Domingo, 20 de Janeiro de 2013

Encontro(s) - Cena 6:- (São) Karl Marx, Ressuscitai!


 

 

(São) Karl Marx, ressuscitai!

 

 

Tenho uma amizade e um carinho muito especial por Nona, meu tio radicado, mais para norte, já vai para mais de quarenta anos, nas, outrora, terras fartas de Veiga de Chaves, paredes meias com os «nuestros hermanos» galegos.

 

Eu, e minha família continuamos «mourejando» nas terras «escravas» do sul, hoje transformadas, em virtude do trabalho hercúleo do miserável assalariado da enxada e do pequeno lavrador duriense, ao longo dos séculos, em jardins, sucalcos donde brota aquele néctar a que chamam vinho do Porto mas, para nós, será sempre «vinho fino», agora com generosas promessas para uma região que viveu (e ainda vive), permanentemente, cada «safra» com o credo na boca, à espera do milagre da  promoção de melhor vida, agora com a elevação a Património da Humanidade e da novíssima valência (função) turística.

 

Mas, sobre esta matéria, haveremos de um dia falar.

 

Hoje vou falar do teor de um encontro que, vai para uma semana, tive com tio Nona.

 

Já se vai tornando hábito, de mês a mês, nos encontrarmos na área do Porto: eu, para tratar de assuntos relacionados com os negócios de uma minha quinta e de outra da qual sou administrador, na área do Douro, Baixo Corgo; tio Nona, porque periodicamente tendo de fazer exames de rotina por causa da sua doença, tem, mais ou menos no intervalo desse tempo, consulta com o seu médico, e amigo, que o assiste.

 

O nosso local de encontro é a Livraria Almedina, no Centro Comercial da Arrábida, Gaia. Inveterado pela leitura, aproveita sempre que pode para dar uma vista de olhos às novidades editoriais que vão saindo, enquanto toma um daqueles deliciosos chás que servem na cafetaria e sala de chá da Livraria, acompanhado de uma deliciosa tarte de maçã.

 

Desta última vez viu-o muito concentrado na leitura de um pequeno livro, ao ponto de nem sequer ter dado pela minha chegada e presença.

 

Cheio de curiosodade estaquei um pouco a minha aproximação para matar a curiosidade sobre o título do livro no qual Nona tanto se concentrava na leitura.

 

Já ia perto do fim e apenas pude descortinar o nome do seu autor, escrito em letras garrafais: Jorge de Sena.

 

Acabei por me sentar sem que por tal tio Nona desse conta e, só quando lhe dei as boas-tardes, é que, então, interrompeu a leitura para me cumprimentar.

 

Cheio de curiosidade, sempre lhe fui perguntando:

 

- Que leitura é essa que o absorve de tal forma que nem deu pela minha presença?

 

- Pois é, Augusto, - respondeu – a gente, quando nova, vive; agita-se; sente-se muito actualizada quanto a tudo que se passa à sua volta, acha-se culta; que está na moda e, nesta euforia efémera, passageira, existe, contudo, muita coisa que lhe passa ao lado. Os «pecados» da juventude são exactamente esses: o pensar que tudo sabemos; que não há nada que nos escape; o sentirmo-nos sempre na «crista da onda». E, tudo isto, não passa de inconsciência, atitude tão própria e característica da juventude.

 

Intrigado sobre esta conversa, disse-lhe:

 

- A que vem a propósito tudo isto que me está a dizer? – De pronto, respondeu-me:

 

