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zassu

20
Set25

A intervenção cidadã pela escrita - Sonhar, é preciso!

A INTERVENÇÃO CIDADÃ PELA PALAVRA

António de Souza e Silva

 

APRESENTAÇÃO E ADVERTÊNCIA

 

Os textos, que agora, e a partir deste blog, com que o leitor vai estar confrontado na sua leitura representam a intervenção cidadã muito modesta do autor para quem a palavra sempre foi o seu instrumento privilegiado de comunicação e intervenção.

Desde os seus princípios e valores como homem e cidadão até à sua militância partidária, os textos estão aí para elucidar todo o seu ideário e pensamento, de um homem situado num determinado contexto local e social. Livre, tanto quanto possível, no quer diz; não aceitando qualquer mordaça de pensamento único; não temendo enfrentar qualquer tipo de caciquismo, qualquer tubarão ou, sequer, intimidando-se, com qualquer atitude maledicente, mesmo que semelhante postura lhe tenha custado o seu afastamento no relacionamento com aqueles com quem trabalhou, ao longo dos anos, na construção e desenvolvimento de uma sociedade mais equânime e justa. Afinal de contas, empenhado na construção de uma sociedade outra.

Norteou-o sempre, e ainda norteia, aquela máxima do nosso poeta maior Miguel Torga «Não posso ter outro partido senão o da liberdade».

Os escritos, alguns dos muitos, que agora se apresentam, foram escritos ao longo destes últimos vinte anos nos blogs do autor – Andarilho de andanhos e Voilá é Zassu - (anagrama de Souza e Silva), bem assim em duas rubricas – Discurso sobre a Cidade e Chá de urze com flores de torga – do blog Chaves, do seu amigo, Fernando das Dores Couto Ribeiro. São provenientes de um estudo e reflexão desses mesmos temas, na solidão dos seus dias. E não passam de um humilde contributo de um ser humano, que sempre se preocupou com o Mundo, se interessou pela Humanidade, que procurou, a seu jeito, intervir na Sociedade e na sua Polis. A publicação da presente compilação neste blog, sob a designação da rubrica Intervenção cidadã pela palavra, representa um primeiro momento que antecede a sua publicação em livro.

Como certamente poderão constatar, os textos são datados, referindo-se concretamente às circunstâncias da ocasião em que foram escritos. Todavia, o conteúdo e a(s) mensagem(s) continuam, na minha modesta opinião, e mutatis mutandis, atuais.

Eles aqui ficam, pois, para escrutínio, crítica e reflexão dos(as) nossos(as) caros(as) leitores(as).

***

SONHAR, É PRECISO!...

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I

No último Discurso sobre a Cidade, de 2012, no final do meu artigo, assinado como António Tâmara júnior, reproduzia a minha preocupação sobre a nossa cidade e o seu futuro. E, falando a propósito deste blog CHAVES, dizia: «Preocupa-me que Chaves não tenha pelo menos um blog que reflita, seriamente e sistemáticamente, sobre a sua cidade e do que para ela desejamos. Com efetiva e entusiástica participação dos cidadãos, amantes da sua terra e da sua história. E interessados na construção de um outro futuro. Porque, só assim, creio sinceramente, é que a classe política que temos se poderá vir a regenerar».

Foram exatamente estas as palavras proferidas. E, naquela altura, tal como ainda hoje, continuo a acreditar nelas.

Perdi já a esperança de a classe política se regenerar por dentro. Está tão afastada da realidade – e tão sedenta de poder – que não vê que há mais mundo para além daquele que pisam. Que outro mundo é possível. E que ela nada faz – ou porque não sabe ou por interesses firmemente instalados – para o modificar.

Por isso é necessário que, para além das manifestações, dos protestos e movimentos de contestação cidadã, a palavra dê lugar à ação, que esta tome a dianteira e a primazia em cada cidadão, em concreto. Que a palavra e a ação do cidadão comecem na concreta comunidade onde se inscreve e se insere. Que seja uma efetiva realidade. Porque é necessário tirar as pantufas e o robe e sair do sofá, (que nos prende à televisão e às novas tecnologias de comunicação e informação, amolecendo-nos e anestesiando-nos com entretenimentos que nos infantilizam e notícias e comentários de pseudo peritos, que outras coisas não fazem senão nos baralhar), e calcemos as botas e vistamos o fato-macaco para pôr mãos à obra. Porque há mais vida para além da crise. Porque a crise só se debelará com outra vida, o mesmo que dizer, outra visão, outra postura, outros (s) modelo (s) e, quiçá, outros protagonistas.

II

Sou filho da dita geração do «baby boomers» dos anos 60 e princípios dos anos 70. Adolescentes em final de ciclo e jovens que fizeram mover a sociedade de altura com a sua rebeldia, lutando por causas, inventores da era da «paz e amor». Que lutavam por projetos culturais e ideológicos alternativos, já lançados na década de 50. E, se é certo que se viveu uma primeira fase de inocência e até de lirismo nas manifestações socioculturais, e no âmbito da política, são evidentes o idealismo e o entusiasmo no espírito da luta do povo, contudo, a partir da 2ª parte da época, dá-se já o início de uma grande revolução comportamental, rompendo os modelos conservadores em amplos setores, nomeadamente com o surgimento do feminismo e os movimentos a favor dos negros e dos direitos humanos. É também nesta altura que surgem os movimentos de comportamento como os hippies, com os seus protestos contrários à Guerra Fria e à Guerra no Vietname, a que muitos lhes chamaram de contracultura. Para já não falar da Revolução Cubana, na América Latina.

