Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

Desencontro(s) - Cena 6:- Francisco de Magalhães Pizarro verus Francisco da

FRANCISCO DE MAGALHÃES PIZARRO VERSUS FRANCISCO DA SILVEIRA

(Ou do «herói» versus o «traidor», ou «cagão»)

 

Já há uns meses que tio Nona não aparecia por Santa Isabel, na casa de sua irmã mais velha, e usufruir daquela linda paisagem, que ele tanto gosto, vista do terraço de casa, e que se tem para a Régua e seus arredores.

 

Nos contatos esporádicos, via telemóvel, que tenho com ele, vejo-o muito entusiasmado com as suas caminhadas, agora mais para os lados da fronteira entre Chaves e Verín. Diz-me que são caminhadas de preparação para o Caminho Inglês de Santiago, o último dos principais Caminhos de Santiago que lhe falta fazer. Mas, cá para mim, aquilo já é um vício.

 

Telefonou-me a 23 de Agosto passado a avisar-me para aparecer por Santa Isabel no dia a seguir, dizendo-me que, com mais dois amigos, virando agora de agulhas para sul, ia fazer uma caminhada por aquilo a que apelidou de «Por terras de afeto do escritor e médico João de Araújo Correia». O traçado já estava, mais ou menos, delineado: Covelinhas, Galafura, Lugar da Estrada, Vila Seca de Poiares, Poiares, Canelas do Douro, fazendo uma incursão às ruínas da «villa» romana do Alto da Fonte do Milho e, depois descendo, regressar a Covelinhas.

 

Pedia-me para que lhe obtivesse o maior número de informação possível sobre cada uma das localidades e lugares por onde íamos passar, embora me fosse adiantando que já tinha feito alguma pesquisa para que nada se lhe escapasse. Tio Nona sempre foi muito meticuloso e organizado. E continua sendo. A páginas tantas, perguntou-me:

 

- Olha lá, o General Silveira, o tal das Invasões Francesas, não é também natural de Canelas do Douro tal como o nosso João de Araújo Correia? A família ainda tem por lá terras e haveres?

 

Fiquei de me informar para lhe satisfazer a curiosidade.

 

Na noite do dia 24 de Agosto, tal como combinado, lá apareci em Santa Isabel. Como sempre a tia Liu, já um pouco acabadita, não só pelo peso dos anos mas também pelo mal de que padece, que infelizmente tem suportado estoicamente, recebeu-me com aquele ar de felicidade, como a lembrar os velhos dias de outrora em que aquela casa se enchia de convivas e ficava repleta de alegria.

 

A maior parte dos dias de Agosto deste ano correram tórridos. E aquele dia 24 não foi exceção. O que nos salvava é que, metido o sol, aquele terraço da casa com aquelas espetaculares vistas, era o lugar ideal não só para descanso como para contemplação, charlas, tertúlias, confidências, enfim, conversas, em que, algumas delas, acaba(va)m em acesa discussão (ões). Contudo, por mais incrível que pareça, tudo na maior paz. Os durienses são assim: tanto brigam, berram e se zangam como tão depressa os vemos agarrados, sentidos, aos braços uns dos outros! A terra assim os fez…

 

 

Ora, sem ter qualquer vontade de polemizar, nem tão pouco, de me arreliar, o certo é que acabei por entrar numa conversa – que não passou mais que um desabafo, dado o tio Nona apenas me ouvir, paciente e impavidamente – acesa acerca de Canelas do Douro e do seu filho da terra, General Silveira. Queria dar ao tio toda a informação que me havia solicitado sobre as localidades referidas e, como bom aluno que me prezo de ter sido, mantendo ainda hoje essas qualidades, procurei recolher tudo para lhe dar.

