Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Encontro(s) - Cena 7:- Pedaços de memória...

 

Pedaços de memória…

 

 

Naquela tarde de 25 de Fevereiro, com um sol radiante como que a anunciar antecipadamente a primavera, naquele terraço debruçado sobre o rio Doiro que, mais ao fundo, corria a seus pés, três cadeiras de palhinha de encosto, colocadas junto à parede alba do escritório da casa, convidavam a confidências e desabafos.

 

O primeiro a sentar-se foi tio Nona. Costuma vir, frequentemente, a Santa Isabel, a casa de sua irmã Liu. Diz que vem para “carregar baterias” e visitar sua irmã mais velha, mas, cá para mim, não é só isso. A coisa é toda outra. O que ele vem fazer é matar saudades da paisagem ondeante do seu sempre querido e saudoso Doiro, à procura de aconchego do seu Marão, daquelas suas fragas que o viram nascer, cobertas de neve, num primeiro dia de um já longínquo ano 51. E, no silêncio do seu recolhimento e contemplação, encontrar conselho e lenitivo que aquela gigante, despida, calva e inóspita serra lhe dá para prosseguir com mais entusiasmo e vigor o seu dia-a-dia. Ele não o diz, mas eu, um dos seus sobrinhos predilectos, sinto-o.

 

A sua vinda hoje à terra duriense que, definitivamente, há 48 anos deixou para se fixar nas terras outrora mais fartas a norte – da Veiga de Chaves – tinha a ver com o festejar os anos do seu cunhado. António (Tâmara Júnior), meu primo, um outro sobrinho predilecto de Nona, acompanhou-o.

 

E foi assim, neste contexto, que os três, sentados naquelas três cadeiras, de verga, preguiceiras, iniciámos uma amena cavaqueira. Mas o protagonismo da conversa coube todo a tio Nona.

 

Levantando-se da preguiceira, dirigiu-se para uma ponta do enorme terraço da casa, donde melhor se avista o rio banhando a Régua, emoldurando aquele magnífico quadro presente aos nossos olhos. E, virando-se demoradamente para os lados do norte, contemplando aquele cenário feito de socalcos, onde a vinha e a oliveira são os seus inquilinos de eleição, sem se virar para nós – que lhe seguíamos atentamente a direcção do seu olhar, adivinhando-o nostálgico -, ouvimo-lo naquele enorme anfiteatro, como se estivéssemos a assistir a uma peça de teatro, em solilóquio. Começou por dizer:

 

- Chaves!... Só Deus sabe o quanto gosto daquela terra! 48 anos não são quarenta e oito dias. É quase uma vida inteira. Quando daqui parti, uma doce e meiga adolescente, por quem estava apaixonado, com seus olhos rasos de lágrimas, e num sentido beijo de despedida, bem me dizia: nunca mais voltas, António![Nona]. Com efeito, bem razão tinha aquela tão querida Nanda…

 

 

E, quando a cada passo, me lembro daquele doce amor adolescente,é como se um alfinete me picasse não só por aquela traição aquela meiga memória como ao meu Doiro que estava deixando para trás.

 

Mas ali assentei vida, embora andando entretanto por algumas partidas do nosso Portugal. Ali me nasceram os filhos. Ali fiz amigos. Ali me comprometi com aquela comunidade, que me acolheu, dando-lhe também o meu melhor como cidadão, na construção de uma sociedade mais desenvolvida, justa, equitativa e solidária. Ali repousam os restos daqueles que são a causa da minha existência e os do meu saudoso Lélé, teu pai, António. Ali continuo a viver naquela terra companheira e cúmplice, numa espécie de casamento, vivido de tantas peripécias e episódios de vida. Cheio de alegrias. Mas também com algumas tristezas.

 

Mas aquela não é a minha terra de paixão! Ao longo de 48 anos, o burel, o capote e o cajado jamais me moldaram a minha personalidade e modificaram o meu carácter. Eu sou filho dos geios e da enxada do trabalhador da vinha, a dias, labutando duro pelo parco pão de cada dia que, levado pelo sonho das serras que o cercavam e pela correnteza de um rio rebelde, deslumbrando-o, para se dirigir para outras paragens, nunca se esqueceu do naco seco do pão de broa e da tijela de papas de milho saídas do pote ao lume!

