Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 416

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 


POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANTILENA DA PEDRA

 

Sem musa que me inspire,
Canto como um pedreiro
Que, de forma singela,
Embala a sua pedra pela serra fora...
Upa! Que lá vai ela!
Upa! Que vai agora.


A pedra penitente que eu arrasto
Tem o tamanho de uma vida humana.
E só nesta toada a movimento,
Embora o salmo já me saia rouco.
Upa! Meu sofrimento!
Upa! Que falta pouco...


Coimbra, 30 de Julho de 1968

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publicado por zassu às 18:53
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Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 415

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGENDA

 

Folheio a vida

Num calendá¡rio velho.

Dias riscados, como contas pagas.

Domingos de repouso,

Segundas de trabalho,

Sábados de cansaço,

Sem nenhum sentido.

No abismo do nada,

O nada, apenas.

Quem sofreu nestas páginas vazias,

Tão frias,

Tão serenas?

 

 

Coimbra, 30 de Maio de 1968

calendario.jpg


publicado por zassu às 22:02
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Segunda-feira, 24 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 414

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA


 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

TRANSPARÊNCIA

 

Deixo cair a tarde

Nos olhos fatigados.

O dia foi de luz intensa e demorada,

Nevada nas alturas.

Guardei a que podia.

Agora quero a noite

E a brancura das horas

Sem lembrança.

Trevas e claridade

Inconsciente.

Longe daqui e sempre aqui

Presente.

Quero sonhar apenas o que vi.

Quero ver o que vi mais transparente.

  

Chaves, 9 de Abril de 1968

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publicado por zassu às 19:44
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Domingo, 23 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 413

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGORA 

 

Abre-te, primavera!

Tenho um poema à espera

Do teu sorriso.

Um poema indeciso

Entre a coragem e a cobardia.

Um poema de lírica alegria

Refreada,

A temer ser tardia

E ser antecipada. 

 

 

Dantes, nascias Quando eu te anunciava.

Catava,

E no meu canto acontecias

Como o tempo depois te confirmava.

Cada verso era a flor que prometias

No futuro sonhado…

Agora, a lei é outra: principias,

E só então eu canto confiado.

 

 

S. Martinho de Anta, 31 de Março de 1968

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publicado por zassu às 18:07
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Sábado, 22 de Julho de 2017

Poesia e Arte 50

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LONGO VAI O MEU CANTO


Longo vai o meu canto,
Sem eco na paisagem que atravesso.
Nele me despeço
Lentamente da vida.
De todas as riquezas que ela tem,
E ninguém
Possui senão de vista e de fugida.


Longo vai o meu canto,
Sem eco, porque nunca foi ouvido.
Nele, humano e dorido,
Protesto contra a minha condição
De mortal sem nenhuma garantia...
Longo vai o meu canto
E o desencanto
Desta longa porfia...


Coimbra, 1 de Março de 1968

Caspar_David_Friedrich_-_Wanderer_above_the_sea_of


publicado por zassu às 08:59
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Sexta-feira, 21 de Julho de 2017

Poesia e Arte 50

 

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

GUEVARA


Não choro, que não quero
Manchar de pranto
Um sudário de força combativa.
Reteso a dor, e canto
A tua morte viva.


A tua morte morta
Pelo próprio terror em que ficaram
À sua frente
Aqueles que te mataram
Sem poderem matar o combatente.


O combatente eterno que ficaste,
Ressuscitado
Na voluntária crucificação.
Herói a conquistar o inconquistado,
Já sem armas na mão.


Quem te abateu, perdeu a guerra santa
Da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
Um sol de redentora claridade:
O teu rosto de Cristo guerrilheiro.


Coimbra, 11 de Outubro de 1967

che_guevara_sangue.jpg

Hasta Siempre - Natalie Cardone


publicado por zassu às 11:30
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Quinta-feira, 20 de Julho de 2017

Poesia e Arte 49

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUELO TORGA

 

CEIFEIRA


Acendo a luz da coragem
E dou luz ao que pareces,
Mulher que nunca pariste!
Já que ninguém te resiste,
Que te resista a verdade.
Que seja ela a mostrar
Que lucidez pode olhar
O teu rosto de alvaiade.


Tens o nome de ceifeira,
E afrontas esse nome
De sol, suor e fartura.
Sujas o chão da planura
Só a mover a gadanha.
E a jorna de terror
Que te paga o lavrador,
É roubada, não é ganha!


Ceifas a seara humana,
E não cantas a ceifar!
Fica o restolho a chorar
Quando um rasto de pragana
Te segue pelos outeiros...
Mas levas mortos contigo!
E enches os teus celeiros
Da podridão desse trigo!


Chaves, 27 de Setembro de 1967

Silva_Porto-05.jpg

 (Pintor Silva Porto)

 


publicado por zassu às 19:04
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Quarta-feira, 19 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 412

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGONIA


Canto a pedir socorro.
A noite que atravesso é negra, e tenho medo,
Mas nem sequer o eco
Da minha voz
Vem ter comigo
E dar-me confiança.
Cala-se, ou foge noutra direcção,
Ansioso, ele próprio, de encontrar abrigo
E segurança.
E o canto vai crescendo de aflição
À medida que aumenta a escuridão
E o meu terror avança.


S. Martinho de Anta, 13 de Setembro de 1967Hombre-gritando-con-trastorno-explosivo-intermiten

 

 


publicado por zassu às 20:20
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Terça-feira, 18 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 411

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

BÚZIO


Encosto o ouvido à concha do silêncio.
Oiço um rumor de angústia na lembrança.
É o mar humano do desassossego
A ressoar...
Vinda de muito longe,
Peregrina do tempo,
A baça ondulação do sofrimento,
Baça também na imensa solidão...
Voz abafada, que não renuncia
A ter eco e razão
No surdo litoral da tirania.


Coimbra, 11 de Setembro de 1967

búzio.png


publicado por zassu às 16:16
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Segunda-feira, 17 de Julho de 2017

Poesia e Fotografia 410

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TEATRO


A triste lei dos anos!
Sou agora o inverso do menino.
Conheço de antemão os desenganos,
Sonho que sonho, penso que imagino.


Arquiteto na areia,
A saber que o castelo vai cair.
Quando a ilusão semeia,
Sinto a desilusão que hei-de sentir.


Comprei com sofrimento a lucidez
De não ser inocente.
E faço dos papéis no entremez:
O do que julga ver, e o do vidente.


Miramar, 22 de Agosto de 1967

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publicado por zassu às 14:27
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