 

Através da pesquisa que fiz no Google, acabei por dar com um blog, que dá pelo nome “CHAVES”, de um tal sujeito chamado Fernando DC Ribeiro e que, num dos posts, falava sobre o General Silveira. Como se sabe, o General Silveira, como militar, por causa das Segundas Invasões Francesas em Portugal, está muito ligado a Chaves. Tanto assim que, as suas gentes, a uma das Praças ou Jardins mais emblemáticos da cidade que, no dia-a-dia, o/a apelidam «das Freiras», por ali ter existido um convento de freiras, transformado depois em Liceu e agora Escola Secundária, a batizaram oficialmente como Praça General Silveira. E, muito recentemente, em 2009, em frente ao Forte de São Francisco, implantaram, por ocasião das comemorações do bicentenário da Invasões Francesas em Portugal, uma escultura e um painel-mural alusivos ao evento, com o oficial de cavalaria Silveira, em pose, em cima da sua montada.

 

Por isso foi com verdadeiro espanto e, porque não dizê-lo, alguma indignação, quando, li o post daquele blog, de 18 de Março de 2009, com o título «O muro da vergonha do General Silveira», sito no sítio da internet http://chaves.sapo.pt/370327html.

 

 

Quem ler atentamente aquele texto dará conta de que o autor começa por afirmar que é injusto que tal personalidade (a do General Silveira) tenha uma praça com o seu nome em Chaves e, agora, uma escultura, que lhe chama «boneco», em frente ao Forte de São Francisco, acompanhada de um painel-mural, como disse, alusivo às Segundas Invasões Napoleónicas em terras flavienses.

 

Fundamenta a sua posição o ter aprendido no Liceu de Chaves, edifício, entre outros, que delimita aquela praça, que a história tem sempre várias versões. E, com base neste postulado, apresenta a sua. Sem indicação das fontes; sem falar da autenticidade das mesmas e, quando, por ventura, contraditórias, apresentar o seu confronto para daí se poder, fundamentadamente, extrair uma ou várias conclusões, se porventura possíveis…

 

Não sei quem foi o (a)  seu (sua) professor (a) de História, mas, se tal é como ele diz, o (a) mesmo (a) também não fica muito bem na fita. Ou então o «menino», na altura bem precisava de um bom «puxão de orelhas», por manifesta cabulice. Porque naquela altura tais procedimentos eram bem tolerados, ninguém levava a mal e a maioria dos pais até agradecia… É certo de que se tratava de uma pedagogia, um tanto ou quanto, pouco «ortodoxa» para os dias de hoje em que ao aluno quase se lhe não pode tocar, por manifesta violência e agressão física, criando-se, desta feita, e muitas vezes, um clima na sala de aula em que, agora ao contrário, o (a) aluno (a) quase pode fazer tudo. Oh tempus, oh mores!

 

Mas continuando. Para o senhor Fernando DC Ribeiro, «o Silveira», é assim como lhe chama, que de grande até tinha muito pouco, ficou muito mal na fotografia da época para o povo de Chaves. E justifica o seu juízo de valor pela circunstância de, ao ver as tropas francesas, reconhecer que era impossível opor-se-lhe à sua marcha sobre Chaves, mandando, assim, retirar as nossas tropas do posto de observação de Outeiro Seco, mantendo embora o tenente-coronel Pizarro em Vilarelho da Raia, e retirando-se ele para o alto de Santa Bárbara, em Ventuzelos, São Pedro de Agostém porque «tremeram-lhe os tins-tins». Para este autor, e pela parte portuguesa, mesmo tendo em conta a desproporcionalidade das forças no terreno; a sua fraca preparação; o equipamento obsoleto e as infraestruturas militares, como os dois fortes, muito degradados para aguentarem com alguma consistência uma ofensiva, “«o Silveira» foi um cobarde ao não fazer frente ao inimigo”.

 

 

Seria bem útil que Fernando DC Ribeiro tivesse alguém na família com conhecimentos de tática militar e que o elucidasse sobre estratégia. E porventura não diria tantos dislates se tivesse mais em conta aquele ditado que reza: «não vá o sapateiro além do chinelo». Porque também não estou a ver o «nosso homem» com vocação para santo que, à força de amar tão fervorosamente a sua terra, prefere morrer «gloriosamente» do que a ver ser tomada pelo inimigo!...