 

Decididamente, não sou pastor. Simplesmente um humilde jardineiro. Bem certeiras são as palavras de Torga quando, na sua obra ”Portugal”, e a propósito do seu Reino Maravilhoso, a páginas tantas, diz: «Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como manjericos às janelas». E, o mesmo autor, no capítulo da mesma obra “O Doiro”, arremata: «Ser nesse chão árido e hostil um novo criador de vida, dar aí uma resposta quotidiana à morte, transformar cada ravina em parapeito de esperança e cada bagada de suor em gota de doçura – eis o que o Titã ensina aos homens, e o que Zeus lhe não perdoa. Por isso, o seu perfil rebelde é o próprio perfil dos montes (…)». Esta é a essência, o verdadeiro carácter do homem duriense que tão bem Torga esculpe e que, desde a minha infância, jamais se apagou da minha memória.

 

Mas, se verdadeiramente quiserdes saber de quem vós sois verdadeiramente filhos, e conhecer a verdadeira vida dos vossos pais e avós, lede, principalmente, os maravilhosos contos e novelas de João de Araújo Correia e de Pina de Morais. Lede-os não só com o intuito de conhecerdes a(s) história(s) mas, principalmente, para descobrirdes a verdadeira alma duriense. 

 

Estou com Sant’Anna Dionísio quando, no seu livro “Alto Douro Ignoto”,  diz: «Olhando os vinhedos que recortam os flancos enormes até ao cimo, é difícil deixar de exclamar em silêncio:- ‘Quantas vidas!... sonhos… esforços… ilusões… heranças! acumuladas nesta obra grandiosa e anónima, ao mesmo tempo gigantesca e liliputiana, que se chama o vale vinhateiro do Douro!’».

 

E, a este propósito, gostaria de vos contar a história desta casa.

 

O passar dos anos, e as intempéries da vida, tornaram-na decrépita. Tem, apesar de tudo, um passado nobre, digno de ser contado. Contudo, hoje não é o momento apropriado para o relatar. O dia que festejamos requer que demos mais importância ao nosso anfitrião e festejado. Mas sempre vos direi que, nesta casa, se respiga um verdadeiro espírito de lugar. Possui uma alma. Na figura de um homem a que todos os seus familiares lhe chamavam carinhosamente o «Padrinho». Porque de facto padrinho de minha mãe, da minha irmã mais velha, Liu, - a quem na adoptou de facto como filha -, depois das sua filhas, enfim, no final de contas, de todos da família.

 

 

Padrinho, pai grande, ao matar a fome de sua sobrinha e afilhada, minha mãe, quando não havia um cêntimo no bolso e a fome apertava; padrinho, pai grande, ao socorrer a sua sobrinha e afilhada, minha mãe, nos momentos difíceis em que as doenças matavam mesmo quando não havia recursos, porque praticamente nulos, para comprar remédios para as debelar.

 
Anticlerical, mas orgulhoso do filhos de sua sobrinha e afilhada predilecta,
 

 

em particular do padre,

 

 

 

recebendo-os de braços abertos em sua casa, com os olhos e o coração alegres, reflexo de uma alma magnânima. Anticlerical, mas compartindo o seu vinho, com as peças de caça do Padre Avelino, caçador, amigo de Miguel Torga, oferecendo-lhe a sua hospitalidade. Anticlerical, avesso a ostentações beateiras, mas possuidor de uma fé, que só a ele dizia respeito, e com um enorme respeito pelas «suas alminhas» a quem «reverenciava», na curva da estrada à saída da sua propriedade, sempre que por elas passava, tirando disfarçadamente o chapéu da cabeça, fingindo que o limpava, para seu «chauffeur» não se aperceber da sua verdadeira intenção. Anticlerical, conhecedor profundo da hipocrisia e vida mundana da clerezia portuense, fazendo-me sentar com ele à mesa do Hotel Peninsular, onde habitualmente se alojava quando ia em serviço do Instituto do Vinho do Porto ou tratar de algum seu negócio, e a quem, durante a refeição, como verdadeiro pai, me dava conselhos para me orientar naquele mundo em que vivia, no qual, ele de antemão, sabia que não tinha qualquer vocação para padre, quando estudava teologia no Seminário Maior do Porto.

