Segunda-feira, 1 de Junho de 2015

Grande Guerra (1914-1918) - 39

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

3.5.- O Armistício

 

A 5 de outubro, um novo impulso Aliado, fez recuar, em desordem, as unidades alemãs para as derradeiras posições antes do armistício. Animicamente destroçados, os soldados alemães, renderam-se aos milhares.

As populações belgas e francesas regressaram aos seus territórios ocupados, aclamando entusiasticamente os exércitos libertadores.

A situação interna na Alemanha estava a deteriorar-se rapidamente. No dia 28 de outubro de 1918, os marinheiros da base naval de Kiel sublevaram-se perante o receio de que os comandos da marinha de guerra quisessem utilizá-los numa operação suicida de afundamento dos seus navios, quando era de domínio público que a guerra não poderia ser ganha. Os marinheiros revoltosos provocam a morte de diversos oficiais. A 5 de novembro, por todo o país, formam-se conselhos de soldados e operários, enquadrados pelo partido socialista independente.

A impossibilidade de ganhar a guerra, depois da grande ofensiva de Ludendorff na primavera de 1918, leva a que a cúpula militar alemã, detentora de todo o poder durante a guerra, tivesse de ceder terreno.

A Alemanha foi a última das Potências Centrais a solicitar o fim das hostilidades aos Aliados. De entre as razões que se apontam para tal gesto foi a queda a pique do moral das suas tropas; o pleno esgotamento da sua população civil; o esgotamento dos recursos económicos para continuar a beligerância; o perigo da invasão do seu território pelas tropas Aliadas; o perigo e/ou receio do deflagrar de uma revolução social, a exemplo da Rússia. A Alemanha caiu pelo esgotamento, não por que o seu exército tivesse sido derrotado pelo inimigo numa ação militar decisiva ou definitiva, pese embora a sua contínua retirada, principalmente na Frente Ocidental.

O presidente norte-americano Woodrow Wilson recusa-se a negociar o cessar das hostilidades enquanto não estivessem realizadas as reformas políticas necessárias e elementares para democratizar o país.

A 9 de novembro, face à gravidade da situação, o kaiser aceita renunciar ao trono da Alemanha e da Prússia, para si e seus herdeiros, e exila-se na Holanda. Toda a realeza do império alemão renuncia.

No mesmo dia, a 9 de novembro, o chanceler Max de Baden transferiu os seus poderes para o líder socialista Friedrich Ebert. Enquanto, em Berlim, Scheidemann, ministro social-democrata, proclama a República nas escadarias do Reichtag, o ministro do Negócios Estrangeiros, Erzberg, desde 7 de novembro, na floresta de Champiègne, em Rethondes, negoceia com o marechal Foch e o almirante britânico Rosslyn Weymss, os termos da capitulação alemã.

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O armistício aceitava os Catorze Pontos de Woodrow Wilson, assim descriminados:

01.- Abolição da diplomacia secreta;

02.- Liberdade dos mares;

03.- Eliminação das barreiras económicas entre as nações;

04.- Redução dos armamentos nacionais;

05.- Redefinição da política colonialista, levando em consideração o interesse dos povos colonizados;

06.- Retirada dos exércitos de ocupação da Rússia;

07.- Restauração da independência da Bélgica;

08.- Restituição da Alsácia-Lorena à França;

09.- Reformulação das fronteiras italianas;

10.- Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria;

11- Restauração da Romênia, da Sérvia e de Montenegro e direito de acesso ao mar para a Sérvia;

12.- Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo do povo da Turquia e abertura permanente dos estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo;

13.- Independência da Polônia;

14.- Criação da Liga das Nações, ou Sociedade das nações.

Para além destes pontos, um dos aspetos imediatos do armistício, aceite pelos alemães, em 11 de novembro de 1918, foram:

  • Repatriamento de todos os prisioneiros;
  • Evacuação dos territórios invadidos, incluindo os que os alemães ocuparam a leste, após Brest-Litovk;
  • Evacuação da margem esquerda do Reno pelos exércitos alemães;
  • Proibição de destruir caminhos-de-ferro e estradas;
  • Reparação das regiões devastadas, como minas, condutas de água, etc.;
  • Restituição dos objetos roubados durante a guerra;
  • Direito de requisição em terreno ocupado;
  • Entrega de 500 canhões e 25 000/30 000 metralhadoras, 5 000 peças de artilharia e três mil morteiros de trincheira;
  • 1 700 aviões;
  • 10 couraçados;
  • 6 cruzadores de combate (Grosser Kreuzer);
  • 8 cruzadores ligeiros;
  • 50 contratorpedeiros;
  • Rendição de todos os submarinos alemães;
  • Restituição de 5 000 locomotivas e 15 000 vagões;
  • Etc..