 

Felizmente que não pensamos todos da mesma maneira e, naqueles tempos tão conturbados, política e socialmente, com a Corte no Brasil, com uma tropa totalmente desorganizada, e entregues ao comando militar supremo de generais ingleses, a preocupação do tal «Silveira», mantendo, obviamente, o grande objetivo de derrotar o inimigo, foi, por todos estes fatos, poupar forças e proteger os civis – as populações – da fúria assassina da tropas francesas. Não se armando num D. Quixote qualquer!

 

Que pena, na altura, o conto infantil de D. Caio, com o dito do alfaiate «eu cá mato sete de uma vez» não estivesse em moda! Possivelmente, então, as criticas que hoje alguns flavienses fazem ao General Silveira tivessem algum cabimento.

 

É, assim, com base nas suas teses, que Fernando DC Ribeiro começa por tecer loas ao seu verdadeiro «herói» - o tenente-coronel Pizarro que, à revelia das ordens do seu chefe militar “adere à causa do seu povo flaviense, ficando a comandar as tropas que restavam para defesa de Chaves”.

 

 

No final do seu post, Fernando DC Ribeiro pergunta: ”Que é feito da justa homenagem aos flavienses e ao tenente-coronel de Infantaria 12, Francisco Homem de Magalhães Pizarro, que, sozinhos, e quase sem armas, fizeram apenas com a sua valentia frente aos franceses!?”

 

E venceram? Como se sabe, a história conta outro desfecho!...

 

Não tenho pessoalmente nada contra o então tenente-coronel de Infantaria 12, Francisco Homem de Magalhães Pizarro. Apenas constato duas coisas: a primeira, como militar desobedeceu a uma ordem do seu superior; a segunda, a sua atitude só pode ser entendida no contexto social extremamente complicado da época, em que imperava a falta de ordem, a lassidão e constantes convulsões. O tenente-coronel Pizarro, sendo natural de uma aldeia do concelho de Chaves (na circunstância Bóbeda, da freguesia de São Pedro de Agostém), deixou-se levar mais pela emoção, acirrada pela populaça, do que pela obediência e racionalidade e sangue-frio que um militar, com a sua patente, nestas ocasiões e num campo de guerra, deveria ter.

 

Estou, assim, mais de acordo com o General Augusto César Ribeiro de Carvalho quando, num artigo que fala sobre «A Defesa de Chaves em 1809», conclui, a propósito do julgamento a que foi sujeito o militar Francisco Homem de Magalhães Pizarro por ter desobedecido às ordens do seu superior:

 

A leitura da sentença que acabamos de transcrever, agora que já vão passados tantos anos sobre os factos a que ela se refere, podendo portanto ser desapaixonadamente apreciados, dá a impressão de que o conselho de guerra, quer pelos antecedentes militares, na verdade honrosos do tenente-coronel Pizarro, quer por outras circunstâncias que só os coevos poderiam conhecer se achava benevolentemente inclinado a favor do acusado e mal impressionado com a severa acusação do general Silveira.

Evidentemente, este, achando-se o inimigo já em território português e a poucos quilómetros da praça que todos julgavam indefensável, não podia nem devia comprometer a segurança das tropas que comandava demorando-se em Chaves, com resultado incerto, a dominar e submeter a populaça amotinada e as tropas insubordinadas. O dever do tenente-coronel Pizarro era segui-lo, em vez de fazer causa comum com os que se achavam em rebeldia contra o legítimo chefe.

A sentença poderá, pois, ter sido juridicamente bem fundamentada, mas sob o ponto de vista disciplinar, achando-se o país em estado de guerra, não pode deixar de considerar-se pouco conforme com as conveniências militares.

Confirmando-a, o marechal Beresford, tão severamente rigoroso em questões de disciplina, mostrou mais uma vez a sua má disposição contra o general Silveira de cujos talentos militares foi sempre muito cioso” (Revista Aquae Flaviae, nº 39, Janeiro de 2009 – As Guerras Peninsulares II, páginas 101 e 102).