 

Republicano e anti-salazarista, mas sabendo distinguir quem serve um regime por necessidade ou o defende por convicção.

 

Duro como homem de negócios, mas derretendo-se todo a qualquer pedido ou capricho da sua filha-afilhada, minha irmã Liu.

 

Padrinho-avô afectuoso e extremoso, deixando-nos a todos confusos e perplexos quando observávamos como um homem daqueles punha tanta paciência infinda, carinho e amor no trato e nas travessuras das suas netas-afilhadas.

 

 
 

Morreu a 10 de Janeiro de 1970. Mas, sempre que entro nesta casa, vem-me sempre à lembrança a figura tutelar do «Padrinho».

 

Numa região, como o Douro, tão característica como o rio que a atravessa, turbulento e revolto, ele soube, com perseverança, austeridade e autoridade, que emanava de uma vontade indómita, atravessar todos os altos e baixos da vida, levando sempre a bom porto os destinos desta casa.

 

Vivemos hoje tempos muito conturbados, difíceis. Olho à minha frente e vejo uma terra, transformada em jardim, graças ao sofrimento da enorme maioria das mulheres e homens durienses, ao longo de dezenas, centenas de anos. Num trabalho duro. Sofrido. Perseverante. Persistente. Apesar das muitas injustiças e iniquidades.

 

Mas sou optimista. Acredito que, com figuras tutelares com o «Padrinho», e de tantas outras que, apesar de tudo, e felizmente, o Douro teve, e continua a ter, um novo futuro, mais radiante e risonho, poderá ser possível nas nossas casas, na nossa terra duriense.

 
Com trabalho duro, é certo. Muitas vezes sofrido, com certeza. Com perseverança. Com persistência. Mas sem injustiças e iniquidades! Abraçando e perseguindo um modelo de desenvolvimento para a região que faça justiça às mulheres e aos homens que, sempre, ao longo de dezenas, centenas de anos, tão bem souberam tratar deste nosso jardim que aqui, à vossa frente, vedes uma pequena amostra.
 
 
 
 

Dando-lhes qualidade de vida pela qual sempre aspiraram. Não desistindo deste terrunho sagrado, enxameando-o de vida, com gente. Porque só as pessoas é que fazem nobre a alma desta paisagem. Com todos aqueles que nela queiram viver, tornando-a efectivamente sua, nossa. Porque só assim faz sentido ser Património Mundial, genuinamente duriense, e do qual justamente disso nos orgulharmos. Porque estamos aqui para reivindicar que foi por todos nós criado, valendo, por isso, a pena aqui viver, mesmo à custa de enormes sacrifícios!

 

Entretanto, a nossa frente, o sol caminhava a passos largos para o seu ocaso.

 

O pequeno Edu, assomando à porta de acesso ao terraço, chamava:

 

- Ti Nona, António, Augusto, o vovô já chegou! Venham para dentro. O comer vai já prá mesa.

 

E, após mais um dos desabafos a que tio Nona, a cada passo, nos presenteia, a modos de ensinamento, lá fomos para dentro festejar os anos do anfitrião da casa.

 

 

(Augusto Santos) Zassu

 

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Sábado, 9 de Fevereiro de 2013

Desencontro(s) - Cena 3:- Refundar o Estado?

 

 

Refundar (reformar) o Estado ou reformular novas regras do «jogo» (político) democrático?

 

 

Deixemo-nos de eufemismos, caros políticos – exímios vendedores da banha da cobra!

 

Agora a palavra reforma do Estado está sendo substituída pela palavra «refundar»?... Não nos soa um pouco a um certo passado, com outras cambiantes?

 

 

Vindo de quem vem, tal desígnio até me parece que outra coisa não é se não a «destruição», pura e simples, do Estado que temos. Mas, se atentos aos protagonistas e ao que sobra do sumo das suas eloquentes e retóricas palavras, a coisa será bem assim?