É, manifestamente, o apogeu dos historicamente designados 30 anos gloriosos, que vão até meados dos anos 70. Que a ninguém deixava indiferente quer na música com os Beatles, os Rolling Stones, The Who, quer com a música de protesto de Bob Dylan, Joan Baez, Peter, Paul and Mary; o aparecimento do rock and rol; de Elvis Presley; de Bob Marley; o Festival de rock Monterrey Pop Festival ou Festival Pop de Monterrey, na California, onde se estreia Jimi Hendrix, Big Brother e Holding Company, com Janis Joplin e Otis Reding; o aparecimento do primeiro álbum dos The Doors - «Light my Fire» e, já no final, em 69, o festival de Woodstock; é o aparecimento da televisão a cores; dos filmes de autores como Jean-Luc Godard, Frederico Fellini, Michelangelo Antonioni, Peter Fonda, Stanley Kubrick; das grandes atrizes e atores como, nomeadamente, Jean Seberg, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Brigitte Bardot, Audrey Hepburn, Jane Birkin, Catherine Deneuve, Jane Fonda, Dustin Hoffman, Jack Nickolson, Marcello Mastroianni; são os filmes Blowup, Belle de Jour, Easy Rider, Barbarella, entre muitos outros. São os anos (abril de 61) em que o cosmonauta Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a ir ao espaço e em que o primeiro homem pisa a lua (69), Niel Alden Armstrong. São os anos em que, para mim, adolescente em final de ciclo e da minha primeira juventude, morrem 4 grandes ídolos: Marilyn Monroe (62), cinema; John F. Kennedy (63), política; Martin Luther King (63), líder negro pela defesa dos direitos dos negros e Che Guevara (67), executado na Bolívia.

Os jovens desta geração são influenciados pelas ideias de liberdade «On The Road», livro do Beatnik Jack Kerouac, da chamada geração beat, que começa a opor-se à sociedade de consumo vigente.

Foi, a partir deste caldo e cadinho de movimentos e cultura, essencialmente jovem, que a sociedade saída dos dois conflitos mundiais se estruturou e desenvolveu. E que nos trouxe também até aqui…

III

Entretanto a sociedade em que crescemos e nos desenvolvemos era, na sua grande maioria, uma sociedade jovem.

Hoje, mais de 1/5 da sociedade em que vivemos é constituída por pessoas maduras, ditas da terceira idade, entre as quais me começo a incluir.

Somos, pois, nós a geração do «baby boomers» que constitui uma grande fatia da sociedade que hoje somos. E, neste correr, uma pergunta me assalta: que é feito dos nossos ideias, dos ideais de juventude, dos nossos valores, da nossa luta, da nossa contestação? Como, e porquê, nos deixámos chegar até aqui?

Emprenhámos, fundamentalmente depois da queda do Muro de Berlim, pela sociedade do consumo; tornámo-nos, com a revolução das TIC (tecnologias da informação e comunicação) mais individualistas, narcisos, acomodados. Deixámo-nos embalar num sonho sem valores e completamente hedonista.

Entretanto os corvos, senhores da alta finança e economia mundial, subterrânea e lentamente, foram-nos “fazendo a cama”. E, quando pensávamos que estávamos vivendo um sonho, acordámos de um pesadelo.

E agora, que fazer?

Está bem à vista que não é com os tecnocratas e com os políticos que enxameiam todas as instituições que criámos ao longo destas décadas que sairemos desta crise. A chave está nas nossas mãos. Aliás, sempre esteve!

E, a este propósito, duas figuras/personalidades do final da minha adolescência e primeira juventude, estão cada vez, no meu espírito, mais vivas. Uma, Luther King, pela luta pela igualdade e dos direitos dos negros norte-americanos. Com ele, e como ele, «devemos ter sonhos». Porque sem sonho não há vida humana que se preze. Nem que, por esse sonho, tal como ele, se tenha de dar a vida! A outra figura é John F. Kennedy, não tanto pelo seu exemplo de vida, mas sim pelo seu simples e fundamental pensamento político quando, em campanha eleitoral para Presidente dos Estados Unidos, dizia aos seus concidadãos: «não pergunte o que o seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país».

Um exemplo de vida e uma lição política que andaram, e ainda andam, tão arredados do nosso pensamento e da nossa ação, durante décadas, perante nós como cidadãos.

Porque, se é certo que a política e os políticos são imprescindíveis nas nossas sociedades democráticas, não menos certo é que, sem uma verdadeira cidadania, com cidadãos verdadeiramente atuantes e participativos (que não só nos momentos eleitorais), não há política digna desse nome.

Confiámos demasiado, e durante muito tempo, num estado provedor do Bem-estar social, deixando-o “engordar” demasiado e ser palco de demasiados protagonistas/oportunistas que dele se serviram (e, infelizmente, ainda servem), enquanto nos acantonávamos numa atitude passiva, reivindicadora apenas de direitos e sem quaisquer preocupações de carácter solidário e cívico, que completassem e suprissem as falhas que um estado que se quis todo omnipresente e omnipotente sempre apresenta e não pode suprir. Os resultados estão bem à vista!

Por isso, há que mudar de rumo. Há que voltar a sonhar que uma outra sociedade é possível. Enquadrando, nos seus devidos termos, o papel que cabe ao estado, às instituições da sociedade civil e aos cidadãos. Num diálogo que se deve fazer com carácter de urgência, mas, simultaneamente, com a necessária e profunda reflexão que o tema e a situação exigem.

IV

E quem fala do papel do estado – ou da sua redefinição – o mesmo se passa com o das autarquias locais.

Não vale a pena voltar a falar da vergonhosa pseudorreforma das autarquias que se quedou, simplesmente, na extinção de algumas freguesias. A este tema, já noutro local - http://zassu.blogs.sapo.pt/2655.html - teci algumas considerações.