 

 

Mas porque a versão do General Ribeiro de Carvalho, Ilustre Flaviense para o nosso Fernando DC Ribeiro pode estar eivada de uma opinião contorcida e ser errónea quanto aos fatos que aqui nos interessam, tal como Francisco Teixeira Homem, neto de Francisco de Barros Cabral Teixeira Homem, da Casa de Samaiões, (e que, segundo dizem, em Samaiões poucas vezes pôs os pés) que, quando se refere à obra daquele General «Chaves Antiga», diz tratar-se de “uma obra desconexa, incompleta, com lacunas imperdoáveis eivada de erros e crivada de afirmações históricas menos verdadeiras, apesar de, em grande parte, copiadas dos trabalhos de Argote, Santiago, Guerra, Leite de Vasconcelos, Viterbo, Fernão Lopes, Souza, Conde de Ericeira, Pinheiro Chagas e Cohen. (…) faltando bibliografia quase em absoluto, obrigando-nos a crer (…) e por ai adiante”, conforme refere daquilo que leu das críticas que seu avô fez aquela obra no jornal Era Nova, dos anos 30 do século passado (ver comentário no sitio da internet – http://chaves.blogs.sapo.pt/318881.html), à cautela, fui à procura de outros autores, com porventura outras fontes, para não cair nos mesmos erros em que Fernando DC Ribeiro caiu.

 

E, compulsando a Revista Aquae Flaviae, nº 42, de Junho de 2010, dou conta de um artigo com o título «A Invasão de Soult e a Reconquista de Chaves aos FrancesesUma análise operacional», do autor Abílio Pires Lousada, tenente-coronel do Exército, Mestre em Estratégia e Pós-Graduado em História Militar, sendo professor de História Militar do Instituto de Estudos Superiores Militares. Este especialista em História Militar, a páginas 59 e 60 daquele referida revista, diz:

 

Ao retirar para Chaves, talvez Silveira pensasse «entrincheirar-se» na vila, barrando assim o itinerário francês na sua invasão em direcção ao Porto. Mas, se o chegou a pensar, rapidamente a ideia foi abandonada. As fortalezas não ofereciam condições para uma defesa sustentada, as peças de artilharia de sítio eram insuficientes e militares capazes de as guarnecerem também não abundavam. Ao invés sobrava o ânimo exaltado das massas populares que, à medida que tomavam conhecimento do desenrolar dos acontecimentos, afluíam a Chaves bramando «morte aos jacobinos». Mas, do mesmo modo de afrontar Soult na várzea constituía um erro táctico, combatê-lo a partir das muralhas da vila representava um suicídio. Conhecedor do comportamento francês perante a resistência portuguesa, Silveira percebeu que o melhor era os residentes manterem uma atitude passiva e os militares abandonarem a vila, para evitar chacinas. E foi esse o conselho que passou aos seus conterrâneos, na pessoa do governador, Coronel João de Sousa Silveira Magalhães. Enquanto este compreendeu a gravidade da situação, os populares apuparam o Brigadeiro de traidor”.

No calor desta minha exposição, e no manuseamento das provas documentais que ia apresentando ao tio Nona, este, a certa altura, com a maior das calmas – e porque tudo quanto lhe estava a dizer poe ele já há muito havia sido assimilado, diz-me:

 

- Reina uma certa tendência provinciana entre nós, transmontanos e alto durienses, de dizemos mal uns dos outros. Os de Chaves não podem ver os de Vila Real e os da Régua, e vice-versa. Cada qual quer ser o melhor e tudo fazem para deitar abaixo o outro. Ora, todos somos poucos para criarmos um outro Trás-os-Montes (e Alto Douro). No meio desta espécie de «guerrilhas», entre o norte e o sul, todos ficamos a perder, vencendo, depois e muitas vezes, os oportunistas, portadores de uma qualquer posição. Não sabemos apreciar e, consequentemente, cultivar a nossa história e os nossos maiores, obviamente sempre de uma forma crítica e fundamentada. Hás muita gente que se julga como os maiores, os reis deste reino. Estas lutas, que não são de agora, a todos nos empobreceu e empobrece. Vivemos, assim, num reino cujo rei, há muito tempo, deixou de ter coroa. Porque a verdadeira realeza constrói-se com o esforço comum, de todos. Sem querelas inúteis. Com uma visão de futuro. E uma vontade firme de mudança, construindo, na diferença, e em unidade, a nossa mais-valia para a construção de um outro Trás-os-Montes. Enquanto todos quisermos a mesma «vaca», todos ficaremos a perder. Mas outros lucrarão connosco! Lembras-te daquela parábola que vem no Evangelho a propósito dos irmãos e dos vimes? É um bom exemplo a seguir…