 

Se não, vejamos:

 

  • A ideia da proposta fala a sério como devem ser organizados os diferentes setores da administração central e periférica?
  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser gerido o setor empresarial do Estado?
  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser organizado o território e, consequentemente, gerido, em termos da administração regional e local?

 

É isso que efetivamente se quer, ou seja, acabar com uma administração central assente na palhaçada da lógica de concursos, que de imparciais pouco ou nada têm, para dar lugar aos que são da mesma cor ou à cunha para afilhados, enquanto os reputados candidatos a funcionário e técnicos não entram?

 

Será que se quer acabar com a dança indecorosa dos «boys» e «girls» que enxameiam os gabinetes ministeriais, pagos a peso de ouro e sem qualquer experiência profissional senão a partidária, enquanto os reputados técnicos da administração pública, pagos por todos nós, são postos numa prateleira (ou vão para qualquer quadro de mobilidade especial, pagos a meia pataca e com o ferrete de já inúteis)?

 

Será que se está a pensar reestruturar os serviços de forma espartana, mas com efetiva lógica de eficácia para as funções que devem desempenhar, trabalhando com eficiência, acabando com os luxos, mordomias e desperdícios?

 

Será que se quer acabar com a maioria dos serviços e quadros da administração pública, encomendando tais tarefas a «empresas amigas» pagas milionariamente, tal como aconteceu com as parcerias público-privadas, por se ter reconhecido total incapacidade da administração pública para levar a cabo as suas funções, congeminando «negociatas» ultra-milionárias com grupos e instituições cujo proveito só delas estas retiram, deixando para trás um negro fumo de compadrio e corrupção?

 

Quanto ao setor empresarial do Estado. Já alguém, de uma forma séria, discutiu e assentou que setor empresarial deveríamos ter?

 

Já alguém, de uma forma séria,  exigiu que fossem geridos com verdadeira eficácia, como se de uma verdadeira empresa se tratasse e não mais uma instituição para colocar os amigos e correligionários do partido, pagos a peso de ouro para, depois, uma vez mais, sermos nós, com os nossos impostos, a pagar, para além desses ordenados milionários, o preço de ineficiência e consequentes incompetências?

 

Quanto à administração regional e local. Fiquemo-nos apenas pelas autarquias.

 

 

Como é possível que, em pleno século XXI, num mundo tão diferente e globalizado como o que hoje em dia temos, continuemos a ter uma organização territorial assente num modelo de meados do século XIX, com mais de 150 anos?

 

Como é possível numa era do conhecimento, informação e técnica e das ultrassofisticadas  redes de informação haja o enorme espartilho de autarquias que temos com tão amplas competências e uma complexa organização e gestão de serviços?

 

Será que o trabalho que foi feito por este governo de «extinguir», na prática, parece, mais de mil freguesias sem «tirar» um só município ou câmara é digno e sério? Será que isto não é andar a brincar com todos nós e com os nosso dinheiro, plasmado em impostos de natureza insuportável?

 

Porventura algumas freguesias e municípios hoje em dia já não se justificam que existam. Por isso, essas mesmas, devam ser extintas.

 

Mas sou contra a extinção, pura e simples, das autarquias. Elas têm uma história, adrede a um território que amamos. Tem um passado que deve ser honrado e preservado!

 

Agora o que não podemos é ter, num país tão pequeno, tantas câmaras e tantas juntas de freguesia a serem administradas e geridas com uma carga de órgãos e pessoas que giram à sua volta! Tal situação já não se justifica..

 

Esta forma de gerir o país, assente no sistema político-partidário que temos, levou à perpetuação, tal como nos séculos XIX e XX, do caciquismo local e, com o poder que hoje em dia os municípios (câmaras) têm, a um despesismo incrível e inaceitável, por proliferação, por todo e qualquer canto do país, de obras faraónicas e ineficientes, porque mal dimensionadas, em termos de escala não só territorial com das gentes que servem.

Por isso, a reforma do Estado, em termos autárquicos, deveria começar por cima e não por baixo!