- Na década sessenta e setenta do século passado, ser-se comunista era sinónimo de democrata, progressista, face ao regime que tínhamos em vigor. Para a grande maioria dos ditos democratas progressistas dessa época, com quem convivi durante o período da minha Faculdade, a «ditadura do proletariado» era o corolário indiscutível, face aquilo para o qual apontava o marxismo. Isolados do resto do mundo, a maioria de nós aceitava sem excessivas críticas. Só uma pequena «elite» de intelectuais tomava posição quanto aos regimes que, sob a capa do marxismo-leninismo, instituiram o regime da «ditadura do proletariado».  E, em termos de democracia e liberdade, o que este mesmo regime representava? Veja-se, nomeadamente, o que foi e representou a Primavera de Praga… Nos anos setenta, do século passado, enquanto estudante de Direito na «capital do reino», chegavam-nos poucos ecos quanto ao que , na prática, era e representava o dito regime comunista. Entre muitos outros, Popper e Morin questionavam-nos de uma forma fundamental. Mas, já em 1962, um dos nossos grandes intelectuais, Jorge de Sena, emigrante «exilado», dizia, e passo a citar um seu excerto – que acabei agora de ler tão concentradamente -, sito neste Ensaio com a designação “Maquiavel, Marx e outros Estudos”, editado pela primeira vez em Portugal, em 1974, pela Livraria Paisagem, Editora, Porto (e desculpa por ser um pouco longo):

 

 

“É muito provável que o marxismo, sobretudo o marxismo de Marx e de Engels, venha a ser superado. Jamais houve pensamento a que tal não sucedesse, sem que, por isso, possamos concluir que ele deixou de ser válido. (…) As descobertas de quase todos [os filósofos], porque incidem na investigação do conhecimento humano, seus modos e suas regras possíveis, fazem parte do nosso património científico. E acontece que raríssimos nos deixaram um método de análise do real, tão distinto de uma visão sistemática, como (invertendo o idealismo de Hegel) Marx e Engels se aplicaram em deixar. (…) a superação do marxismo, tão profetizada, aparece-nos necessariamente como uma decorrência metodológica do próprio marxismo. E quem mais anseia que o marxismo se supere contribui, queira ou não queira, para que ele melhor se realize.

 