 

(Augusto Santos) Zassu


publicado por zassu às 19:00
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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

Encontro(s) - Cena 12:- A Noite das Bruxas em Montalegre

 
 

A NOITE DAS BRUXAS EM MONTALEGRE

 

 

13. Setembro. 2013

 

 

Não acredito em bruxas, embora os nossos amigos espanhóis/galegos digam que elas existem, existem… (“no creo en brujas, pero que las hay, las hay”).

 

Nem tão pouco em feiticeiras, embora, alguns seres (principalmente femininos) possuam elixires e fórmulas de «encantamento» suscetíveis de nos porem doentes ou de nos curarem dos males de amor.

 

Julgo não ser nada supersticioso. Por isso, não sou muito dado a manifestações «puras» deste calibre. Assim como também não vou muito em carnavais. São tudo manifestações que, embora respeite, não entram abertamente na minha índole pesada de capricórnio.

 

Posto isto, não admira ter ido ou sequer participado nos eventos que, em Montalegre, a partir de 2002, ali têm sido levado a cabo – a Noite das Bruxas, em todas as sextas-feiras que coincidam com o dia 13.

 

Simplesmente, desde aquele ano, e até à presente data, este evento deixou de representar uma simples comemoração do dia 13, sexta-feira, passando a ser um fenómeno que foi muito para além das representações de bruxaria e feitiçaria e esconjuros. Ou seja, passou a ser um fenómeno com contornos antropológicos e sociológicos. A matriz fundacional está subjacente, contudo, numa sociedade de massas e globalizada, passou a ter mais duas vertentes: de cultura (de massas) e comercial.

 

E a partir, suponho, deste pressuposto, a edilidade montalegrense, e porventura o seu comércio local, têm feito uma aposta na comemoração desta data.

 

E está bem escolhida a terra. Perto de uma serra mítica – o Larouco – que foi palco, em tempos que já se perderam na bruma dos tempos, de deuses pagãos. E, embora aqui, tenha entrado o cristianismo, nunca as suas populações, de geração em geração, se esqueceram dos seus velhos e ancestrais deuses pagãos e de todas as superstições que, quer com a cultura castreja, quer com os celtas, lhes andam associadas.

 

Não espanta, por isso, que em tão boa hora tenha surgido um homem que, profundo conhecedor do seu povo e amante das suas tradições, tenha, subtilmente, feito a simbiose entre um certo passado e o presente. Não matando, de todo, aquele e, revitalizando, este.

 

Talvez aqui, por artes de encantamento, tenha aproveitado uma tradição ancestral e, revitalizando-a, a projetou para o futuro como um momento de valia cultural e social, no contexto de uma sociedade rural, interior, a necessitar de um novo desígnio, uma nova visão, capaz de projetar esta terra em termos de desenvolvimento, via a um futuro mais próspero e desenvolvido.

 

Padre Fontes é, pois, a alma deste evento ao qual a edilidade de Montalegre e, porventura, os seus comerciantes e residentes, lhe dão corpo.

Bem hajam os montalegrenses por tão bem saberem utilizar esta oportunidade!

 

De uma comemoração que começou por umas escassas centenas de pessoas, hoje Montalegre, nesta data, é demasiado pequena para receber tanta gente.

