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zassu

20
Mai22

Versejando com imagem - Que aziago que fui, que dia infausto, de António Dinis da Cruz Silva

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QUE AZIAGO QUE FUI, QUE DIA INFAUSTO

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Que aziago que foi, que dia infausto

Aquele, em que vi tua formosura!

Em que cheio de amor e de ternura

Esta alma te ofertei em holocausto!

 

Teus olhos m'o fizeram ter por fausto,

Teus belos olhos cheios de doçura,

Mas logo me fez ver minha loucura

Teu peito de rigores nunca exausto.

 

Ai! e quão mesquinho é, quão desgraçado

Aquele, que como as mostras vão se engana

De um angélico rosto sossegado!

 

Pois mil vezes encobre a vista humana

Qual áspide cruel florido prado,

Um coração uma alma desumana.

 

António Dinis da Cruz e Silva, in 'Antologia Poética'

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17
Mai22

Versejando com imagem - Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados, de Filinto Elísio

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UNS LINDOS OLHOS, VIVOS, BEM RASGADOS

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Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,

    Um garbo senhoril, nevada alvura;

    Metal de voz que enleva de doçura,

    Dentes de aljôfar, em rubi cravados:

 

Fios de ouro, que enredam meus cuidados,

    Alvo peito, que cega de candura;

    Mil prendas; e (o que é mais que formosura)

    Uma graça, que rouba mil agrados.

 

Mil extremos de preço mais subido

    Encerra a linda Márcia, a quem of'reço

    Um culto, que nem dela inda é sabido:

 

Tão pouco de mim julgo que a mereço,

    Que enojá-la não quero de atrevido

    Co' as penas, que por ela em vão padeço.

 

Filinto Elísio, in "Sonetos"

14
Mai22

Versejando com imagem - Cegueira de amor, de Nicolau Tolentino

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CEGUEIRA DE AMOR

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Fiei-me nas promessas que afetavas

Nas lágrimas fingidas que vertias,

Nas ternas expressões que me fazias,

Nessas mãos que as minhas apertavas.

 

Talvez, cruel, que, quando as animavas,

Que eram doutrem na ideia fingirias,

E que os olhos banhados mostrarias

De pranto, que por outrem derramavas.

 

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo

Os meus tristes amores mal seguros,

De amar-te nunca, nunca me arrependo.

 

Ainda adoro os olhos teus perjuros,

Ainda amo a quem me mata, ainda acendo

Em aras falsas, holocaustos puros.

 

Nicolau Tolentino, in «Antologia Poética»

11
Mai22

Versejando com imagem - Os porquês do amor, de José Anastácio da Cunha

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OS PORQUÊS DO AMOR

VI - Os porquês do amor

Céu, porque tão convulso e consternado

Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?

Porque pasma entre os beiços congelado,

Indo a falar-lhe, o tímido conceito?

 

Porque nas áureas ondas engolfado

Da caudalosa trança, inda que afeito,

Me naufraga o juízo embelezado,

E em ternura suavíssima desfeito?

 

Porque a luz dos seus olhos, tão ativa,

Por lânguida inda mais encantadora,

Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?

 

Porque da mão nevada sai tão viva

Chama, que me eletriza e me devora?

Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!

 

José Anastácio da Cunha

08
Mai22

Versejando com imagem - Lira I, de Tomás António Gonzaga

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LIRA I

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Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

que viva de guardar alheio gado,

de tosco trato, de expressões grosseiro,

dos frios gelos e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal e nele assisto;

dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

das brancas ovelhinhas tiro o leite,

e mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela.

graças à minha Estrela!

 

Eu vi o meu semblante numa fonte:

dos anos inda não está cortado;

os Pastores que habitam este monte

respeitam o poder do meu cajado.

Com tal destreza toco a sanfoninha,

que inveja até me tem o próprio Alceste:

ao som dela concerto a voz celeste

nem canto letra, que não seja minha.

Graças, Marília bela.

graças à minha Estrela!