 

Ao termos rejeitado a regionalização, demos uma forte machadada na possibilidade de esta situação se poder inverter. Porque a regionalização, entendida também como uma nova forma de administrar e gerir o território, fatalmente teria de abordar a alteração do atual espartilho do quadro autárquico do nosso país.

 

Porque hoje os meios que a ciência e a técnica põem ao nosso dispor, a escala regional é a escala mais adequada para administrar e gerir com eficácia e eficiência o nosso território, aligeirando competências e o peso institucional das atuais autarquias, ao lhes retirar as competências dos sistemas e serviços mais complexos, focalizando-as mais nos serviços de proximidade e vizinhança.

 

A regionalização não foi por diante, mas, ao menos, poderíamos ficar por uma solução porventura intermédia.

 

Peguemos num caso concreto – o conjunto de municípios daquilo que hoje se designa Alto Tâmega e Barroso. Porque, a partir desta realidade, não se pegava nestes seis municípios – Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar – e se criava uma única estrutura que substituísse, em termos de efetiva representação democrática, a atual Associação de Municípios do Alto Tâmega e Barroso, que não apresenta, na sua efetiva prática, nenhuma coesão territorial, porquanto ali cada autarca se encontra democraticamente legitimado para lutar, única, e quase exclusivamente, pelos interesses do seu próprio concelho, havendo raros momentos de solidariedade?

 

O que impede que isto se faça? O lobby dos senhores presidentes câmara, como já com a regionalização aconteceu, coadjuvados, muitos deles, com a atuação de alguns centralistas, políticos e opinion makers, defensores acérrimos das «regalias» que o «Terreiro do Paço» lhes dá!

 

E é aqui que tudo bate.

 

Em Portugal jamais se farão reformas a sério enquanto este estado de coisas do nosso sistema político partidário se mantiver. Infelizmente!...

 

Daí se compreende que a reforma do sistema eleitoral não vá por diante bem assim a da organização e gestão do território.

 

Os partidos, de um modo especial os do arco do poder, não a querem porque sabem que, se deixam à sua sorte os seus «caciques»-autarcas, não dispõem de meios no terreno para, na batalha eleitoral, terem sucesso assegurado.

 

Vivemos, manifestamente, num regime partidocrático.

 

Não sou contra a existência de partidos. Muito pelo contrário! Sou pela sua efetiva democratização, plasmada num maior protagonismo dos seus militantes, e não somente do da sua «nomenclatura». Nos partidos que temos vive-se como se estivéssemos num regime de ditadura. Não há efectivamente «direito» a pontos de vista diferentes e divergências, pois o que não faltam são «muftis» para proferirem a sua respectiva «fatwa», sob pena do exercício de verdadeiras «purgas». Sem o amplo debate, resultante de pontos de vista diferentes, divergentes, não há lugar a uma autêntica vida democrática dentro dos partidos (e a maioria dos debates não passam de puras encenações!). O que é fundamental é simplesmente a aceitação do que é essencial num partido, ou seja, a sua matriz fundacional, o que levou à sua existência. Quem, eleitoralmente, em eleições internas verdadeiramente esclarecedoras e livres, sem qualquer constrangimento, vencer, apresentando a melhor leitura da situação e as melhores propostas estratégicas, é quem governa. Os vencidos não são postos de lado. Em função das suas qualidades, vontade e competências, devem lealmente colaborar nas tarefas da construção da alternativa democraticamente vencedora!

 

Numa sociedade em que cada vez mais se valoriza o sujeito como pessoa – ator e fazedor do seu próprio destino -, o nosso sistema político transformou-se numa estrutura opaca, coartando, tanto quanto pode, o papel do cidadão e dos movimentos de cidadãos no palco da cena política ativa.

 

Muitos dos que votam não conhecem as pessoas em quem votam – apenas siglas partidárias.

 

Se não dermos um espaço muito mais amplo de participação ao cidadão (e movimentos) responsabilizando-os também como agentes-atores, fazedores da polis, quebrando com a hegemonia quase absoluta dos partidos na política, caminharemos para uma sociedade cada vez mais descrente da política, dos políticos, em dessintonia completa com aquele(s) que, supostamente, os deveriam representar. E, desta forma, está-se a um pequeno passo da perversão do sistema, aliás como dia-a-dia, constantemente, já estamos presenciando.