 

Há, assim, que repensar a forma de encarar e por em prática este evento, aliás como outros que, com certa projeção local, regional, nacional e, porque não dizê-lo, em certo sentido, internacional, que por aqui se vão realizando, como, nomeadamente, a Feira do Fumeiro, em Montalegre, e o Congresso de Medicina Popular, em Vilar de Perdizes.

 

Desde logo nos espaços envolventes ao centro urbano, dando-lhes qualidade de aparcamento suficiente para uma acolhida condigna, conjugando esses «criados» espaços urbanos em perfeito equilíbrio com o espaço natural envolvente. Que os tem e são tão belos!

 

Depois o centro urbano propriamente dito. Deve ser muito mais cuidado. Quer nos seus arruamentos, quer nas suas fachadas. Que devem ser típicas e devem evidenciar toda uma história medieval que lhe está associada, acrescentado a valia de autênticas obras de arte em arquitetura que deem a esta vila um outro «ar», o de que sabe bem o que quer, inserindo-se corretamente no século XXI em que vive.

 

E não nos podemos esquecer do seu comércio, em geral, e da restauração e hotelaria, em especial. Se a valência turística é aquela em que Montalegre está apostando, e forte, deve, pois, nesta vertente, ter especial cuidado. É certo que estas coisas não se fazem de um dia para o outro – levam muito tempo -, mas, plagiando outros, ontem já é tarde!

 

Queria agora referir em especial cinco pontos ou temas que, para além dos já referidos, penso que, com eles, se deve ter especial atenção.

 

O primeiro tem a ver com a animação de rua. Sinceramente gostaria de ver mais grupos locais, de Montalegre, Barroso, a serem eles os verdadeiros anfitriões dos forasteiros/turistas que nestes dias visitam Montalegre. Não sou contra os outros grupos. Queria apenas chamar a atenção para o entusiasmo e dinamismo das instituições locais na vivência e por em prática das tradições folclóricas, musicais e teatrais que mais os identificam.

 

Em segundo lugar – a organização. Sei que o ser barrosão se compagina com uma certa desorganização. Muitos até veem nela a sua singularidade. Devemos, contudo, primar pelo profissionalismo, em sabermos fazer bem-feitas as coisas!

 

Em terceiro lugar, o local do espetáculo –rei da noite e respetivo esconjuro – o Castelo. Há que repensar toda a sua envolvente. Aquele relvado, e a forma como estão dispostos os equipamentos para o espetáculo multimédia e pirómano, já não chega para, em segurança, comportar tantos milhares de pessoas. E não me parece difícil redimensionar aquele espaço. Há que valorizar de um outro jeito (em diálogo com o IGESPAR) toda a envolvente do Castelo, criando condições para a instalação de equipamentos fixos polivalentes, evitando instalações, de momento, a «troixe-moixe», de mamarrachos que, para esta ocasião, ali colocam. Até porque aquele Castelo bem merece! Como um ambiente de passeio, convívio; como de uma verdadeira praça pública se tratasse, aproveitando, por outro lado, a sua posição como um extraordinário miradouro.

 

Em quarto lugar – o espetáculo-rei. É bom que cada sexta-feira, dia 13, traga um tema diferente ao palco do Castelo de Montalegre. Que, aqui, possam atuar os mais diversos grupos e as mais diferentes correntes e tendências artísticas. Afinal a Noite de Bruxas é um evento que já ultrapassou as fronteiras do Alto Tâmega e Barroso! Por isso, fico deveras triste que, enquanto o espetáculo –rei e o respetivo esconjuro não se realiza, principalmente entre as 21. 30 horas e as 23, toda aquela assistência que vem chegando, ou das suas localidades ou dos diferentes restaurantes e tendas onde deram largas à degustação da gastronomia local, sentada em pleno relvado, apenas assista à projeção de simples e pobres «slides» alusivos ao mundo da bruxaria, acompanhada, quase exclusivamente, de uma música cafona e extraordinariamente brejeira, para não dizer de mau gosto, a roçar o pornográfico. Alguns poderão dizer que o povo gosta. Também no tempo dos romanos os circos promoviam toda aquela selvajaria, atrocidades e mortandades! E o povo também gostava… Mas quanto estamos hoje longe do «panis et circenses» do Império romano! Um espetáculo oferecido pela edilidade, para além da parte essencialmente lúdica, não deve deixar de lado (conter) algo (também) de informativo e formativo. Eu gostaria que Montalegre aproveitasse esta ocasião para, em espetáculos multimédia, dar a conhecer, a todos quantos a visitam neste dia, toda a riqueza das suas tradições e história. Da sua vila. Das suas freguesias. Das suas aldeias. Da sua extraordinária natureza. Das suas gentes – mulheres e homens extraordinários ao longo do tempo. Porque, assim, e ali, todos se podem orgulhar daquilo que são, da identidade que transportam, perante os milhares de forasteiros/turistas que ali vão. Sem tibiezas, temor ou vergonha daquilo que foram e são! E todos ficarão mais enriquecidos: uns, reforçando a sua identidade própria; outros, conhecendo um pouco mais do Portugal que somos!