Queria agora falar das eleições autárquicas que, a passos largos, se nos avizinham. E gostaria de, a este respeito, formular um conjunto de questões, divididas em quatro temas:

  • Que cidade de Chaves queremos para o futuro, ou seja, com que cidade sonhamos para vivermos e, no futuro, para os nossos filhos? Alguém nos apresentou alguma visão na qual acreditemos e que seja capaz de nos galvanizar e que seja suscetível de nos mobilizar, como flavienses, na sua prossecução? Qual é o discurso reinante dos partidos do arco do poder municipal em Chaves? Promessas? Obras? Empregos? Mas que promessas? Obras para quê e com que dinheiro? E empregos: para quê, com que finalidade, e para quem?

 

  • Falando do mundo rural, parte integrante e essencial da própria natureza flaviense e da sua urbe. Tem sido a nossa ação perante esta parte significativa do nosso território eficaz, no sentido da construção de um mundo rural com efetivo significado para as gentes que nele habitam? Temos a preocupação pela preservação da identidade e da memória de um mundo que foi a razão de ser (e porventura ainda continua a ser) a grandeza da nossa cidade? Que relação intergeracional estabelecemos com as suas gentes? Temos promovido a cidadania ativa e participativa ou, pelo contrário, temos para com estas pessoas uma solidariedade benevolente e pouco promotora da participação da sua população idosa na construção de uma outra comunidade com nítidos proveitos também na construção de uma sociedade flaviense mais dinâmica, quer sob o ponto de vista cultural quer social?

 

  • Que papel efetivo têm, na construção da cidadania e desenvolvimento flaviense, as suas instituições de carácter cultural, recreativo, social, assistencial e económico no concelho? Primam por uma dinâmica própria, autónoma, e as suas ações e atividades refletem o espírito de partilha e de construção de uma sociedade que se quer verdadeiramente livre, democrática e desenvolvida? Ou, pelo contrário, na sua maioria, as suas ações e atividades outra coisa não são mais, ou representam, senão o braço estendido de um poder tentacular assente nos senhores detentores do poder autárquico e, como tal, dependentes política e financeiramente dele?

 

  • Qual é o perfil dos candidatos que estão prestes a se apresentarem a liderar o nosso concelho? São pessoas idóneas, honestas, honradas, competentes e capazes de pôr a sua terra acima dos interesses do seu partido ou dos seus próprios interesses? São pessoas autossuficientes que acreditam, pela sua ação e influência? São seres capazes de, só por si sós, desenvolver e mudar o município? Ou, pelo contrário, são pessoas simples e humildes que acreditam só ser possível a mudança e o desenvolvimento se todos nela participarmos como munícipes/atores e, não passando eles (ou elas), e a sua ação, de uma singela, embora importante, intermediação na construção de uma cidade e de um território municipal feito mesmo por todos?

Eis aqui, pois, um conjunto de questões que, reputo, serem essenciais em termos da dinâmica eleitoral autárquica que se avizinha. Porque estas são as questões que, na minha opinião, são as que importam e são essenciais na hora de escolher um programa (que deve ter necessariamente uma visão e um horizonte credível do que queremos e que, por isso mesmo, desejamos partilhar). Com uma equipa e um (a) líder.

Será nesta linha pela qual se pautará a minha escolha e, consequente, a minha opção…

E acredito – porque ainda não me esqueci daquilo que foram os feitos da geração que me acompanhou no final da minha adolescência e primeira juventude e que me fizeram homem para a vida – que, no palco da cidadania, seja possível corporizar-se uma nova visão, com novos princípios e novos valores que levem a pôr em prática uma nova metodologia de abordagem e de participação democrática na construção de uma sociedade flaviense moderna, mais desenvolvida, justa e equitativa, no contexto e conserto do território nacional, fazendo jus à sua longa e gloriosa história milenar.

Aprendi, ao longo da vida, que ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios. Por isso, hoje – ainda mais que nunca – SONHAR, É PRECISO!...

***

Nota – * Este artigo «Sonhar, é preciso!»  saiu no blog CHAVES, na rubrica Discursos sobre a cidade, a 19 de abril de 2013;

             * Já lá vão 13 anos! Contudo, parece-nos, o seu conteúdo continua atual; melhor dito, redobradamente atual.

 

António de Souza e Silva

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16
Set25

Viver ... a diferentes caminhares

CRÓNICA IV 

VIVER… A DIFERENTES CAMINHARES 

 

SENSAÇÃO


Pelas tardes azuis do verão,

Irei pelas sendas,

Guarnecidas pelo trigal,

Pisando a erva miúda.

Sonhador,

Sentirei a frecura

A meus pés;

Deixarei o vento banhar

Minha cabeça nua.

Não falarei mais.

Mas um amor infinito

Me invadirá a alma.

E irei longe, bem longe,

Como um boémio,

Pela natureza,

- Feliz como com uma mulher.

Arthur Rimbaud

 

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(Cortesia de Pablo Serrano)

Na nave central daquela igreja, Nona teve a sensação que se tinha deslocado ali como se fora uma estrela cadente. Um meteoro.

Ali estavam familiares do defunto (já muito poucos) e seus amigos (também já escassos, pois a idade não perdoa), numa missa de corpo presente.  Simplesmente…

Mas nada do que ali se passava tinha a ver consigo.

Nona não sabia muito bem o que ali estava a fazer. Há muito que tinha deixado de acreditar em certas coisas.  Seria um gesto de solidariedade? Homenagem? Mas, para quem, se seu amigo já não podia ver e sentir? Seu amigo tinha partido.

Com certeza que não era só pelo seu amigo que, dele, nada mais havia, a não ser «os restos» do homem que tinha sido. Sua vida, como a de todos nós, foi uma simples passagem por este planeta. Uma simples passagem, sim. Um caminhar. O seu caminhar. Tão somente. Ali, apenas, recordava os momentos de vida vividos com ele. Solitários e solidários.

