Sábado, 2 de Maio de 2015

Grande Guerra (1914-1918) - 11

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

III

PENSANDO NA GUERRA, ELABORANDO PLANOS

 

 

Tudo o que temos agora é a guerra do povo

e qualquer governo prudente hesitará

em provocar uma guerra desta natureza

com todas as suas consequências incalculáveis.

 

1890, Helmuth von Moltke, O Velho,

in: Föster, «Facing People’s War», pp. 223-224,

(citado por MacMillan, 2014: 348)

 

Como anseio pela Grande Guerra!

Varrerá a Europa como uma vassoura,

fará saltar as coisas como grãos

de café a torrar.

 

Hilaire Belooc, in Stromberg,

“The Intelectual and the Coming War in 1914”,

Journal of European Studies, Vol. 3, nº 2, 1972, pág. 109

 

Assim como a ética do calvinismo tinha produzido o capitalismo,

a ética da nobreza tinha produzido o prussianismo.

 

(Venner, 2009: 52)

 

 

1.- O «lastro facilitador» da mentalidade e ofensiva militarista e nacionalista

     (Mudança social, novas ideias, medos e tensões)

 

Quando olhamos para a sociedade dos finais do século XIX e inícios do século XX, é por demais notório, que um novo mundo se tinha formado, com uma fé incontida no progresso, mercê dos avanços científicos e tecnológicos.

Simultaneamente, teremos de reconhecer, também, a persistência e a força das mais antigas formas de pensar e ser.

Se bem que, principalmente no mundo urbano, palpitava uma nova e exuberante sociedade, aberta, dinâmica, mais laica, e empreendedora (mas nem tudo parecia um mar de rosas), milhões de europeus, contudo, viviam em comunidades rurais, reproduzindo a mesma forma de viver dos seus antepassados. “A hierarquia e conhecimento do lugar que cada um tinha nela, o respeito pela autoridade, a crença em Deus ainda moldavam o modo como os europeus percorriam suas vidas. Na verdade, sem a persistência de tais valores, é difícil imaginar como é que tantos europeus podem ter marchado deliberadamente para a guerra em 1914” (Mac Millan, 2014: 320).

Apesar da existência de jornais e de outros meios de comunicação nascentes, não existia, de uma forma generalizada, uma opinião pública suficientemente forte, capaz de debater, em profundidade e serenidade, os grandes problemas com que a sociedade dos finais do século XIX se confrontava.

Não admira que as decisões - encaminhando a Europa para a Grande Guerra - tenham sido tomadas por um surpreendente pequeno número de pessoas, fundamentalmente oriundos das classes mais elevadas da sociedade, “tanto da aristocracia fundiária como da plutocracia urbana” (MacMillan, 2014: 320).

E as decisões que esses líderes tomaram - tanto civis como militares - refletem não só o seu mundo, as suas esperanças, como também os seus medos e angústias, porque inquietos relativamente a uma sociedade perante a qual não estavam habituados a lidar, resultante da industrialização, das revoluções científicas e tecnológicas, de novas ideias, atitudes e valores, que punham constantemente em causa a sociedade em que nasceram e foram criados. Porventura reside aqui a chave para a compreensão de uma Europa que se entendia como forte e poderosa mas cuja «agitação», muitas vezes, não souberam controlar.

Medos (e angústias) que agitaram, por todo o lado, a sociedade. Não só pelo fascínio da irrupção do irracional, das emoções e do sobrenatural, mas também de novas e contraditórias mundivisões. Veja-se, a propósito, a influência que, de um modo especial, as ideias de Friedrich Nietzche

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e Henri Bergson

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tiveram na opinião pública, em especial junto da geração mais jovem.

Não espanta, neste contexto, que a sociedade antes de 1914, fosse agitada, irrompendo nela os movimentos mais contraditórios, desde a fé no progresso e na paz duradoura até aos nacionalismos e ao recrudescimento do terrorismo, que apregoava a sociedade ocidental com corrupta e decadente e que deveria ser atirada ao lixo, para o caixote da História.

Não raro se ouviam vozes dizendo que “os homens [...] estavam a ficar mais fracos, e até efeminados, [e que] no mundo moderno os valores masculinos e a força já não eram valorizados. [...] A prosperidade e o progresso estavam, temia-se, a infligir danos à espécie humana e a tornar os jovens menos aptos para a guerra” (MacMillan, 2014: 334). Dai, temas com a homossexualidade, a ascendência das mulheres na sociedade, a virilidade e o decréscimo da fertilidade, preocupando o futuro da sociedade europeia, eram tratados recorrentemente.

O aparecimento da obra de Oswald Spengler (O Declínio do Ocidente)

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 e as ideias de Herbert Spencer

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criaram terreno fácil para a expansão do darwinismo social. Embora, como muito bem diz Margaret MacMillan, o darwinismo social “não [tivesse] qualquer base científica [reforçava, contudo,] as teorias racistas”. [Os darwinistas sociais] “presumiam em geral que os seres humanos não eram uma única espécie mas uma variedade delas a que, confusa e alternadamente, chamavam «raças» ou «nações». A confusão tornava-se ainda maior devido ao facto de nem ser claro se estava a ser descrito um tipo de pessoas ou uma unidade política, como um estado. Outra dificuldade residia em determinar que nações estavam a ascender na escala da evolução e quais as condenadas à extinção” (MacMillan, 2014: 337-338).

Este darwinismo social, identificando características culturais (como língua ou a religião) com aspetos biológicos (cor da pele e traços fisionómicos) deu um forte impulso, melhor, reforçou, as diferentes correntes nacionalistas.