Pela discussão à volta do conteúdo do armistício, estas últimas cláusulas eram mais ditadas pela vontade dos franceses que dos britânicos e americanos, vistas à luz das primeiras propostas de Wilson. Mas Ferro (2008) diz que, de certa forma, até eram benignas, se tivermos em conta as devastações causadas nos territórios franceses e belgas bem assim as suas perdas humanas, bem mais pesadas do que entre os dois Aliados. Se bem que a questão das indemnizações de guerra seria uma questão a tratar posteriormente, ficou, contudo, aqui bem patente as diferenças de posições que mais tarde as duas delegações iriam patentear aquando da discussão à volta do Tratado de Paz de Versalhes: ou seja, nem americanos nem ingleses desejavam uma “paz de castigo que pudesse ressuscitar o espírito de desforra” (Ferro, 2008: 275).

E alguns autores opinam e interrogam-se como, na altura, nomeadamente Poincaré, não se apercebeu da vantagem necessária de o inimigo se sentir mesmo derrotado, levando a guerra até ao seu próprio território e mesmo, em 11 de novembro, não tiveram sequer a ideia de destruir o seu potencial industrial ou de controlar a sua economia. Diz Marc Ferro: “Estes militares concluíram «um armistício entre soldados». A Europa e a guerra tinham entrado na era industrial, eles continuavam a ignorá-lo e, quais cavaleiros medievais em pleno século XX, julgavam que uma nação desarmada era uma nação vencida” (2008: 275). E continua o autor: Assinado o armistício, os vencedores descobriram, sob a capa de um povo submisso, uma nação encolerizada. Desde 1914 que os Alemães tinham conseguido manter inviolado a Vaterland, ocupando ainda três quatros da Bélgica, Mézières e Rriey no dia do armistício. Durante mais de quatro anos, as tropas imperiais tinham acampado em território inimigo e destruído as suas forças vivas. Haviam perdido uma batalha mas, exceto em alguns setores da retaguarda ou da frente, nem os civis nem os militares tinham o sentimento de ter perdido a guerra”.

Era este também o «estado de alma» de um Aliado: em Berna, Sir Horace Rumbold, que tinha estado em serviço na embaixada em Berlim em 1914, também estava preocupado por os alemães fazerem a paz demasiado cedo. “«Seria lastimoso», escreveu ao ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, a 14 de outubro de 1918, «se parássemos antes de os esmagarmos por completo na Frente Ocidental. Devemos persegui-los no seu maldito país pois será a única forma de eles e a sua população saberem o que significa a guerra»” (Gilbert, 2007: 704).

O historiador britânico Hew Strachan também tem a mesma visão quando diz: “«Quando depôs as armas [a Alemanha] ainda ocupava profundas posições no território inimigo em todas as frentes, não se tinha penetrado na sua frente nem se tinha conseguido cercá-la, portanto, não se manifestou nenhuma das características que uma derrota operativa no campo de batalha compreende»” (citado pelo Canal da História, 2013: 358). Por outro lado, não se sentindo totalmente vencidos, a propaganda de guerra e a vitória na frente oriental reforçavam a aura de invencibilidade daquelas tropas. Por isso, não admira que, a 11 de dezembro de 1918, as tropas alemãs que desfilaram pela avenida berlinense Unter den Linden fossem recebidas e saudadas pelo novo chanceler que lhe proferiu as seguintes palavras: Saúdo-vos, a vós que haveis regressado invictos do campo da batalha». Refere Canal da História (2013: 359) que a princesa Blücher, de origem inglesa mas casada com um aristocrata prussiano visse homens a desfilar que “«usavam coroas de louro verde sobre os capacetes de aço, todas as espingardas levavam o seu pequeno ramalhete de flores, as metralhadoras estavam enfeitadas com ramos verdes, e junto a eles havia meninos sentados agitando bandeiras de alegres cores»”.

Perante este cenário e estado de espírito, não espanta assim que o historiador alemão Hagen Schulze afirme que “«a primeira democracia alemã não nasceu da própria força dos partidos políticos e do parlamento, mas sim como última saída de um Estado-Maior desesperado [...] O mito da punhalada à traição, que deveria envenenar posteriormente a vida pública da República de Weimar, teve aqui a sua origem»” (Canal da História, 2013: 359).

Neste sentido também vai a opinião de David Martelo: “A rápida derrocada da estrutura militar germânica - sem que se tivesse registado uma estrondosa derrota numa batalha de grandes dimensões - lançou no seio da população a semente que faria germinar a tese da «punhalada nas costas», tão cara aos movimentos nacionalistas que não tardariam a agitar a Alemanha” (Afonso; Gomes, 2013: 478).

A Grande Guerra teve a duração de quatro anos e três meses. Os contendores mobilizaram no total mais de 65 milhões de homens.

A 11 de novembro, na carruagem que transportava o marechal Foch, era assinado o Armistício que punha fim, às 11 horas desse dia, à Grande Guerra.

Tinha-se descerrado o pano do 1º ato da tragédia. Ia-se para o intervalo até que começasse o 2º ato.


publicado por zassu às 20:29
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