E pensou que, afinal, estava ali por ele mesmo. No crepúsculo do amigo, sentiu o seu.

E tal, como J.J. Rousseau, ao chegar aos seus sessenta anos, pensava que não passava de um proscrito: perseguido e mal-amado. Da vida. Pela vida. Muitas vezes madastra.

Mas nada disso o deprimia. Ele assim tinha determinado que assim fosse. Assim se tinha conformado. 

Há muito que virara a página das suas ambições sociais, das amizades cintilantes, equívocas, das modas e dos mexericos.

Optou por uma caminhada diferente, mais solitária. Feita de muitas outras caminhadas, percorrendo outros trilhos. Procurando outras sensações. Sozinho. Afastado do bulício.

E que descanso não ter de verificar todos os dias a sua quota de aceitação social; o calcular quais sejam os seus amigos; o avaliar os seus inimigos; o deixar de avaliar os seus pretensos protetores; o deixar de se medir em importância aos olhos dos outros que, na sua maioria, não passa(va)m de imbecis e vaidosos!

Sim, há muito tempo que Nona tinha deixado de estar aí.

Olhava para a frente e para o lado e só tinha a sensação que estava ali sozinho: todas as suas máscaras, e quiçá a dos outros, tinham derretido ao sol dos caminhos percorridos por cada um. Sim, as dele e as dos restantes.

E, tal como o seu J.J. Rousseau, uma vez mais, nas palavras de Fréderric Gros, na sua obra Caminhar, uma filosofia, constatou que tinha agora nascido em si um ser totalmente «transparente, um lago de compaixão».

As suas longas horas de caminhadas secaram todas as invejas e rancores, tal como fazemos com os lutos ou as grandes mágoas. Mas tal não significava que se lançasse nos braços daqueles seus «amigos» ou «inimigos», que o rodea(va)m. A sua nova vida de andarilho contumaz, por muitas e variadas veredas, trouxeram-lhe um novo estado de alma: não sentia nada em particular pelo «outro» ao seu lado e à sua frente, nem agressividade mesquinha, nem fraternidade comunicativa; apenas, e tão só, «uma disponibilidade benevolente ante a infelicidade».

Quando seus ódios se acalmavam e suas obsessões se extinguiram, por lassidão, chegavam as suas caminhadas; quando já nada resta(va) para fazer ou crer e apenas lembrar, surgiam as suas caminhadas. Caminhar fê-lo reencontrar-se na simplicidade da sua presença; para além de qualquer esperança; para além de qualquer expetativa. Andar não buscando um «eu autêntico, uma identidade perdida», pelo contrário, escapar da própria ideia de identidade; fugir da tentação de ser alguém. Melhor ainda, dar a si mesmo a possibilidade de reinventar-se sempre, na peugada de Henry David Thoreau.

As memórias assumem, no decorrer das suas caminhadas, um aspeto fraternal: são as suas velhas irmãs gastas.

Nona, caminhante solitário, decidiu procurar, sob a crosta da cultura, a verdade nativa das paixões humanas. Em solidão!

Nos tempos de hoje, com o pensamento de J.J. Rousseau, de então, a convocá-lo, a nos convocar, para uma profunda reflexão sobre o homem dito civilizado, saturado de cortesias e hipocrisias, de malvadezes e invejas, que o transformam numa verdadeira besta. A um mundo social com todas as suas injustiças e vivências, suas desigualdades e misérias. Bem assim os Estados, com as suas polícias e exércitos, tal qual selvas. A que tudo submetem.

Hoje, mais que nunca, o Homem, o ser social moderno, é um ser repleto de rancores, raiva, inveja e ressentimento.

Só o caminhar dá a Nona a sensação de ser o senhor das suas imagens e dos seus sonhos. Que traz consigo a doçura do desapego. Porque se limita, simplesmente, a existir.

Até que um dia nos vamos. Simplesmente partimos. Como o seu amigo.

 

António de Souza e Silva

29
Ago25

A leitura como processo de desenvolvimento pessoal e terapêutico

CRÓNICA III

A LEITURA COMO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E TERAPÊUTICO

 

Nona, um personagem que aparece em alguns dos nossos escritos, é um inveterado devorador de livros. Um dia fomos dar com apontamentos retirados da obra de Sandra Barão Nobre – «Ler para viver» e o rascunho de uma crónica que lhe deu o nome - «A leitura como processo de desenvolvimento pessoal e terapêutico». Reproduzamos, em bruto, aquele seu rascunho.

 

 

Nunca tive um desgosto que uma hora de leitura não tivesse dissipado.

Montesquieu

Há homens que passam a vida a viver somente e que nunca existem.

O emprego do tempo é o emprego de si mesmo;

o sábio emprego do tempo é o sábio emprego de si mesmo.

Michel Onfray

 

***

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Sandra Barão Nobre, na obra acima citada diz que Caroline Shrodes defende que o ser humano é o produto da sua experiência de vida global, bem como essa experiência formativa inclui também os livros que leu.

Para nós, humanos, a ficção é tão real quanto o solo sobre o qual caminhamos. Ela é esse solo, afirma.

A literatura ou ficção foi construída para responder às nossas inquietações primordiais e para nos organizarmos socialmente.

Para Michèle Petit, «ler serve para descobrir (…) que o que nos assombra, o que nos assusta, é partilhado por todos».

A leitura de uma história dá ao ser humano a oportunidade para generalizar o que sente, perceber que não é o único a senti-lo, que outros, de outras eras históricas ou de outras culturas, já o sentiram ou ainda o sentem. E isso traz uma consciência que é apaziguadora.