 

 

Finalmente o último tema. Que, porventura, à partida poderá ser encarado com algum «melindre» e que, obviamente, tem a sua delicadeza. Mas creio estar à vontade para falar do assunto e tenho a certeza que serei bem interpretado pela pessoa de que vos vou falar. Amiúdo, oiço afirmar que a Noite das Bruxas é do Padre Fontes. Enquanto assistia ao espetáculo, todos, à minha volta, ansiavam pela vinda do Padre Fontes para «fazer o esconjuro». Ora, em bom abono da verdade, a Noite das Bruxas não é do Padre Fontes. Padre Fontes é uma grande personalidade do Barroso: um grande barrosão! E, entre as suas muitas iniciativas, a Noite das Bruxas é da sua paternidade. Contudo, a partir de certa altura, o filho, a filha aqui neste caso, deve seguir, com os seus próprios pés, o seu próprio caminho. Como bom pai, e enquanto puder, deve estar presente e participar em todas as cerimónias daquela que foi a sua criação. Mas, infelizmente, não somos infinitos. Nem tão pouco o Padre Fontes! Porque, como se sabe, os sacerdotes também morrem. Que viva por muitos anos, e bons, Padre Fontes! Mas há sempre um tempo de nos prepararmos para a partida, deixando que a vida continue. Espero, muito sinceramente, que este genuíno espetáculo perdure muito para além de Padre Fontes. Tal como as tradições e crenças barrosãs, que ele tão bem relata, e os deuses pagãos que habitam por todo o Larouco.

 

 

Aqui fica um conjunto de considerações que numa visita solitária (e muito pouco participativa) que pela primeira vez, no passado dia 13, fiz a Montalegre, a partir das 19 horas, para presenciar a Noite das Bruxas, percorrendo todas as ruas da vila e assistindo, do alto do relvado, encostado ao gradeamento de proteção ao Castelo, ao espetáculo-rei da noite e respetivo esconjuro.

 

Numa nota à margem, não resisto, em pleno período eleitoral autárquico, de vos dar conta deste apontamento. É certo que a gente era muita. Que, por tal fato, a minha visão foi muito dificultada de tudo quanto a cartazes dizia respeito. Por isso, posso, eventualmente, estar aqui a dizer-vos uma inverdade. Pode ser. Mas, pelos meus olhos, não minto, e uma coisa é certa: não vi nenhum cartaz de propaganda eleitoral afixado da oposição à atual Câmara de Montalegre. Apenas vi – e muitos poucos – do sucessor do atual Presidente. E um único, logo à entrada da vila, do candidato sucessor, Orlando, com toda a sua equipa.

 

Para mim, das duas, uma: ou a oposição ficou verdadeiramente «enfeitiçada» ou o «esconjuro» do Padre Fontes resultou em cheio, em claro benefício dos atuais detentores do poder municipal em Montalegre. Pois, porque raios de alguém deveria vir o mérito?

 

 

 

(Augusto Santos) Zassu

 

  

 

  


publicado por zassu às 17:35
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