um sabor a fel…

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

 

António Cabral, in Poemas Durienses

23
Mar20

Versejando com imagem - Morena, Guerra Junqueiro

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

MORENA

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Não negues, confessa

Que tens certa pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena.

 

Pois eu não gostava,

Parece-me a mim,

De ver o teu rosto

Da cor do jasmim.

 

Eu não... mas enfim

É fraca a razão,

Pois pouco te importa

Que eu goste ou que não.

 

Mas olha as violetas

Que, sendo umas pretas,

O cheiro que têm!

Vê lá que seria,

Se Deus as fizesse

Morenas também!

 

Tu és a mais rara

De todas as rosas;

E as coisas mais raras

São mais preciosas.

 

Há rosas dobradas

E há-as singelas;

Mas são todas elas

Azuis, amarelas,

De cor de açucenas,

De muita outra cor;

Mas rosas morenas,

Só tu, linda flor.

 

E olha que foram

Morenas e bem

As moças mais lindas

De Jerusalém.

E a Virgem Maria

Não sei... mas seria

Morena também.

 

Moreno era Cristo.

Vê lá depois disto

Se ainda tens pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena!

 

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

21
Mar20

Versejando com imagem - Confiança, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, nesta nossa rubrica deixamos aqui um poema do nosso poeta maior – Miguel Torga – com o desejo, face aos tempos difíceis por que passamos, em nós renasça a confiança de podermos (re)construir o mundo, se possível, muito melhor.

 

2020.- Ecovia do Rabaçal (PR3-VLP) - Nikon (257)

CONFIANÇA

 

O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…

 

Miguel Torga, In "Cântico do Homem", 1950.

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