 

FASES OU MOMENTOS DE UM PROCESSO DE LEITURA

De entre outras, apontadas por outros autores, atentemo-nos, fundamentalmente, nestas três fases:

  • Identificação

Segundo Caroline Shrodes, citada por Sandra Barão Nobre, a identificação é genericamente definida como um mecanismo de adaptação que o ser humano utiliza, de forma largamente inconsciente, para aumentar a sua autoestima.

Acresce a tudo isto o facto de a identificação integrar dois movimentos: um de introjeção e outro de projeção — onde o consciente, o inconsciente, o positivo e o negativo se refletem.

As histórias permitem complementar tudo aquilo que na vida cotidiana é impossível de entender ou realizar.

Ainda para Shrodes, as histórias, sendo ao mesmo tempo fantasia e retrato realista do comportamento humano, permitem, paradoxalmente, tanto uma ilusão de distanciamento psicológico como de experiência imediata.

  • Introspeção

O que importa frisar é que o indivíduo que participa num processo de leitura acaba — num determinado momento e a propósito de uma história, espontaneamente ou persuadido pelo mediador ou por outros participantes — por se confrontar consigo mesmo, olhar para dentro de si à luz do que a história lhe traz e proceder a uma forma de autoexame.

Para Hynes e Hynes-Berry, também citados por aquela autora Sandra Nobre, a introspeção é o segundo passo do processo e constitui «uma intensificação» da identificação.

Caroline Shrodes destaca que na relação do ser humano com uma história e no reviver das experiências que esta suscita, a oportunidade para o indivíduo contrapor semelhanças e diferenças, entender emocionalmente e intelectualmente as suas próprias motivações, e as de outras pessoas, e reorganizar a sua perceção de si e dos outros. Para ela, a introspeção é produtiva quando permite ao indivíduo perceber mais claramente a realidade.

A introspeção é um recuo que o ser humano realiza para dentro de si mesmo após a leitura, narração ou dramatização do objeto literário. A decisão de mudança ou não de comportamento é posterior à história, às vezes vários dias, pois o sujeito fica como que digerindo o que acabou de constatar.

Um processo de leitura bem-sucedido implica experienciar um momento de identificação que espolete a introspeção. Expressões como: libertação de tensões e emoções, válvula de escape, purgação, prazer ou apaziguamento são frequentes por parte daquele que lê uma obra.

  • Catarse

Impõe-se, na relação entre a identificação e a introspeção, um terceiro elemento que elas tornam possível e que surge como incontornável: a catarse, como uma libertação de emoções vividas pelo ser humano na interação com a música, a poesia e a tragédia, graças a «uma identificação solidária com o herói trágico», ou, como ainda afirma Shrodes, graças a «uma identificação bem-sucedida entre o apreciador e a criação do artista». O resultado desta libertação — do que é estranho, do que perturba e do que corrompe o ser humano — é um estado de serenidade.

A catarse serve para a libertação de «tensões e ansiedades».

 

A LEITURA COMO INSTRUMENTO DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E TERAPÊUTICO

A nossa autora Sandra, citando Marc-Alain Ouaknin, afirma que o homem não tem sentido, é ele (homem) que se atribui um sentido. O mundo também não tem sentido, é o homem que vai dar-lhe um sentido. Assim, a interpretação não é um jogo supérfluo e a fúria de interpretar é uma fúria de viver. O homem está condenado a interpretar, porque só assim consegue atribuir sentido à sua existência e ao mundo que o rodeia.

Pela interpretação, o ser humano abre-se ao que é novo, a novas formas de percecionar, interpretar e narrar a sua própria vida. Há uma oportunidade para aprofundar o autoconhecimento, para se reinventar e se renovar.

Nancy Huston, Maurice Meleau-Ponty, Michael Gazzaniga e Lamberto Maffei afirmam que o ser humano tem uma compulsão para a compreensão e atribuição de sentido a tudo o que experiencia. Esta compulsão tem na base a observação, o pensamento e a interpretação incessante mediados pela linguagem da palavra.

Toda a leitura implica um fenómeno de interpretação (sublinhado nosso).

Ao interpretar um texto ou uma história, o leitor reinventa-o, transforma-o, abre um espaço para a compreensão de si mesmo (vimos o poder catártico da identificação e da introspeção) e cria a oportunidade para abraçar a transformação.

Mas um texto ultrapassa sempre as intenções do seu autor, e a sua riqueza é maior que o conjunto das estratégias textuais a que o autor possa recorrer. As intenções do autor e do texto deixam de coincidir. O que diz o texto importa mais do que aquilo que o autor quis dizer. O texto é então estrutura e sentido orientados para o leitor. É o nível da compreensão subjetiva e existencial. O que se procura compreender não é a intenção do autor, mas o efeito do texto sobre o leitor que recebe e se apropria do sentido. Um sentido que, como vimos no ponto anterior, não procura ser verdadeiro, mas justo, em função da experiência de vida do leitor e da sua plataforma de conhecimento.

Ouaknin também citado por aquela autora Sandra, diz que cuidar do ser humano é reinseri-lo «numa temporalidade harmoniosa onde o futuro vai buscar forças ao passado, e a memória dá asas à esperança». Esse é o papel das histórias e da leitura: primeiro, porque a leitura impõe a necessidade de uma pausa no caos rotineiro, exige um intervalo; depois, porque essa clareira permite que o poder da história que lemos se manifeste: suscita e apazigua emoções, resgata memórias, induz associações diversas com a nossa experiência de vida, conduz a extrapolações — logo a imaginar, a levantar novas hipóteses, a descortinar outras perspetivas, a abrirmo-nos aos outros e a outras formas de ser e de agir, num constante renascimento, numa constante transfiguração.