Como era de esperar, continua Margaret MacMillan “o darwinismo social encontrava eco junto dos militares, porque parecia justificar e, na verdade, aumentar a importância da sua profissão, mas também influenciava o pensamento dos civis, fossem eles escritores, como Zola, líderes políticos, como Salisbury, ou empresários, como Rathenau” (MacMillan, 2014: 338).

Destas posições, até ao aparecimento de uma forte mentalidade e atitude militarista, poucos passos faltavam dar. A posição do general austríaco Conrad - cuja atuação foi tão decisiva no eclodir da Grande Guerra -, citado por Margaret MacMillan, é particularmente significativa, quando afirma que “«um povo que depõe as armas sela o seu destino»” (MacMillan, 2014: 338).

Nesta linha de pensamento, não é de estranhar a ideia expressa, há muito por Hobbes, (entre outros), e entretanto muito em voga, quando afirmava que as relações internacionais não eram mais do que um interminável jogo de intrigas entre nações para obterem maiores vantagens; e, para esse fim ou luta, a guerra era bem esperada, e até bem-vinda.

O nacionalismo era encarado como unanimidade patriótica. “Para os combatentes franceses, ingleses ou alemães, não havia equívocos: a guerra tinha como objetivo a salvaguarda dos interesses reais da nação” (Ferro, 2008: 20). Ferro afirma que “na Europa, cada nação tinha, assim, o sentimento de ser vítima de catástrofes e de estar rodeada de inimigos que lhe invejavam a prosperidade, o desenvolvimento e mesmo a existência. [...] O sentido patriótico tornava-se uma das formas da reação coletiva da sociedade face aos fenómenos originados pela unificação económica do mundo” (Ferro, 2008: 24). Noutro passo, afirma que “é um facto que o conflito global das duas coligações teve a sua origem nas rivalidades imperialistas, mas os combates singulares que opuseram as nações uma por uma respondiam a uma outra necessidade, a uma tradição enraizada no mais fundo da consciência dos povos. Cada um deles pressentia que estava ameaçado na sua própria existência pelo inimigo hereditário. Para todos, o conflito obedecia assim a uma espécie de rito fatal, o que explica o carácter de luta, de «vida de morte», um aspeto que a natureza imperialista desta guerra não explicaria” (Ferro, 2008: 24). Positivamente, segundo este autor, in ob. cit., “para o francês, ou alemão, 1914-1918, foi um combate de bravos, tão claro e evidente como as cruzadas, a defesa da mãe, o combate pela fé ou a luta de classes. Nenhum raciocínio podia dominar este instinto coletivo” (Ferro, 2008: 24). O revanchismo francês, o pan-eslavismo russo ou o nacionalismo jugoslavo, propugnado pela sérvia, eram apenas algumas das manifestações, embora não exclusivas destes países.

Nacionalismo que dava cada vez mais protagonismo ao militarismo. Militarismo posto no pináculo da sociedade. E que leva, de uma forma cada vez mais acentuada, a uma acentuada postura militarista, entre estados e nações, bem assim das suas forças armadas - impondo o sentido da honra, dos valores militares, como a disciplina, a ordem, o autossacrifício e a obediência -, subalternizando os poderes da sociedade civil, criando um «caldo» verdadeiramente explosivo.

A dada altura, Margaret MacMillan, afirma “mestres escolas, escritores, generais ou políticos [preparam] psicologicamente uma geração para a Grande Guerra, [inculcando nesses jovens e cidadãos, desde tenra idade], valores militares como parte de uma tentativa de contrariar os efeitos prejudiciais do mundo moderno e deter o declínio da nação” (MacMillan, 20124: 352).

Mas, como diz Marc Ferro, ainda que a escola “ensine o futuro da ciência e a fé no progresso, a massa dos cidadãos do século XX não participa nos assuntos públicos. A democratização das instituições, durante os decénios precedentes, não foi mais que uma ilusão e as reformas quase nada mudaram” (Ferro, 2008: 16). Pese embora o aumento da escolaridade, em particular nos centros urbanos, os novos jornais, destinados às massas, os romances e a literatura de cordel outra coisa não mostravam ou faziam sonhar, às classes médias e baixas, entediadas e com vidas desinteressantes, senão outros mundos, alternativos, arrebatadores e excitantes. A construção da cidadania estava ausente.

Na opinião de Marc Ferro, estamos perante uma sociedade bloqueada em que para além de “crer, de beber, de jogar às cartas ou de ler crónicas [...] só restava uma dupla saída: a fuga ou a revolta ou, se preferirmos, a revolução ou a emigração” (2008: 17). A guerra, nesta sociedade sem saídas, representava também uma escapatória, uma libertação. Os jovens que inicialmente partiram para a guerra iam “felizes por mudar de vida, por viajarem, tendo todos respondido ao apelo do dever e estando todos convencidos de que irão voltar em breve, coroados com os louros da vitória” (Ferro, 2008: 21).

Apenas uns poucos - e estes em vão, com pouca ou nenhuma eficácia -, como de seguida se verá, previam as suas consequências.

Infelizmente, no tempo por que se passava, pouco ou nada se sabia, em termos de grande opinião pública, sobre o que a nova guerra seria.

Estamos, assim, de acordo com Margaret MacMillan e Marc Ferro, quando põem em causa, por cabal falta de provas, que tenham sido somente as rivalidades económicas que levaram ao eclodir da Grande Guerra. A História e a Sociedade devem ser vistas numa perspetiva holística...

 


publicado por zassu às 17:14
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