 

Mas tendo tantos dotes da ventura,

só apreço lhes dou, gentil Pastora,

depois que o teu afeto me segura

que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

de um rebanho, que cubra monte e prado;

porém, gentil Pastora, o teu agrado

vale mais que um rebanho e mais que um trono.

Graças, Marília bela.

graças à minha Estrela!

 

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de amor igual tesoura.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Tomás António Gonzaga

Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).

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05
Mai22

Versejando com imagem - Feito na cerca de Chelas, de Marquesa de Alorna

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FEITO NA CERCA DE CHELAS

     (primeiro soneto composto pela Marquesa de Alorna)

2021.- Parque dos Poetas (Oeiras) (130)

(Escultura de Marquesa de Alorna no Parque dos Poetas - Oeiras)

 

Deitei-me sôbre a fresca relva um dia,

E dando a um sono leve alguns instantes

C’os prazeres sonhei, que lá distantes

Debuxava a estragada fantasia.

 

Saturno vagaroso me trazia

Um diadema de lúcidos diamantes,

Entramado de mirtos odorantes,

O qual Cípria na fronte me cingia.

 

A Fortuna risonha se mostrava,

Mas no disco da roda vacilando,

Voltando-a, me levou quando eu sonhava.

 

Já Délio para os mares ia olhando,

E Bóreas, que raivoso murmurava,

M’acordou, como dantes, suspirando.

 

Marquesa de Alorna

03
Mai22

Versejando com imagem - A cidade bela, de José Agostinho de Macedo

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A CIDADE  BELA

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Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata

Dos sete montes seus ao longe a vista!

Das altas torres, pórticos soberbos

Quanto é grande, magnífico o prospeto!

Humilde e bonançoso o flavo Tejo,

Sobre areias auríferas correndo,

As praias lhe enriquece, as plantas beija.

Quão denso bosque de cavalos pinhos

Sobre a espádua sustenta! Do Oriente

Rubins acesos, fugidas safiras,

E da opulenta América os tesouros,

Cortando os mares líquidos, trouxeram.

Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta

De mais sereno azul. O Sol brilhante,

Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.

E quase se suspende, e, meigo, envia

Sobre ela o raio extremo, quando acaba

A lúcida carreira, a frente de ouro

No seio esconde das cerúleas ondas.

 

José Agostinho de Macedo, in 'Antologia Poética'

01
Mai22

Versejando com imagem - Terra, de Francisco Joaquim Bingre

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TERRA

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Ó Terra, amável mãe da Natureza!

Fecunda em produções de imensos entes,

Criadora das próvidas sementes

Que abastam toda a tua redondeza!

 

Teu amor sem igual, sem par fineza,

Teus maternais efeitos providentes

Dão vida aos seres todos existentes,

Dão brio, dão vigor, dão fortaleza.

 

Tu rasgas do teu corpo as grossas veias

E as cristalinas fontes de água pura

Tens, para a nossa sede, sempre cheias.

 

Tu, na vida e na morte, com ternura

Amas os filhos teus, tu te recreias

Em lhes dar, no teu seio, a sepultura.

 

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'

28
Abr22

Versejando com imagem - Já Bocage não sou! à cova escura

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JÁ BOCAGE NÃO SOU!... À COVA ESCURA

Bocage-1

Já Bocage não sou!... À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento...

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

 

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento.

Musa!... Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

 

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

Outro Aretino fui... A santidade

Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

 

 Manuel Maria Barbosa du Bocage

25
Abr22

Versejando com imagem - Barca Bela, de Almeida Garrett

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BARCA BELA

Barca Bela

(Fonte:- Páginas sem poesia)

 

Pescador da barca bela,

Onde vais pescar com ela.

Que é tão bela,

Oh pescador?

 

Não vês que a última estrela

No céu nublado se vela?

Colhe a vela,

Oh pescador!

 

Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela...

Mas cautela,

Oh pescador!

 

Não se enrede a rede nela,

Que perdido é remo e vela,

Só de vê-la,

Oh pescador.

 

Pescador da barca bela,

Inda é tempo, foge dela

Foge dela

Oh pescador!

 

Almeida Garrett, in «Folhas Caídas»

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