A jornalista Laure Adler após a morte de um filho, encontrou na leitura uma tábua de salvação: «Sei que o livro, ao trocar o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narração, me ajudou a recuperar o fôlego e a avistar um futuro

Para Ouaknin, «o primeiro momento da doença é o enclausuramento, a impossibilidade de sair para além de si mesmo: autarcia e autismo. A cura é passagem, viagem e metáfora, saída de si, modalidade de ser dinâmica».

Ainda no entender de Ouaknin, a leitura põe em movimento a identidade do ser humano porque «a literatura oferece novas possibilidades de ser no mundo dentro da realidade quotidiana».

Através das histórias, continua aquele autor, acedemos a «propostas plurais de papéis, de personagens, de situações, de intrigas» que têm potencial para abrir brechas na imagem que o indivíduo tem de si mesmo e imaginar outras formas de ser. A imaginação e a narrativa permitem criar diversos projetos (de vida), para quem «o homem existe na sua capacidade de poder ser de outra forma». E Ouaknin argumenta que «devemos fazer um desvio (…) pela palavra do outro para escutar o eco das nossas próprias palavras. Não se trata da utilização do outro, mas da força do encontro e do diálogo. A narrativa do outro homem vem fraturar-me, abrir-me a outra dimensão do mundo e de mim mesmo. Encontrar a palavra do outro pode conduzir-me a mim mesmo».

É o diálogo do leitor com a história (que lê, ouve ou vê dramatizada); o diálogo consigo mesmo (pela introspeção) e o diálogo do leitor com o livro ou outros participantes nas atividades de leitura. Para além disso, o diálogo assenta na linguagem da palavra: as palavras que compõem a história; as palavras com as quais o(s) indivíduo(s) alvo do processo de leitura se expressa(m); as palavras que o leitor vai ler e/ou escutar ativamente e acolher com respeito.

A palavra e o diálogo são determinantes para o cuidado e a transformação do ser humano.

A prática da leitura é um parêntese na rotina diária, uma oportunidade para pôr em pausa a agitação, o excesso de solicitações, as preocupações, as distrações, a híper estimulação e até o entorpecimento que a vida contemporânea acarreta.

Abraçar novas perspetivas, novas atitudes, novas formas de pensar e agir; sentir-se acolhido, entendido pelos personagens das histórias; a partir daí, recuperar o alento, reforçar a autoestima, sentir-se harmonizado, com uma capacidade renovada para continuar a cuidar de si e dos outros e encarar os desafios do quotidiano de forma saudável. Tudo isto é, para mim, e de acordo com as minhas palavras, o que define a prática de uma boa leitura.

Leitura na perspetiva de Franz Kafka quando afirma que só devemos ler o tipo de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos a ler não nos acorda com uma pancada na cabeça, porque o lemos?

 

A LEITURA COMO REMÉDIO

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Façamos uma rápida referência a um dos livros da vida da autora, Sandra Barão Nobre, (e também nosso). Procuremos na sua farmácia literária a obra de Leo Tolstoi – A morte de Ivan Illicht.

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Podemos considerá-lo como um livro remédio para o leitor, porquanto, a partir deste curto romance, temos o ensejo de abordar temas, como refere Sandra Nobre, como o sentido da vida, a busca de significado, a identificação do propósito para esta curta passagem pelo planeta, o autoconhecimento e a autoestima, o papel das convenções sociais e a pressão destas sobre a natureza de cada um, o tomar das rédeas da própria vida, a capacidade de decidir, a assertividade, a felicidade.

 

APELO

Temos imensa pena, de acordo com o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística, em 2022, quando constatamos que 58,1% dos portugueses, com 16 ou mais anos, não tenha lido um único livro nos 12 meses anteriores àquela auscultação. O número é claro: a maioria dos portugueses não lê.

Não somos, infelizmente, um povo leitor.

Desprezando o ensejo que uma boa leitura nos pode propiciar, dando largas à nossa imaginação inventiva e criadora, na maior parte do tempo, não passamos de um povo doente, enfermo, que lança sobre os outros o veneno das suas frustrações e fracassos, invejando tudo e todos.

Não é por acaso que a obra maior, que consagramos na nossa lusitaneidade – Os Lusíadas - acaba com a expressão “ter inveja”.

Devemos sair do nosso casulo da mesquinhez e aventurarmo-nos, como os portugueses de antanho, mar adentro, numa nova gesta de ser português nos tempos desafiantes que nos esperam. Paremos de criticar e ter inveja dos outros. Debrucemo-nos sobre nós próprios, cultivemo-nos, abramos os olhos para um mundo e uma sociedade cada vez mais complexa e, por isso mesmo, mais desafiante.

Não façamos como os políticos da nossa praça que, à pequena contrariedade e fracasso, abandonam o barco e se lançam à conquista das premissas dos eldorados cobiçados por esse mundo fora, deixando-nos a chafurdar no pântano que eles também ajudaram a criar, lançando-nos no lamaçal em que hoje vivemos.

Leiamos atentamente o que nos relata António Granja na sua obra Grande aventura [Cenas da Grande Guerra]:

“[…] Conta-se que um oficial francês que, tendo ficado feridos ou mortos sob um bombardeamento quase todos os seus homens, e tendo os poucos ilesos procurando uma fuga, ao ver a primeira vaga inimiga, trepara ao parapeito, e, na transfiguração épica que dão as grandes horas, comandara:

- Mortos, a pé!

E os feridos levantaram-se, as metralhadoras começaram a crepitar e o assalto foi repelido.

Parece haver muitos portugueses que trazem dentro de si os corações mortos.

A nossa vida parece estar já nos nossos olhos para nos odiarmos, e nos nossos lábios para caluniarmo-nos.

Aos homens que na África e na Flandres afrontaram a morte compete saltar para o parapeito [saírem das suas covas] e gritar a esses corações: Mortos, a pé!” (Granjo, 1919: capítulo ‘Por Portugal’), para que o Portugal por que «sonhamos» se cumpra!