Por isso, digo, mais que reformas que, no final de contas, não são mais que paródias do nosso viver coletivo, há que, primeiro, reformular, de uma forma séria e empenhada, novas regras do nosso «jogo» (político) democrático.

 

Se o sistema político não assumir, com autenticidade, a função e o papel dos cidadãos, quer dentro quer fora dos partidos, como indivíduos em palco, da política ativa, responsabilizando-os cada vez mais, ficará porta aberta para o cidadão comum se divorciar por completo da política, aumentando cada vez mais todo o tipo de oportunismos e corrupção (apesar do papel dos meios de comunicação, mas cuja lógica está fora do jogo democrática, pois estes, numa verdadeira lógica capitalista e de mercado, somente atendem ao lucro da notícia), enfraquecendo, inexoravelmente, a vida democrática do país em que vivemos.

 

E, órfãos de uma vida democrática autêntica, nosso país tornar-se-á – como aliás já está acontecendo -, presa fácil das aves de rapina que, a preços da chuva, e com a conivência cúmplice de uns quantos histriões,

 

verdadeiros «vendedores do templo», mas apelidando-se de salvadores da pátria, desbaratam e alienam os nossos recursos, tornando-nos depois presa fácil, «escravos» de um sistema no qual «eles» ditam as regras do jogo e não nós próprios.

 

 

 

(Augusto Santos) Zassu


publicado por zassu às 16:03
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

Desencontro(s) - Cena 2:- Poemas Ibéricos versus Mensagem

 
 
 

ENTRE OS «POEMAS IBÉRICOS (DE TORGA) E A MENSAGEM (DE PESSOA)

AO ENCONTRO DE UM PORTUGAL COM OS PÉS BEM ASSENTES NA TERRA

 

 

Com certeza que estão recordados do meu último texto postado neste blogue e da conversa tida com o meu tio Nona.

 

Esqueceu-me de referir que, antes de sairmos da Livraria Almedina, do Centro Comercial Arrábida, Gaia, tio Nona recomendou-me vivamente a leitura de um livro, que acabou por mo oferecer, dizendo:

 

- Procura ler atentamente esse conjunto de textos. E, estou certo, se os leres com atenção, levar-te-ão a conhecer, mais em profundidade, a obra de um dos «nossos», um dos nossos maiores, e, a partir dele, conheceres melhor o nosso Portugal.

 

 

 

A obra em questão – “Dar mundo ao coração – Estudos sobre Miguel Torga”, organizada por Carlos Mendes de Sousa, com prefácio de Eduardo Lourenço, foi editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e Texto Editores, em 2009, e contém as intervenções, contributos de uma série de especialistas da obra torguiana constantes de um colóquio internacional organizado pelo Centro Cultural Calouste Gulbenkian, de Paris, por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga.

 

Dos textos que li atentamente houve um que me despertou particular curiosidade e me chamou mais a atenção.

Trata-se do texto de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o seguinte título: “A Ibéria, de Torga e «Nós, Portugal e poder ser», de Pessoa” (Mensagem).

 

 

Em síntese, esta autora, a partir destes dois textos – Poemas Ibéricos, de Torga e Mensagem, de Pessoa – procura-nos dar a visão que, cada um deles, tinha de Portugal.

 

E falando de Torga, afirma: a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, a que esses filhos que mamaram nas suas tetas de pedra devem fidelidade eterna (…)

 

Tudo o que pareça remeter para uma qualquer transcendência, céu ou mar, em que os seres da Criação não consigam fincar pé ou raiz, é repudiado por Torga (…)

 

Face à permanente oposição corpo-alma, a que dá presença na sua obra, Torga é sempre pelo corpo (…)

Torga não exalta as Descobertas. Vejamos o que, a partir do poema Mar, ele pensa:

 

Mar!

Tinhas um nome que ninguém temia:

Era um campo macio de lavrar

Ou qualquer sugestão que apetecia…

 

[…]

 

Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E o fingido lameiro, a soluçar,

Afogava o arado e o lavrador!