Nesta«realização», que vem sendo experimentada à escala de milhões de seres humanos, reside uma das maiores e mais graves acusações feitas ao marxismo: a de, pretendendo-se estritamente «científico», ser afinal uma metafísica, uma escatologia dogmática, susceptível de reger não apenas intelectualmente, mas no dia-a-dia político, nações inteiras. Marx teria, assim, praticado um erro fatal: da análise «científica», que afinal se reconhece válida, das contradições inerentes ao processo capitalista, teria visionariamente saltado para o mito da ditadura do proletariado, confiando a este uma missão, um papel escatológico, um messianismo redentor. E o marxismo não seria afinal, mais do que um cristianismo indignado consigo mesmo, por não haver cumprido a sua promessa milenária de, pela encarnação divina, libertar o Homem. Se nos colocamos no ponto de vista da História dos dois últimos milénios, é incontestável que o marxismo surge como produto final de uma decomposição do mundo esclavagista das civilizações mediterrâneas, de que o cristianismo foi o sinal de rebate. (…) O «salto» de Marx, hoje sobretudo denunciado pelos sociólogos profissionais, que o acusam de ter politizado a ciência que ele próprio criou, não é, assim, o que propriamente se pode chamar um «salto» da realidade para as visões. Acusá-lo disso, eis o que fundamentalmente pretende esquecer a natureza dialéctica do seu pensamento, e o papel que, nesse pensamento, é atribuído à autonomia da vontade humana. (…) Marx, ao confiar ao «proletariado», na situação actual do mundo histórico, um papel dito messiânico, não salta da realidade que o proletariado é, para o visionarismo do que seja um Estado regido por ele. Apenas aplica o seu método dialéctico à realidade criada por uma doutrina que se quer, como a sua, a vontade do maior número. E esta dialéctica do maior número, que a ciência moderna, com o seu carácter estatístico, veio confirmar estrondosamente, põe a claro a impossibilidade de falar-se em messianismo, porque, não havendo limite ao maior número de homens, não há um fim dos tempos, uma idade de ouro, em que a História se suspenda e acabe, para dar lugar ao reino messiânico do proletariado. (…) por grande que tenha sido, e foi,  a generosidade de Marx, por firme que tenha sido, e foi, a sua confiança nas virtualidades do Homem, a sua lucidez não o deixou esquecer-se de que o Homem teme a liberdade, teme por ver-se entregue a si mesmo, precisamente porque, na História, nunca fez uma experiência de ser livre, sem alienar de si, para sê-lo, alguma liberdade autêntica. Mas melhor que ninguém denunciou como isto não é inerente à condição humana, e sim o efeito de uma situação histórica, de um hábito, de um hábito milenar, quando as sociedades se constituíram como defesa colectiva contra uma natureza hostil ou indiferente. E, por isso, ao postular que o Estado deve ter posse dos instrumentos de produção, e que ao proletariado cabe a direcção do Estado, Marx não pretendia eliminar fisicamente ninguém, mas suprimir, entre o trabalho humano e o domínio que este fim permite da natureza, os intermediários; e a supressão dos intermediários, quando alienadamente os homens sempre viveram num mundo em que todos são intermediários entre a Natureza (como se a não fôssemos) e Deus (como se Ele nos não fosse), implica, necessariamente, que os homens sejam obrigados a ser livres. Na complexidade social do mundo moderno, é este o terrível dilema: como pode o Estado obrigar os homens a ser livres, sem roubar-lhes a liberdade, e como podem os homens, sem garantia alguma de sanção transcendente, assumir a sua própria liberdade. Das Kapital apontou um método de apropriação da realidade social. Se o homem não sabe ou não pode administrar a mais-valia, que é o preço da sua liberdade, é porque, sendo inferior a si mesmo, não é digno do que Marx, herdeiro da filosofia ocidental, imaginou que ele era. Mas acreditar que o homem é, por natureza, inferior ao melhor que se sonhe dele (e é, assim, naturalmente incapaz de realizar a sua liberdade), não é mais que uma alienação última. Porque o dilema não se configura entre acreditar ou não acreditar nas capacidades do Homem. Acreditemos ou não, estamos perante ele. Chegaram os tempos dolorosos e difíceis, mas gloriosos também, de o Homem ser obrigado a fazer, ainda que o não queira, a experiência da sua liberdade”.

 

 

- Como vês, meu caro sobrinho Augusto, o slogan, advindo da Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, por muito que dele se tenha falado e, em certo sentido, lutado, falta ainda ser cumprido. E, face aos tempos pelos quais passamos, que tantos apelidam de crise(s) outra coisa não devemos entender que, no final de contas, estamos perante este nome «crise», que outra coisa não é senão o dilema da liberdade. Livres para falarmos bem alto que, face às dificuldades que atravessamos, há alternativas. Alternativas que nos põem defronte as novas «escravidões» que andam por aí e a liberdade do homem cioso de uma sociedade mais justa, fraterna, igualitária. Entendendo que liberdade não pode ser uma figura de retórica, mas uma realidade à qual nenhum de nós, e cada um de nós, não pode escapar. É por isso, Augusto, que urge, é necessário voltar a ler e reintrepretar, de novo, Marx, tendo em conta a realidade social do mundo em que vivemos e por que passamos, em ordem à sua efectiva e eficaz transformação. Mesmo que se tenha de fazer como no século passado, na peugada do pensamento marxista: Liberdade ou Morte!

 

 

(São) Karl Marx, ressuscitai!

 

Sabia da veia esquerdista do tio Nona. Na família contam-se história… Só que ainda não lhe tinha ouvido um discurso tão radical. Apercebendo-se do meu espanto, tio Nona desabafa:

 

- Quem me dera a tua idade e saber o que sei hoje!

 

Saímos juntos do Centro Comercial para o Instituto do Vinho do Porto (até do nome do nosso néctar se apropriaram!), afogando um pouco cada um a sua «revolta» num cálice do nosso «Vinho Fino», o Generoso.

 

 

(Augusto Santos) Zassu

 


publicado por zassu às 00:29
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