 

António de Souza e Silva

 

28
Ago25

Ser normal

 

CRÓNICA

SER NORMAL

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(Imagem retirada de «https://br.pinterest.com/pin/447756387952095531/»)

Conheceram-se aquando a criação da Associação Lumbudus, de Fotografia e Gravura. Pablo, galego adotado, vindo da Estremadura espanhola; Anton, de alma duriense, mas de coração flaviense.

Une-os a extrema bonomia de Pablo e o entusiasmo de Anton para lhe ouvir as suas histórias de vida; o gosto pela fotografia e o caminhar pela natureza galaico-portuguesa. Não há cantinho de Trás-os-Montes e da Galiza que não tenham calcorreado. Deles fazendo história e contando as suas histórias. Algumas delas no antigo blog do andarilho Anton – Andarilho de Andanho(s).

Num dos seus encontros, nas caminhadas que fazem, por estes recantos de Trás-os-Montes e da Galiza, um dia, presenciei-lhes a seguinte conversa:

- Pensar demasiado nas «coisas», nos «problemas» nem sempre é a abordagem ou a atitude mais certa, meu caro Anton. Criam obsessão. É necessário o espaço de tempo para que tudo flua. À força de tanto pensarmos, acabamos por ficarmos perturbados por essas mesmas coisas e problemas. E para quê, quando a vida é tão curta e não está nas nossas mãos a mudança para um comportamento ou estilo de vida que achamos ser o mais normal para os nossos, para quem amamos?

Carpe diem, já dizia o latino Horácio. É a melhor atitude a ter e assumir perante a vida, tão curta que é!

Deixemo-nos de questionar se esta ou aquela pessoa é, ou não é, normal. Tal como Sarah Chaney defende na sua obra - As pessoas normais não existem!

As pessoas que nunca puseram em causa a sua sanidade mental estão iludidas. Positivamente, não há pessoas normais!

O que hoje é normal deixará de o ser amanhã, e vice-versa, apontou já Émile Durkheim.

E, a propósito de algo que aflige muita gente de certas famílias quanto às pessoas borderline, leiamos Alexander Kriss na sua obra – Borderline (Biografia de uma perturbação de personalidade), que, a páginas tantas, diz:

A perturbação borderline toca-nos a todos. É normal, mas isso não a torna uma identidade. É um sítio de passagem, não de paragem; um ponto intermédio no trajeto para o autoconhecimento; um reconhecimento da experiência universal do sofrimento e da maneira como as relações nos moldam.»»»

O poder para definir normal é um dos maiores poderes concedidos a qualquer figura de autoridade. Os pais criam expectativas do que os filhos deviam esperar do mundo; os líderes políticos determinam quais os problemas sociais que são toleráveis e quais os que necessitam de ser enfrentados; os médicos e os terapeutas decidem quem é chamado de doente e quem é chamado de saudável. A PPB (Perturbação da Personalidade Borderline) – tanto a sua história como as inúmeras pessoas que sofrem dela hoje em dia – é a prova viva de como este poder corrompe. A alteração desta realidade não pode apenas ocorrer no consultório do terapeuta: exige uma reconsideração mais ampla de como tentamos afastar as realidades do sofrimento humano e do abuso – como clivamos, estigmatizamos, medicalizamos, fazemos o que podemos para negar a psicose que nos une, para preservar um rígido sentido de normal".

- Tens razão, Pablo. Na verdade, não existe nenhum normal. Ou, se existir, está sempre a mudar e engloba não só felicidade e força, mas também dor e desintegração. A PPB, devido ao seu estatuto de milhares de anos como uma exceção, pode ensinar-nos a sermos um tipo saudável de normal, se estivermos dispostos a escutar. É a história de como nos movemos do caos para a estabilidade; de uma mundivisão a preto-e-branco para uma mais complexa; de uma vida definida pelo desespero para uma definida por um sentido de quem somos.

No fim de contas, na peugada de Sarah Chaney, cada um de nós deve-se perguntar:

- Serei normal?

- Bem, sim e não. Mas será essa, em última análise, a pergunta certa a fazer?

 

* António de Souza e Silva

05
Mar24

Versejando com imagem - Amendoeiras em flor, de Carla Bordalo

VERSEJANDO COM IMAGEM

AMENDOEIRAS EM FLOR

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Quem quererá desfrutar destas flores

P´las terras do Douro em rio que corre?

Deslumbre de aromas encantos de odores

Salpicos de rosa, em branco que envolve!

 

Jardim fascinado germina em amores

Em braços teus, Princesa recolhes,

Tamanha beleza de adorno e cores…

Expandes alvuras em sonhos que acolhes.

 

Pureza da Beira, em teu branco nascer;

Alegres de orla, em teu rosa crescer;

Fascinados por ti… em teu esplendor.

 

Encantas nas linhas, viagens tecer;

Frescos jardins … deixai-nos morrer,

Cativados por ti… Amendoeira em Flor!

 

Carla Bordalo

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24
Mar23

Versejando com imagem - As frores do meu amigo, de Pai Gomez Charinho

VERSEJANDO COM IMAGEM

AS FRORES DO MEU AMIGO

Knarr-

 

As frores do meu amigo

briosas van no navío

E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

As frores do meu amado

briosas van eno barco!

E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

 Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

Briosas van no navío

pera chegar ao ferido.

 E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

 Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

Briosas van eno barco

pera chegar ao fossado.

 E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

 Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

Pera chegar ao ferido,

servir mí, corpo velido.

 E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

 Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

Pera chegar ao fossado,

servir mí, corpo loado.

 E van-se as frores

d'aquí ben con meus amores!

Idas son as frores

d'aquí ben con meus amores!