 

Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar

E foste tu depois que nos traíste!

 

Por outro lado, as referências às Índias são sempre negativas em Poemas Ibéricos.

 

Através da voz de Afonso de Albuquerque temos a impressão de ouvir os negros presságios de Sá de Miranda: «Por isso a Índia há-de acabar em fumo/nesses doirados Paços de Lisboa».

 

O último poema de Poemas Ibéricos termina assim:

 

Venha o Sancho da lança e do arado,

E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

O senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Para Torga esta mensagem é clara: o verdadeiro herói é o Sancho, o humilde herói coletivo da luta quotidiana da vida contra a morte, não D. Quixote de la Mancha.

 

E como podemos ler a Mensagem de Pessoa?

 

Para Pessoa, pelo contrário, o país não é corpo: «um país é uma alma».

 

Torga exalta Nun’Álvares Pereira mas destrói, literalmente, D. Sebastião.

 

Pessoa, embora entregue a Nun’Álvares a espada do Rei Artur, l’Excalibur, e lhe chame o São Portugal, privilegia D. Sebastião: dedica-lhe na Mensagem sete poemas e numerosas referências, enquanto a Nun’Álvares Pereira só lhe inspira uma.

 

Torga consagra apenas um poema a D. Sebastião – dir-se-ia – para o castigar.

 

Enquanto Pessoa enaltece a sua loucura, o seu desejo de «grandeza» («Louco, sim, louco, porque quis grandeza/Qual a sorte a não dá?/(…) Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria?»

 

 

Por seu lado Torga, a D. Sebastião, inflige-lhe o ultraje, a suprema punição de ser apenas, no meio de um deserto, um cadáver que ninguém enterrou – que a terra, útero primordial, não recuperou no seu seio regenerador. E foi a sua loucura e a sua mania de grandezas que a isso o conduziu.

Para Torga, D. Sebastião e D. Quixote, ambos voltam as costas à realidade e partem loucamente em busca do que só existe na insensatez dos seus sonhos.

Para Pessoa as Descobertas representaram uma procura de identidade: «a busca de quem somos/Na distância de nós».

 

Mas, para Torga, partir é sempre perder-se de si próprio, optar pelo barco é ser infiel à raiz.

Pessoa é sempre pelo barco, contra a raiz. Num poema de Mensagem, «O Quinto Império», o que chama «a lição da raiz» é negativa:

 

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

 Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura”.

 

Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, a Ibéria, mas dotada de uma grandeza de que nos devemos de orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a tal sereia traiçoeira. Por isso é que ele exorta Sancho a que regresse ao seu arado.

 

Para Pessoa, nesse áureo período em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». A mensagem da Mensagem é o contrário da dos Poemas Ibéricos.

 

Com a sua mensagem na Mensagem – explicou depois em prosa – pretendia que os Portugueses se afirmassem no presente de uma forma que fosse equivalente das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se «Nós, Portugal, o poder ser».

 

Apesar de tudo, torga insiste: «Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida». Para Torga Terra e Vida se equivalem.

 

 

***

 

Estas foram as palavras que citei de Torga e Pessoa e as que pedi emprestadas a Teresa Rita Lopes para, tal como ela, concluir que «o imaginário português balança sempre não apenas entre a terra e o mar (entre a raiz e o barco), mas também entre dois heróis: Nun’Álvares Pereira, o herói vencedor, solar, simbolizando a raça portuguesa ainda de boa saúde, antes do delírio das Descobertas e D. Sebastião, o herói vencido, crepuscular, representante da derrota dos sonhos e dos impérios».

 

Perdidos os impérios, e não aprendendo a lição da história, continuámos a pensar que a nossa integração na União Europeia acabaria por nos dar o ter que havíamos perdido nos longínquos mares…

 

Na miragem do cravo e da canela de outras índias e no oiro dos brasis, que os euros que a Europa nos «cedia», e que, para nós representavam, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo roubada» e desenvolvendo, todos, toda – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

Zassu

 

 

 

 


publicado por zassu às 18:28
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