 

Pai Gomez Charinho

 

20
Mar23

Versejando com imagem - Ua pastora se queixava, de D. Dinis

VERSEJANDO COM IMAGEM

UMA PASTORA SE QUEIXAVA

William+Adolphe+Bouguereau+-+small+shepherdess+

Ua pastor se queixava

muit' estando noutro dia,

e sigo medês falava

e chorava e dizia

com amor que a forçava:

par Deus, vi-t' en grave dia,

ai amor!

 

Ela s' estava queixando,

come molher con gram coita

e que a pesar, des quando

nacera, non fôra doita,

por en dezia chorando!

Tu non és se non mia coita,

ai, amor!

 

Coitas lhi davam amores,

que non lh' eran se non morte,

e deitou-s' antr' uas flores

e disse con coita forte:

Mal ti venha per u fores,

ca non és se non mia morte,

ai, amor!

 

Dinis

Nota geral

Pastorela na qual o trovador, descreve, apenas como espetador (sem nunca intervir), as reações de uma pastora apaixonada. O retrato é o de uma donzela lamentando-se e chorando, até porque pouco habituada a mágoas de amor, e que acaba, prostrada, por se deitar «entre umas flores».

19
Mar23

Versejando com imagem - Ai amiga, semprr'havedes sabor, de Pero Mafaldo

VERSEJANDO COM IMAGEM

AI AMIGA, SEMPR’HAVEDES SABOR

images

Ai amiga, sempr'havedes sabor

de me rogardes por meu amigo

que lhi faça bem; e bem vos digo

que me pesa, mais, já por voss'amor,

farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei

quant'el quiser, pero bem lhi farei.

 

Vós me rogastes mui de coraçom

que lhi fezesse bem algũa vez,

ca me seria mesura [e] bom prez,

e eu, por vosso rogo e por al nom,

farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei

quant'el quiser, pero bem lhi farei.

 

Rogastes-mi, amiga, per bõa fé,

que lhi fezesse todavia bem

por vós, e, pois vós queredes, convém

que o faça, mais, pois que assi é,

farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei

quant'el quiser, pero bem lhi farei.

 

Pero Mafaldo

 

Nota geral

Dirigindo-se a uma amiga, a donzela mostra-se disposta a ceder aos seus constantes pedidos no sentido de deixar de tratar mal o seu amigo e de o favorecer de algum modo. Assim, por amor desta sua amiga, ela irá fazer bem ao seu amigo, mas não tanto quanto ele quiser.

In – Cantigas Medievais Galego-Portuguesas 

17
Mar23

Versejando com imagem - Cantiga de amigo, de Vasco Fernandez Praga de Sandin

VERSEJANDO COM IMAGEM 

 CANTIGA DE AMIGO

original

 Cuidades vós, meu amigo, ca vos nom quer'eu mui gram bem,

e a mi nunca bem venha, se eu vejo no mundo rem

 que a mi tolha desejo

de vós, u vos eu nom vejo.

 

E, maca'lo vós cuidades, eno meu coraçom vos hei

tam grand'amor, meu amigo, que cousa no mundo nom sei

que a mi tolha desejo

de vós, u vos eu nom vejo.

E nunca mi bem queirades, que mi será de morte par

se souberdes, meu amigo, ca poss'eu rem no mund'achar

que a mi tolha desejo

de vós, u vos eu nom vejo.

Vasco Fernandez Praga de Sandin

VASCO-FERNANDEZ-PRAGA-DE-SANDIN

Nota geral

Sabendo que o seu amigo pensa que ela não o ama, a moça sossega-o: não há nada no mundo que lhe consiga tirar o desejo que dele tem.

VASCO FERNANDEZ PRAGA DE SANDIN ( Portugal )

Trovador de origem galega (talvez originário de Parga, na atual província de Lugo), radicado em Portugal. Citado nas inquirições de 1258 como possuindo bens da região de Guimarães, Vasco Fernandes Praga deveria ter já uma idade relativamente avançada na época, como refere Resende de Oliveira (uma vez que um seu cunhado, Vasco Martins, já tinha netos nessa altura). O seu período de atividade deverá ter decorrido, portanto, na primeira metade do século XIII (o que coincide com a colocação das suas cantigas nos cancioneiros.

16
Mar23

Versejando com imagem - Que nunca sal da pousada, de Gil Peres Conde

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

QUE NUNCA SAL DA POUSADA

leighton-god_speed

Quem nunca sal da pousada

pera ir em cavalgada

e quitam come mesnada

del-rei ou de Dom Fernando,

ai Deus, aquesta soldada

se lha dam por aguilhando?

 

Quem nom tem aqui cavalo

nem alhur, nem quer comprá-lo,

e quitam come vassalo

del-rei ou de Dom Fernando,

ai Deus, pois mandam quitá-lo,

se lha dam por aguilhando?

 

Quem nunca troux'escudeiro

nem comprou armas d'armeiro,

quitam come cavaleiro

del-rei ou de Dom Fernando?!

Ai Deus, tanto bom dinheiro

se lho dam por aguilhando?

 

Gil Peres Conde

 

Nota geral

Nova cantiga contra os cavaleiros oportunistas. Aqui o remoque de Gil Peres Conde dirige-se a um deles que, não se apresentando nem se armando como devia, não deixava, mesmo assim, de receber pagamento, ou soldada. A ironia reside sobretudo na curiosa expressão popular do refrão que refere essa soldada, se lha dam por aguilhando, expressão que remeterá para os donativos concedidos em determinadas festividades (e que talvez possamos entender como o nosso atual "bodo aos pobres").. É também percetível uma crítica velada, se não ao rei, pelo menos aos seus funcionários administrativos.

Pelas referências feitas ao Infante D. Fernando, primogénito de Afonso X, a composição terá sido certamente composta entre 1268, ano do seu casamento, e 1275, ano da sua morte.

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